Contos

No bar, à meia luz

terça-feira, 10 de abril de 2012 Texto de

Sabe es­ses ca­ras que ado­ram se ga­bar em su­pos­tas aven­tu­ras se­xu­ais? Meu amigo X é um des­ses. On­tem, co­meu a gos­tosa da vi­zi­nha. An­te­on­tem, a prima. Ama­nhã vai sair com a irmã da cu­nhada. E por aí vai. É até di­ver­tido. Por­que ele sem­pre exa­gera, tor­nando tudo sus­peito. Mas não é que ou­tro dia ele, ao me­nos uma vez, pa­re­ceu ter sido sin­cero? Es­tá­va­mos num café dis­cu­tindo ne­gó­cios e, mostrando-se per­tur­bado, ele in­ter­rom­peu o papo para me con­tar o pe­queno drama. Dessa vez, deu para acre­di­tar.

Es­tava o X um dia des­ses num bar­zi­nho do Bi­xiga. Ele e, claro, uma moça. Que co­nhe­cera ha­via pou­cos dias, mas que – pas­mem! – ainda não per­mi­tira os fi­nal­men­tes. X não su­por­tava mais aquela pe­quena seca. “Eu só pen­sava nela e ela nada.” Che­gara para o en­con­tro com um ves­ti­di­nho curto e um sa­pato de salto alto que lhe em­pi­nava des­gra­ça­da­mente as an­cas. Con­versa vai, con­versa vem, be­bida vem, be­bida vem de novo, a certa al­tura ela pa­re­ceu “fle­xi­bi­li­zar” a re­la­ção.

Num can­ti­nho à meia luz, os bei­jos se tor­na­ram tór­ri­dos, as mãos se­gui­ram o curso que sem­pre se­guem nes­sas ho­ras. Per­nas se en­tre­la­ça­ram, a coisa es­quen­tou pra va­ler. “Mas ti­nha muita gente, X?” Sim, o bar es­tava lo­tado e isso, na ver­dade, ajudava-o nos mo­vi­men­tos sor­ra­tei­ros. Mas eis que, e não se sabe o mo­tivo, X pas­sou a se sen­tir atraído por uma con­versa na mesa vi­zi­nha. Bem no meio do lance todo. 

Dois su­jei­tos de certa idade ou­viam um ter­ceiro de idade maior ainda. O ve­lhi­nho, de cha­péu em plena noite pau­lis­tana, encontrava-se bem pró­ximo a X. Tal­vez por isso fosse ine­vi­tá­vel ouvi-lo. E en­quanto co­chi­chava in­de­cên­cias no ou­vido da ga­rota, en­quanto apal­pava suas co­xas bem tor­ne­a­das, en­quanto sen­tia seu sexo la­te­jar sob as mãos atre­vi­das de sua de­li­ci­osa com­pa­nhia, X ou­viu o ve­lhi­nho.

Sim, era ver­dade, as­se­gu­rava aos com­pa­nhei­ros de mesa. Na pa­rede da serra, no meio da ve­ge­ta­ção car­co­mida pelo ve­rão in­can­des­cente, é que se dera o caso, lá pelo norte da Bahia, en­tre Monte Santo e Ca­nu­dos. Pro­cu­rava o ani­mal já fa­zia dias. Era de monta, in­dis­pen­sá­vel ao dia a dia no ser­tão, à fa­mí­lia po­bre, à sua gente pre­ci­sada.

“Eu já nem sa­bia di­reito se era quinta ou se era sexta. Só lem­brava que ti­nha saído de casa no do­mingo à tar­de­zi­nha.” O ve­lhi­nho con­tava sua his­tó­ria com voz que­bra­diça, sus­pen­dendo a nar­ra­tiva de ins­tan­tes em ins­tan­tes para to­mar fô­lego ou dar um pe­queno trago. No fim das con­tas, en­con­trara o ca­valo aver­me­lhado. Po­si­ci­o­nado no cume da serra, vas­cu­lhara toda a en­costa com olhar es­pre­mido con­tra a pai­sa­gem tre­me­lu­zente. Sim, era ele mesmo. O Ca­ram­bola es­tava lá. Mas como po­dia ser?

X, en­quanto isso, re­tro­ce­dera em sua em­prei­tada. In­vo­lun­ta­ri­a­mente sus­pen­dera o ata­que. Agora ele era ape­nas o alvo. Agora ela é quem avan­çava na aven­tura pú­blica. Abrira-lhe o zí­per da calça! “Es­tava pen­du­rado numa ga­lhada, a crina ba­lan­çando, o rabo pra lá e pra cá, como se nada ti­vesse acon­te­cido com aquele tombo me­do­nho que o coi­tado le­vou”, admirou-se o ve­lhi­nho an­tes de be­ber mais um pouco. “Mas vivo?”, per­gun­tou um dos ou­vin­tes. “O que acon­te­ceu?”, a ga­rota sus­sur­rou a X. “Mor­ti­nho da silva”, res­pon­deu o ve­lhi­nho. “Mor­ti­nho!”, re­pe­tiu X. A ga­rota retraiu-se, ti­rando a mão de lá num re­pente.

O clima se­ria, se­gundo o ve­lhi­nho, o res­pon­sá­vel pelo fenô­meno. “Hein, o que acon­te­ceu?”, in­sis­tiu a moça. O ca­valo, in­tacto, pa­re­cia vivo. Um ca­valo vo­ando no pa­re­dão da serra. “Que cara mais louco.” Só de­pois, ao che­gar mais perto, é que o dono certificou-se do pas­sa­mento. O bi­cho mor­rera de ver­dade, mas apa­ren­tava mesmo es­tar vivo. Vi­vís­simo. Gente mais hu­milde fa­lou em mi­la­gre. Formou-se até ro­ma­ria. E o Ca­ram­bola ainda voou por bons me­ses an­tes de co­me­çar a se de­sin­te­grar, an­tes que se trans­for­masse numa os­sada que aos pou­cos foi caindo dos ga­lhos.

Sem per­ce­ber, X fi­tava o ve­lhi­nho in­ces­san­te­mente. Quando se vi­rou, es­tava so­zi­nho. Viu a ga­rota, so­bre os sal­tos, atra­ves­sando a rua. X encontrava-se ine­bri­ado pelo ca­valo vo­a­dor no ser­tão bai­ano. Só restava-lhe agora fe­char o zí­per e par­tir para ou­tra.

“Mar­cião do céu, por causa de um ca­valo morto e um burro ve­lho, perdi uma po­tra no cio… ah!ah!ah!”

Pois é. His­tó­ria de besta. 

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