Contos

Um projeto importante

quarta-feira, 2 de julho de 2008 Texto de

Aquele Eu­rí­pe­des, de mãos gros­sas e ca­be­lu­das, tam­bo­rila sem ritmo al­gum o ver­niz ris­cado da mesa da sala. De sua po­si­ção, vê-se quase in­teiro o quarto dos dois me­ni­nos e da mo­ci­nha. Em cur­tos in­ter­va­los, leva à boca o ci­garro de pa­lha en­ro­lado há pou­qui­nho. Olha en­tre­tido para o cô­modo onde dor­mem os fi­lhos, um em cada cama, os col­chões for­ra­dos com al­go­dão. Ne­nhum dos três está em casa agora. To­dos na es­cola no­turna, apren­dendo a es­crita. Claro, a lei­tura tam­bém. Fos­sem eles para frente, que isso não é mais para seu bico. A essa hora, cos­tuma ir to­mando, de gole em gole, sem pressa de aca­bar, o café pas­sado pela mu­lher de­pois da janta. A ca­neca verde de lata fu­mega até que a úl­tima gota desça já quase fria. De vez em quando, a pri­ma­vera ca­lo­renta so­pra uma brisa fraca. Mal dá tempo de sus­pi­rar por esse efê­mero pra­zer, pois muito de­pressa o tempo aquieta-se ou­tra vez. Lá fora, só mesmo um ou ou­tro ca­chorro la­dra, mais tarde as co­ru­jas tam­bém da­rão o ar da graça. Mas por ora é só isso mesmo: o Eu­rí­pe­des tam­bo­ri­lando na ma­deira.

Perto dele, a mu­lher cose, vez por ou­tra queixa-se de pa­nos puí­dos, as­sim, sem muita cer­teza de seu pro­testo. Daí a fa­lar do plan­tio ou da co­lheita é um pulo só. Num se­gundo, esquece-se das agru­ras re­ve­la­das pe­las rou­pas re­men­da­das para cair na ten­ta­ção da es­pe­rança per­sis­tente. Na oca­sião, no en­tanto, o ma­rido não lhe presta a de­vida aten­ção. Seu olhar en­tre­tido no rumo do quarto dos fi­lhos transforma-se em de­sas­sos­sego. A cama de Fa­bi­ana, com uma col­cha flo­rida cobrindo-lhe a ex­ten­são, é a da pa­rede bem em frente. Os pés dão para os pés da cama de um ir­mão. Eu­rí­pe­des puxa para si a ca­der­neta na qual soma uns gar­ran­chos que só ele mesmo para en­ten­der. Sabe os nú­me­ros, não as le­tras. Ra­bisca no pa­pel branco seus ris­cos de lá­pis preto. Quando faz suas con­tas, demora-se. É pre­ciso recuperar-se de cada es­forço men­tal, e cada um de­les não lhe é mo­leza al­guma. En­tre os re­sul­ta­dos, levanta-se, vai até a ja­nela, olha o tempo, prevê a de­mora da chuva. An­tes de dor­mir, em uma ou duas oca­siões ainda apossa-se da pe­quena gar­rafa tér­mica onde a mu­lher apren­dera a des­pe­jar o café. A be­bida não lhe tira o sono. Ba­tente pe­sado o dia in­teiro não vale me­nos que três ca­fe­zi­nhos.

A mu­lher Fi­loca percebe-lhe a in­qui­e­ta­ção:

– Que é que foi, su­jeito?

De con­versa pouca, faz que não ouve. Se­gue ra­bis­cando na ca­der­neta, a cada pouco dis­perso no va­zio do quarto. En­rola pa­ci­en­te­mente a se­gunda pa­lha. Os bei­ços tão afei­tos já não cap­tu­ram mais o li­geiro ar­dor do fumo. A cada tra­gada, a chama aver­me­lha e uma fu­maça forte espalha-se em re­dor. A mu­lher in­siste:

– Pa­rece ju­ruru, já vai pôr ou­tro nessa boca?

O Eu­rí­pe­des ru­mo­reja al­guma coisa in­com­pre­en­sí­vel. Ela aban­dona o te­cido no re­gaço:

– Que é que foi, su­jeito?

E as­sim aquele Eu­rí­pe­des impacienta-se, ra­lhando com ela:

– Que é que foi! Que é que foi! Por acaso, você não fala ou­tra coisa?

A mu­lher Fi­loca funga com gra­vi­dade, a bra­veza so­la­pada. Toma de volta o ser­viço:

– Hum…hum…

Pen­sando no que o per­turba, ele re­solve esquivar-se:

– Es­sas con­tas, é só du­reza, só pe­nú­ria…

Ela levanta-se e dá com as vis­tas na ca­der­neta:

– Que conta, su­jeito? Que conta é essa?

Por um ins­tante, faz zomba dela, cutucando-lhe as an­cas numa de­dada:

– Ora essa, apren­deu a ver nú­mero agora? E mais isso!

