Crônicas

A órbita das desculpas

quarta-feira, 20 de abril de 2011 Texto de

Fiz uma tre­menda bo­ba­gem, não fiz? Como al­guém pode co­me­ter um des­lize desse tipo? E logo com você? Sabe o que mais? Me sinto tão mal que nem sei como pe­dir des­cul­pas. Na ver­dade, não sei se há es­paço para esse tipo de ati­tude. Desculpar-se por algo é como ti­rar cara ou co­roa. Por­que a pes­soa a quem você pede des­cul­pas nunca terá cer­teza se o pe­dido é sin­cero ou se é ape­nas uma es­tra­té­gia bem pla­ne­jada.

Mas in­de­pen­den­te­mente de sair cara ou cora, o fato in­con­tes­tá­vel é a sa­ca­na­gem cra­vada nesta re­a­li­dade. Não há como arrancá-la da nossa frente sem dei­xar no lu­gar uma fe­rida. Uma fe­rida des­sas cuja ci­ca­triz vai sem­pre nos ator­men­tar. Um olho boi­ante que nos acom­pa­nha como um barco à de­riva se­gue as on­das do mar.

A bes­teira está feita.

Fico pen­sando se eu po­de­ria ter evi­tado. Mas é como ten­tar ana­li­sar fri­a­mente nossa pró­pria ati­tude num mo­mento de ner­vos à flor da pele. Al­guém de fora, com ab­so­luta isen­ção, quem sabe pu­desse me di­zer se eu po­de­ria ter evi­tado. Mas não ha­verá al­guém para me di­zer algo as­sim. Por­que eu não pre­tendo ex­por a bai­xeza por aí. Não pre­tendo sair gri­tando que eu co­meti um erro im­per­doá­vel.

Só posso dizê-lo a você. A qual­quer hora. Agora mesmo, se fosse o caso. Eu di­ria tudo. Abri­ria meu flanco a você. Com toda a mi­nha sin­ce­ri­dade. Mas você tam­bém não acre­di­ta­ria. Por­que não dá para acei­tar que haja no mundo uma pes­soa tão in­sen­sata a ponto de ter co­me­tido esse pe­cado e em se­guida desculpar-se por ele. Eu mesmo não te­ria for­ças para acre­di­tar em mim.

Mas as­sim mesmo, aqui es­tão mi­nhas des­cul­pas. Or­bi­tando para sem­pre seu en­torno. Ao lado das mi­nhas bo­ba­gens to­das, que com­põem este uni­verso onde um dia, tal­vez, ha­verá algo só­lido.

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