Crônicas

“O Mestre” e “O Bis”

quarta-feira, 3 de julho de 2013 Texto de

Faz al­gum tempo que eu não como do­ces por von­tade pró­pria. Ex­plico: não os com­pro; feito cri­ança, só os como quando me dão. Quando vou à casa da mi­nha mãe, é uma per­di­ção com­pleta: ros­qui­nhas de pinga, man­te­cal (sin­ce­ra­mente, não sei como se es­creve), doce de ma­mão, doce de leite, doce de abó­bora… De vez em quando, a avó da mi­nha fi­lha tam­bém me em­pan­turra de bo­los, pu­dins etc e tal. Só que no que de­pen­der de mim, é seca to­tal. En­tre­tanto, toda re­gra tem ex­ce­ção. E muito es­po­ra­di­ca­mente, ven­cido pe­los su­per­mer­ca­dos da vida, levo para casa o cho­co­late que eu mais gosto: o Bis.

E lá es­tava eu, de­pois de abrir uma gar­rafa de vi­nho, as­sis­tindo ao filme “O Mes­tre”, com Phi­lip Sey­mour Hoff­man (de quem sou fã) e Jo­a­quin Pho­e­nix (de quem nunca fui muito com a cara). Grande filme. Não sei por que não con­cor­reu ao Os­car. Tal­vez por­que a tal aca­de­mia não seja muito a fim de fil­mes que fa­zem pen­sar, de fil­mes que fo­gem àquela es­tru­tu­ri­nha bá­sica que o pu­bli­cão quer ver para “se di­ver­tir”, co­mendo pi­poca, con­fe­rindo as men­sa­gens no ce­lu­lar e con­ver­sando ani­ma­da­mente com a pes­soa ao lado. 

Phi­lip e Jo­a­quin dão um show de in­ter­pre­ta­ção. Na mi­nha mo­des­tís­sima opi­nião, por­que não en­tendo porra ne­nhuma de in­ter­pre­ta­ção, é o me­lhor pa­pel de Jo­a­quin Pho­e­nix, que pra mim vi­rou Jo­a­quin Fê­nix, isso mesmo: res­sur­giu das cin­zas.

Bom, mas es­tá­va­mos no vi­nho e no Bis, essa é a ver­dade.

O filme dis­cute ques­tões es­pi­ri­tu­ais, in­cluindo vi­das pas­sa­das. Lá pe­las tan­tas, aperto o bo­tão­zi­nho de pause. Vou ao ba­nheiro, dou aquela mi­jada gos­tosa que da­mos no meio de um filme do qual gos­ta­mos, tipo fi­que aí me es­pe­rando, DVD­zi­nho ba­baca, eu es­tou no co­mando, paro você quando eu bem en­ten­der, e se qui­ser ainda meto o dedo no re­view, ok? 

Volto, pego o con­trole e um se­gundo an­tes de aper­tar o play (por que será que mesmo num país de lín­gua por­tu­guesa como o nosso, a NET manda es­ses con­tro­les re­mo­tos com tudo es­crito em in­glês, hein?) eu me lem­bro da­quela cai­xi­nha de Bis que está es­con­di­di­nha no ar­má­rio da co­zi­nha (eu mesmo es­condi de mim mesmo pra ver se eu es­que­cia, mas, como se vê, não es­queci).

Fa­zer o quê? Vou até lá e, muito a con­tra­gosto, po­rém, com o co­ra­ção aos so­la­van­cos, meto a pa­tona no in­vó­lu­cro re­tan­gu­lar. Apalpo aquela su­per­fí­cie li­si­nha como só uma cai­xi­nha de Bis sabe ser (in­crí­vel, pa­rece que ela vem sem­pre de­pi­lada) e conto os ta­ble­ti­nhos: qua­tro. Qua­tro! Fico fe­liz. Por­que al­guém que se dis­põe a não sair da li­nha quando o as­sunto é doce, cho­co­late e es­sas pu­nhe­ti­nhas to­das, al­guém as­sim pre­cisa es­tar sem­pre atento, não é?

(Pe­raí que o vi­nho aca­bou e vou abrir ou­tro!)

(Ca­cete, na pró­xima en­car­na­ção – se hou­ver, coisa que eu tô achando lo­rota da­quele ET fi­lho da puta ali em cima –, não quero que a fa­mí­lia da mi­nha ex-mulher fi­que me abas­te­cendo com gar­ra­fas e mais gar­ra­fas de vi­nho, uís­que, li­co­res etc etc. Mas, bem en­ten­dido, isso fica para a pró­xima en­car­na­ção. Nesta, acho me­lhor con­ti­nuar do jeito que está.)

