Crônicas

Episódio de Natal, na rua

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012 Texto de

QUERIA TANTO
te fa­lar algo,
te dar um pre­sente,
te de­se­jar fe­li­ci­dade,
acho que tam­bém te bei­jar

você vai des­cendo a rua, ves­ti­di­nho flo­rido,
a mão es­querda agar­rada ao pai (su­po­nho),
a di­reita tra­çando cur­vas no ar (pro­po­nho),
sob o dia nu­blado de de­zem­bro

você vai des­cendo a rua, chi­ne­li­nho de dedo,
dando pas­sos en­tre pe­que­nos sal­tos,
o ca­belo dan­çando no meio das cos­tas,
um sor­riso que você não con­trola mais

você vai des­cendo a rua, ar­qui­nho na ca­beça,
es­pe­rando o que não sabe tal­vez (acre­dito),
uma sur­presa quem sabe,
um mo­mento fe­liz (ben­dito)

quero ir até você e te fa­lar,
mas não dá, não sei nada disso,
e o que di­zer ao pai?
não dá, re­pito pra mim

e fico no carro te olhando,
vi­dro fe­chado es­con­dendo meu es­tado,
você já perto da es­quina longe,
com seus so­nhos de Na­tal

(Hoje, não sei por que, lem­brei dessa me­ni­ni­nha que, há uns três ou qua­tro anos, des­cia a rua Aza­rias Leite num sá­bado de Na­tal, toda ani­mada em sua sim­pli­ci­dade. O pai (acho que era), um ho­mem rús­tico, de cha­péu, calça clara, ca­misa xa­drez e bi­gode, a le­vava pela mão. E eu fi­quei pen­sando que a me­ni­ni­nha ia es­pe­rando que ele lhe com­prasse um pre­sente. Es­pero que sim. Que ele te­nha com­prado. Que ela te­nha fi­cado fe­liz. Que ela seja fe­liz.)

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