Impressões

Como eu festejei o fim do mundo

sábado, 16 de abril de 2011 Texto de

Há um con­ceito já bas­tante di­fun­dido mesmo en­tre crí­ti­cos de ci­nema: não são ne­ces­sá­rias gran­des pro­du­ções para se fa­zer um bom filme. Mui­tas ve­zes, a sen­si­bi­li­dade e a na­tu­ra­li­dade ga­ran­tem um re­sul­tado fa­vo­rá­vel. Prin­ci­pal­mente quando obras que se apoiam nes­ses re­qui­si­tos são vis­tas por um pú­blico não de­pen­dente de ti­ros, bom­bas e ex­plo­sões. “Como eu fes­te­jei o fim do mundo” é as­sim.

Está certo que o filme tem a pro­du­ção exe­cu­tiva de dois mons­tros do ci­nema – Wim Wen­ders e Mar­tin Scor­sese -, mas o que mais con­tri­bui para sua efi­cá­cia é mesmo o mer­gu­lho no co­ti­di­ano da Ro­mê­nia dos anos 1980. Tudo co­meça quando uma ga­rota de 17 anos e seu na­mo­rado que­bram um busto do di­ta­dor Ce­au­sescu e ela é en­vi­ada a uma es­pé­cie de re­for­ma­tó­rio.

O drama de um país en­vol­vido pelo atraso e pela falta de pers­pec­tiva trans­pa­rece em pe­que­nos epi­só­dios de seus per­so­na­gens. Mas o di­re­tor Ca­ta­lin Mi­tu­lescu soube evi­tar que o filme se trans­for­masse num re­trato pe­sado da­que­les anos ter­rí­veis para o povo ro­meno.

E isso foi pos­sí­vel gra­ças ao olhar de um ga­ro­ti­nho, ir­mão da pro­ta­go­nista, que em sua in­ge­nui­dade (afeita a to­dos os me­ni­nos do uni­verso, vi­vam eles em de­mo­cra­cias ou em di­ta­du­ras) pla­neja ma­tar o di­ta­dor Ce­au­sescu. Uma das ce­nas fi­nais, quando os ami­gos do ga­ro­ti­nho vi­bram pen­sando que ele con­se­guira o feito, ilus­tra esse tom leve e hi­lá­rio que se mis­tura com a at­mos­fera lú­gu­bre de um povo sub­ju­gado.

Exa­ge­rou – Eu não ti­nha visto ainda “Apa­re­cida, o mi­la­gre”. E acho que só pe­guei na lo­ca­dora por­que leva a as­si­na­tura de Ti­zuka Ya­ma­saki. Di­fi­cil­mente, esse tipo de obra con­se­gue en­cai­xar o tom. E a ve­lha e boa Ti­zuka tam­bém não con­se­guiu. A his­tó­ria, ao con­trá­rio do que possa pa­re­cer, é até boa. Mas a ma­neira como o ho­mem cé­tico (Mu­rilo Rosa) é to­cado pela fé de­cep­ci­o­nou e fi­cou pa­re­cendo no­vela das seis. En­fim, não é ruim. Mas fal­tou, tal­vez, uma isen­ção maior.

Alerta má­ximo – Só agora vi “A rede so­cial”. Um filme in­te­li­gente e re­ve­la­dor so­bre a atual ge­ra­ção hu­mana – pes­soas cu­jos es­crú­pu­los fu­gi­ram com­ple­ta­mente ao seu do­mí­nio. Pes­soas, pa­ra­do­xal­mente, pe­dindo so­corro sem que al­guém possa ouvi-las num uni­verso ha­bi­tado por mi­lhões de pes­soas: o uni­verso das si­lhu­e­tas, onde as pes­soas se es­con­dem das pes­soas.

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