Vol­tando. Pego a cai­xi­nha de Bis e vejo que há qua­tro ta­ble­ti­nhos (guar­dem isso por­que será im­por­tante da­qui a pouco). Vou para o sofá. Fi­nal­mente aperto o play e o filme se­gue. Eu como o pri­meiro Bis e ime­di­a­ta­mente, o se­gundo. Por­que Bis é as­sim. O nome já en­trega, né? Quem con­se­gue man­dar um só para den­tro? Nin­guém, claro. 

Está (no filme) aquele clima de vi­das pas­sa­das e por aí vai, e eu mando os dois ta­ble­tes res­tan­tes. En­fim, aca­bou. Sob um ine­vi­tá­vel clima de ve­ló­rio, em­purro a cai­xi­nha (com a me­tade co­berta por aquele plás­tico de­pi­lado azul) para o lado e penso que ótimo filme, do jeito que eu gosto, um filme de diá­logo, in­ter­pre­ta­ção, elu­cu­bra­ção…

O per­so­na­gem do Phi­lip Sey­mour Hoff­man está ex­pli­cando algo a res­peito de es­pí­ri­tos que vi­vem di­ver­sas vi­das ao mesmo tempo, que en­quanto você está aqui, você tam­bém está lá, e nisso, pas­mem!, ouço uma coisa que todo mundo já deve ter ou­vido: um plás­tico es­ta­lar, aquele ba­ru­lhi­nho su­per na­tu­ral, como quando amas­sa­mos a capa do ovo de Pás­coa e ela fica lá ge­mendo até o Cor­pus Ch­risti.

Só que era ali, em cima da me­si­nha de cen­tro, a pró­pria cai­xi­nha de Bis cre­pi­tando. O Phi­lip Sey­mour Hoff­man di­zendo so­bre nosso en­vol­vi­mento com acon­te­ci­men­tos de tri­lhões de anos, com as coi­sas que ro­lam sem que pos­sa­mos com­pre­en­der, e eu vou pe­gar mais uma taça de vi­nho. Como não quero der­ru­bar a be­bida, aperto pause no­va­mente. E apro­veito para le­var a cai­xi­nha de Bis ao lixo (pois é, sou meio neu­ró­tico quanto a isso). 

No ca­mi­nho, do jeito que pe­guei a cai­xi­nha, sinto o po­le­gar em con­tato com uma su­per­fí­cie dura. Penso: é o plás­tico que não ras­guei. Está ainda es­ti­cado, en­vol­vendo me­tade da cai­xi­nha, e por isso dá a im­pres­são de uma su­per­fí­cie rí­gida. Mas ao mesmo tempo uma sen­sa­ção es­tra­nha evoca ins­tin­tos ime­mo­ri­ais. A um passo do li­xi­nho da pia, aperto ou­tra vez a cai­xi­nha do Bis e… ca­ra­lho!

Isso não é plás­tico duro, porra ne­nhuma!

Sim, lá es­ta­vam mais dois ta­ble­ti­nhos, jun­tos, cúm­pli­ces, sar­cás­ti­cos e, até acho, ri­so­nhos. Sur­gi­dos do nada. De uma vida pas­sada! Eu não acre­di­tava. Que­ria que o Phi­lip Sey­mour Hoff­man e o Jo­a­quin Pho­e­nix fos­sem pras pu­tas que os pa­ri­ram. Sob a luz pá­lida que vi­nha da rua (eu só as­sisto aos meus fil­mes no es­curo), des­vir­gi­nei ( e aqui, para “en­cai­xar” me­lhor, vou usar ta­blete no es­pa­nhol) aque­las ta­ble­tas, aque­las pas­til­las, en­fi­ando a lín­gua, a boca, os den­tes, a alma na­quela do­çura ir­re­sis­tí­vel.

Comi as duas em pé! 

Comi as duas em pé no meio da co­zi­nha, como manda o bom fi­gu­rino.

Sa­ci­ado, sem com­pre­en­der o fenô­meno mís­tico, vol­tei ao con­trole re­moto e vi o filme até o fim. Belo filme. 

Gosto de obras em que você fica es­pe­rando algo in­crí­vel acon­te­cer, mas não, nada de in­crí­vel acon­tece. Como na­quele li­vro ma­ra­vi­lhoso do ita­li­ano Dino Buz­zati, “O de­serto dos tár­ta­ros”, em que o per­so­na­gem prin­ci­pal aguarda por uma guerra que nunca vem. Acho que gosto de fil­mes e li­vros as­sim por­que mi­nha pró­pria vida tam­bém é as­sim: uma longa es­pera por algo que não sei bem o que é, e nem mesmo se um dia virá. 

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