Num salto, ela põe-se de lado, de­pois re­torna a co­ser:

– Sa­ber não sei, mas que conta é essa, su­jeito?

E as­sim fi­cam, nesse chove-não-molha até mais um pouco, sem que ele res­ponda e sem que ela o com­pre­enda. Quando si­len­ciam no­va­mente os dois, Eu­rí­pe­des volta a inquietar-se, o olhar pre­gado no quarto. Mas, dali a pouco, che­gam os es­tu­dan­tes, co­mem seu pão com leite e fe­cham a porta para dor­mir. Os dias que se se­guem, em to­dos eles Eu­rí­pe­des comporta-se dessa ma­neira, e no fim da his­tó­ria quem já beira a doi­dice é a mu­lher Fi­loca, in­con­for­mada por não lhe ser dado o di­reito de com­par­ti­lhar com o ma­rido o que o ator­menta. E vai que numa noite, ma­rido e mu­lher na con­versa da lida e de ou­tros as­sun­tos da pe­quena pro­pri­e­dade, o su­jeito declara-se. Está por aque­les tem­pos gas­tando idéias com os fi­lhos. Os ho­mens vão um com treze e ou­tro com doze. A me­nina vai perto dos quinze. A mu­lher as­sunta e logo desbeiça-se, pronta para im­pe­dir um cho­ra­mingo qual­quer. Vai di­zendo:

– Ou­tro dia mesmo só eram uns to­qui­nhos…

Pica o fumo, pica, pica. Olha para a com­pa­nheira:

– Quinze anos no do­mingo, a Fa­bi­ana!

A mu­lher Fi­loca põe-se a co­ser com agi­li­dade, como se não hou­vesse em que pen­sar fora a agu­lha com a li­nha. En­fia de um lado, puxa do ou­tro, es­tica, crava o dente, corta fora. En­fia ou­tra vez, e as­sim quer refugiar-se, con­tanto que o ma­rido não lhe im­por­tune com a con­versa dos anos. Mas é ela mesma que, di­ante de uma idéia que lhe vem sem aviso, trai seu dis­farce:

– Por aí, em ani­ver­sá­rio de quinze anos de me­nina moça, se faz festa, se dança a valsa e ou­tras coi­sas…

Diz isso e seu olhar perde-se na es­cu­ri­dão que se avi­zi­nha do lam­pião den­tro da sala. Seu olhar alonga-se no breu e nele pa­rece vis­lum­brar Fa­bi­ana que vem che­gando da es­cola, mas não é nada, não. O Eu­rí­pe­des debruça-se no ba­tente da ja­nela. Da beira da cerca, umas va­qui­nhas de leite po­dem ver acender-se a pon­ti­nha ru­bra da pa­lha, uma luz in­certa na noite. Já é tempo de fe­char a ja­nela e ir dor­mir:

– Que idéias es­sas suas, mu­lher! Isso é para ou­tras gen­tes. Quem é que sabe disso por aqui?

A mu­lher Fi­loca firma-se no rumo da agu­lha:

– Hum… hum…

No sá­bado, o Eu­rí­pe­des junta a es­topa para a com­pra de mês, e os cinco mar­cham para a ci­dade. À tar­de­zi­nha, apon­tam de volta na es­trada, os me­ni­nos com os sa­pa­tos na mão, o Eu­rí­pe­des com o saco nas cos­tas e a mu­lher Fi­loca de braço dado com Fa­bi­ana. Jan­tam cedo, pois a fome cau­sada pe­las an­dan­ças é muita. O rá­dio toca al­gu­mas can­ções. Os fi­lhos, can­sa­dos, entregam-se ao sono. Bem cedo no do­mingo, Fa­bi­ana re­cebe os pa­ra­béns da mãe. O pai não sabe como fazê-lo. A me­nina quer magoar-se, mas é de­sa­con­se­lhada pela mãe. Ho­mem é as­sim mesmo. Com os ir­mãos, vai à missa men­sal na ca­pela ali por perto. Quando re­torna, mãe Fi­loca chama-a ao quarto. Seu pre­sente de quinze anos está posto, e a ani­ver­sa­ri­ante agradece-lhe muito por aquilo, beijando-lhe o rosto, abraçando-a com ale­gria. Pelo al­moço, o Eu­rí­pe­des chega de me­xer com a terra. Fingindo-se de­sin­te­res­sado, passa lento pela sala, es­pi­ando den­tro do quarto dos fi­lhos, e nisso uma sú­bita quen­tura agita-lhe o peito e deixa-o mesmo achando que não se trata de ou­tra coisa se­não um des­me­dido con­ten­ta­mento: em seu canto, Fa­bi­ana está en­co­berta pela cor­tina de flo­res que ele com­prara on­tem e que, sob os cui­da­dos da mu­lher Fi­loca, já di­vide o cô­modo em dois. O vulto da fi­lha moça dança le­ve­mente atra­vés do te­cido on­du­lado pela brisa. Fa­bi­ana agora pode ter seus re­ca­tos.

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