Crônicas

Um dia muito especial

quarta-feira, 7 de agosto de 2013 Texto de

Hoje foi um dia muito es­pe­cial pra mim.

Mas o que acon­te­ceu?

Nada.

Quer di­zer, nada que seja digno de nota (do tipo que nos acos­tu­ma­mos a con­si­de­rar im­por­tante – pas­sei num con­curso, fiz um ótimo ne­gó­cio na mi­nha em­presa, ga­nhei na lo­te­ria, tive au­mento sa­la­rial, com­prei o carro que sem­pre quis, es­tou mu­dando para a casa dos meus so­nhos, aquela me­nina fi­nal­mente me en­xer­gou).

Nada disso.

Ape­nas o se­guinte:

a) Saí para al­mo­çar a pé e na volta, nas ime­di­a­ções de onde moro, ao pas­sar em frente à casa de um ca­chorro grande, pelo curto, cor creme (acho que é la­bra­dor), eu o ouvi cor­rendo ao por­tão. Num ou­tro dia, ele es­tava la­tindo feito louco, em­pi­nado na grade do por­tão que dá para a rua, como se fosse aca­bar com todo mundo. Bom, aí hoje eu es­tava pas­sando lá e per­cebi que ele vi­nha cor­rendo, ofe­gante, para a grade. Pen­sei lá vem ele la­tir que nem um louco. Di­mi­nuí o passo e es­pe­rei por ele. Só que, ao in­vés de la­tir, ele tra­zia uma bola ver­me­lha na boca e fi­cou fa­zendo aque­les mo­vi­men­tos tí­pi­cos de ca­chorro que quer brin­car, a bola co­lada ao chão, ele a se­gu­rando com a boca, ore­lhas em­pi­na­das, olhos cra­va­dos em mim, “vem pe­gar, vem!”.

b) De­pois de to­mar café com um amigo, fui ao su­per­mer­cado com­prar umas coi­si­nhas que es­tava pre­ci­sando. No ca­mi­nho, pe­guei o DVD do filme Anna Ka­re­nina. E en­tão me vi­e­ram à ca­beça Tols­tói, Dos­toiévski, Tchekhov, Tur­gue­niev, Pas­ter­nak, gi­gan­tes rus­sos da li­te­ra­tura cu­jas obras tor­nam pos­sí­vel acre­di­tar na hu­ma­ni­dade. Res­pi­rei o ar quente do in­verno bau­ru­ense, tão oposto ao am­bi­ente quase sem­pre ge­lado dos li­vros de to­dos eles, e res­pondi com bom hu­mor à per­gunta de um cara que pro­cu­rava um lu­gar para fa­zer a re­carga do ce­lu­lar.

c) No su­per­mer­cado, vi um saco com uma ver­dura tão bo­nita que me deu von­tade de abrir o plás­tico e en­fiar a ca­beça lá den­tro, e nisso me lem­brei da terra ao qual sou li­gado por uma fi­bra po­tente que não me faz per­der a es­pe­rança de um dia vol­tar a ela (e isso, bem en­ten­dido, não tem nada a ver com a morte, pois na ver­dade eu, quando mor­rer, se­rei cre­mado!). Com­prei a ver­dura, claro. E vou comê-la!

d) À noi­ti­nha, saí para mi­nha an­dança diá­ria de dez quilô­me­tros e por acaso en­con­trei um ca­chorro que mora aqui perto de casa, um pas­tor com cara de ve­lho, meio de­sen­gon­ça­dão, que às ve­zes late pra mim como se de­se­jasse me tru­ci­dar e ou­tras ve­zes, dei­tado no ci­mento e sem me­xer um único mús­culo, me olha com cara de coi­tado, hoje não, Márcio, to meio cai­daço, fica pra ou­tro dia. Um cara, acho que o dono (que nunca vi), es­tava dando umas cor­ri­di­nhas com ele, mas ele, pelo que per­cebi, não es­tava aguen­tando o tranco. Cor­ria por al­guns me­tros e pa­rava, e as­sim por di­ante. Fi­quei con­tente por­que gosto dele (do ca­chorro). E sem­pre que passo em frente ao quin­tal onde ele mora, penso será que não pas­seiam com esse ca­chorro, será que não ti­ram ele do quin­tal uma ou ou­tra vez, será que não o le­vam para mi­jar na rua, para chei­rar a bunda das ca­de­las, para gas­tar a ener­gia bruta dos cães? Hoje, quando o vi, co­me­cei a rir so­zi­nho.

