Crônicas

Gênese do amor

terça-feira, 17 de dezembro de 2013 Texto de
(Foto: Vicente Melo)

(Foto: Vi­cente Melo)

No sé­timo dia, um se­gundo an­tes de des­can­sar, Deus olhou em re­dor e de re­pente en­tre o si­lên­cio rompeu-se o som de um ín­fimo de­ci­bel, nada mais, em­bora su­fi­ci­ente para ter sido ou­vido por to­dos os con­fins de um mundo ainda in­cons­ci­ente. Deus, na­quele mo­mento, ha­via to­mado a forma de um mi­nús­culo in­seto e, como se ti­rasse a po­eira das asas, zum­bia se­gui­da­mente.

De cima do ga­lho mais alto da úl­tima ár­vore nas­cida so­bre a terra, um pen­sa­mento ecoou:

– Está tudo lindo, mas es­pere aí…

Deus en­tão sacudiu-se den­tro do corpo do in­seto e numa fra­ção de se­gundo, se hou­vesse a pos­si­bi­li­dade de al­guém ob­ser­var a cena, um ma­caco pendurava-se na grande ár­vore pelo rabo. Balançava-se e ria de si mesmo. 

– Mi­nhas me­lho­res ideias fo­ram con­ce­bi­das nessa po­si­ção…

E sem mais per­der tempo, encarapitou-se de volta ao ga­lho. Con­for­ta­vel­mente sen­tado, ad­mi­rou no­va­mente sua obra-prima. 

– Está tudo lindo, lindo mesmo, mas que mo­no­to­nia in­su­por­tá­vel!

Virando-se para o chão, acor­dou o anjo-tabelião, que ron­cava en­cos­tado ao tronco com as es­cri­tu­ras pri­mei­ras so­bre as per­nas, abraçando-as como se pu­des­sem roubá-las!

– Ve­nha cá, fol­gado.

O anjo-tabelião tra­zia uma ex­pres­são de can­saço, es­fre­gava os olhos.

Pen­sou a ele Deus:

– Va­mos re­a­brir o pro­cesso!

O anjo-tabelião deu um salto para trás, as­sus­tado e con­fuso.

– Mas, mas…

Ha­via já en­cer­rado o li­vro feito de fo­lhas, muito pa­re­ci­das com a ve­ge­ta­ção seca das vi­dei­ras.

– Já, já…

Deus o en­ca­rou de­ti­da­mente.

– Já, já… até fiz as bor­bo­le­ti­nhas no fim…

Im­pa­ci­ente com a he­si­ta­ção do anjo-tabelião, Deus es­ti­cou os bra­ços pe­lu­dos e ar­ca­dos e to­mou dele o li­vro.

– Tsc, tsc, tsc, você e suas ma­nias… Mas não há pro­blema, é só in­cluir­mos uma emenda de­pois das bor­bo­le­ti­nhas.

O anjo-tabelião mal con­se­guia di­zer pa­la­vra:

– Vai es­tra­gar…

A ima­gem de uma lá­grima pai­rou sob suas olhei­ras.

– É para sem­pre, lem­bra?

Deus sus­pi­rou lon­ga­mente e, antecipando-se a um fu­turo apelo hu­mano, resignou-se. 

– Bem, feito está…

E de ime­di­ato, so­bres­sal­tado, o anjo de­sa­bou de novo à terra. Ha­via agora di­ante de si um cor­pu­lento dra­gão de cu­jas ven­tas desprendia-se algo se­me­lhante a um va­por. E que logo se tor­nou uma única e imensa la­ba­reda que co­briu to­dos os ares do mundo, sem no en­tanto cau­sar um dano se­quer à re­cente cri­a­ção.

Pen­sou Deus, sa­tis­feito e an­si­oso:

– Para isto não será pre­ciso re­gis­tro. Não se es­creve. Não se ex­plica. Só se sabe que está aqui, no ar, de onde não será pos­sí­vel es­ca­par um só ser vivo. 

Ex­ta­si­ado com a for­ma­ção do grande fogo do amor que dei­xou a at­mos­fera im­preg­nada para sem­pre, o anjo-tabelião vol­tou os olhos ao alto ga­lho e de lá, sem aviso, um ex­cep­ci­o­nal car­cará arremeteu-se pe­los ares num voo eterno e poé­tico de di­men­sões in­con­ce­bí­veis.

E a par­tir daí, con­tra­ri­ando os pró­prios es­cri­tos di­vi­nos fir­ma­dos an­tes das bor­bo­le­ti­nhas de­se­nha­das pelo anjo-tabelião, não, não houve, não, ne­nhum des­canso.

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