Crônicas

Ária árida

terça-feira, 26 de agosto de 2014 Texto de
Público durante o show de Léo Canhoto e Robertinho, na Fazenda Barra Grande, em Tibiriçá (Bauru)

Pú­bli­co du­ran­te o show de Léo Ca­nho­to e Ro­ber­ti­nho, na Fa­zen­da Bar­ra Gran­de, em Ti­bi­ri­çá (Bau­ru)

No te apu­res ya más, lo­co
por­que es en­ton­ces cu­an­do las ho­ras
ba­jan, el día es vi­drio sin sol

(Tre­cho da can­ção “Ba­jan”, Pes­ca­do Ra­bi­o­so)

Lá fo­ra, o ven­to mor­no me­xe le­ve­men­te as fo­lhas do co­quei­ro. A noi­te caiu não faz mui­to tem­po e as es­tre­las co­me­çam seu ba­lé de bri­lhos pra­te­a­dos. Nós já es­ta­mos dei­ta­dos. É o sí­tio lá pe­lo iní­cio da dé­ca­da de 1970. Aqui as ho­ras bai­xam mais ce­do.

Te­nho se­te ou oi­to anos. Meu tio li­ga o rá­dio de pi­lha num pro­gra­ma cu­jo no­me era “Li­nha Ser­ta­ne­ja Clas­se A”. Não me lem­bro se era na Re­cord ou na Ca­pi­tal. Mas me lem­bro do no­me do apre­sen­ta­dor: Jo­sé Rus­so. As ve­lhas du­plas ser­ta­ne­jas des­fi­la­vam su­as vo­zes ali. No rá­dio AM.

Mais de qua­ren­ta anos de­pois, es­tou nu­ma fa­zen­da. A tar­de cai com a len­ti­dão pró­pria das coi­sas do cam­po. Cai por de­trás de ár­vo­res de ga­lhos se­cos, ju­di­a­dos pe­la es­ti­a­gem. Ali, em meio à ve­ge­ta­ção e a pes­so­as sim­ples, a du­pla “Léo Ca­nho­to e Ro­ber­ti­nho”, uma das mais an­ti­gas em ati­vi­da­de, sol­ta a voz.

E nos meus pen­sa­men­tos, avan­çam os ecos da vi­da que fi­cou pa­ra trás.

Não tem a ver com gos­to mu­si­cal. Com es­ti­lo de vi­da. Na­da dis­so. Ape­nas me vêm on­das inex­pli­cá­veis de uma nos­tal­gia fe­roz.

Ao la­do de ami­gos, vas­cu­lho cer­ta ale­gria de es­tar en­tre gen­tes de uma sim­pli­ci­da­de de ma­chu­car o co­ra­ção.

Um se­nhor pas­sa por mim e fa­la qual­quer coi­sa so­bre o show. Fa­la co­mo se me co­nhe­ces­se des­de os pri­mór­di­os do mun­do. Pas­so o bra­ço em tor­no de seu pes­co­ço pa­ra ti­rar­mos uma fo­to jun­tos. Te­nho von­ta­de de di­zer a ele eu ad­mi­ro o se­nhor, in­de­pen­den­te­men­te de quem o se­nhor se­ja, eu ad­mi­ro o se­nhor. Sa­be por quê? Por que o se­nhor é o ma­to, a ár­vo­re, aque­le pás­sa­ro que sen­tou no ga­lho se­co, o se­nhor é a pró­pria se­ca! É por is­so que eu ad­mi­ro o se­nhor!

Mas não fa­lo.

A du­pla can­ta mú­si­cas que não co­nhe­ço. Al­guns ami­gos as sa­bem de cor e sal­te­a­do. Eu me­xo a bo­ca com eles. Fin­jo que can­to. Mas meu can­to é só um pás­sa­ro de asas ma­chu­ca­das. Que não se aba­la aos qua­tro ven­tos. Que não ex­plo­ra a imen­si­dão do céu cin­za do in­ver­no quen­te de agos­to. Que não gor­jeia lá atrás das ca­sas ve­lhas e an­ti­gas. Das te­lhas es­cu­ras e car­co­mi­das. Do boi que pas­ta in­di­fe­ren­te sob o úl­ti­mo raio de sol que faz o ho­ri­zon­te ala­ran­ja­do e tris­te co­mo são to­dos os ho­ri­zon­tes dos sí­ti­os à tar­de­zi­nha.

No pal­co, os ve­lhos ser­ta­ne­jos fa­lam de um úl­ti­mo jul­ga­men­to. Já es­tá qua­se es­cu­ro. To­das aque­las pes­so­as que che­ga­ram no iní­cio da tar­de, e des­de há um bom tem­po aco­mo­da­das em ca­dei­ras, sen­ta­das e aten­ci­o­sas, sob uma edu­ca­ção exem­plar, to­das aque­las pes­so­as can­tam com eles, vi­ram-se pa­ra o la­do e fa­zem co­men­tá­ri­os com os vi­zi­nhos, aplau­dem, pe­dem ou­tra, um ve­lho de pe­le ju­di­a­da pe­ga na mão da mu­lher tal­vez sem se dar con­ta do ca­ri­nho es­pon­tâ­neo, a noi­te cai.

Ou­ço de no­vo os ga­lhos do co­quei­ro, o chi­a­do do rá­dio, o pio da co­ru­ja, o la­ti­do dis­tan­te dos ca­chor­ros, o mu­gi­do das va­cas, uma fru­ta que cai do pé. Ve­jo pe­la ja­ne­la as es­tre­las que só bri­lham nos sí­ti­os. O ven­to mor­no ro­ça meu ros­to.

Es­tou em ca­sa...

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