e) E as­sim as coi­sas fo­ram ro­lando. E eu, na volta da ca­mi­nhada, ou­vindo no MP4 ou sei lá o que se chama esse troço que a gente bota no ou­vido para ou­vir mú­sica, ou­vindo as mú­si­cas que mi­nha fi­lha gra­vou pra mim, pen­sei que eu, se fosse ne­ces­sá­rio, da­ria a vida por ela (mi­nha fi­lha). Di­zem que o amor pa­terno não chega aos pés do amor ma­terno. Mas quem pode pro­var algo tão sub­je­tivo? Existe a mãe, que sente o amor dela. E o pai, que sente o amor dele. Não dá para com­pa­rar. Não existe um termô­me­tro para me­dir a fe­bre do amor. Eu só sei, fi­quei pen­sando, que ven­de­ria mi­nha alma por ela (mi­nha fi­lha), que pas­sa­ria a eter­ni­dade no fogo do in­ferno ou na in­cer­teza do pur­ga­tó­rio ou na mo­no­to­nia ce­les­tial por ela (mi­nha fi­lha). Até aqui na terra! Até aqui na terra eu fi­ca­ria para sem­pre (veja onde é ca­paz de che­gar um amor pa­terno!) por ela (mi­nha fi­lha).

f) En­quanto as flo­res de São João (mi­nhas pre­fe­ri­das) ra­bis­ca­vam meu rosto, pen­sei tam­bém que to­dos es­ses pen­sa­men­tos pen­sa­dos num dia qual­quer po­dem não ser lá es­sas coi­sas para muita gente. Mas eu te­nho cer­teza de que um ou ou­tro com­pre­en­derá este meu rom­pante, uma quase fe­li­ci­dade im­pe­tu­osa que varre você em mi­nu­tos e de­pois vai em­bora com a maior cara de sa­cana. Por­que gente como eu, que car­rega con­sigo uma eterna an­gús­tia, uma tris­teza en­rai­zada, uma ine­vi­tá­vel queda pela so­li­da­ri­e­dade ao so­fri­mento mun­dial, aquele aperto no co­ra­ção que nin­guém ja­mais po­derá tra­du­zir ou nem mesmo ten­tar ex­pli­car, gente as­sim se sur­pre­ende quando, por al­guns mi­nu­tos ou al­gu­mas ho­ras, en­tra nesse es­tado, di­ga­mos, de sa­tis­fa­ção cuja ori­gem e cuja con­sequên­cia não pas­sam de um sus­piro. E é só isso mesmo. Não há nada a acres­cen­tar, coi­sas como “en­tão ele sen­tiu o so­pro da fe­li­ci­dade e sua vida se trans­for­mou”. Não! Trans­for­mou coisa ne­nhuma. Em se­guida é a an­gús­tia ou­tra vez, é a tris­teza en­rai­zada ou­tra vez, é o aperto ou­tra vez, até que, num belo dia, não sei quando, você sente no­va­mente a pre­sença de um dia es­pe­cial.

g) Com to­das es­sas ideias cha­fur­dando meu crâ­nio va­zio, onde há ape­nas uma es­puma que um dia des­ses pode se des­fa­zer como a es­puma de um de­ter­gente va­ga­bundo que deixa a bu­chi­nha da pia na mão, com to­das es­sas elu­cu­bra­ções, essa ver­da­deira mas­tur­ba­ção exis­ten­cial, che­guei ao por­tão do pré­dio onde moro. E es­tava saindo um ca­sal com um ca­chorro na co­leira. Para pas­sear. Olhei para ele (para o ca­chorro) e ele ime­di­a­ta­mente se em­pi­nou nas mi­nhas per­nas. Um bul­do­gue cam­peiro, dis­se­ram os do­nos. Seis me­ses. É bravo? Não, mas cui­dado com as unhas dele. E ele me cra­vando as unhas na ber­muda, me lam­bendo as mãos, gru­nhindo bai­xi­nho, como se fosse meu ami­gão de ve­lhos tem­pos. Mike, o nome dele. Me deu von­tade de ajo­e­lhar e abraçá-lo, mas tive ver­go­nha. Mike, pra fe­char o dia. Como se me co­nhe­cesse há um tem­pão. Como se gos­tasse de mim.

E é isso. Não tem con­clu­são. Não tem fim. Não tem li­ção de mo­ral. Não tem o que com­pre­en­der.

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