Impressões

O fio das missangas

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011 Texto de

Aten­dendo a uma re­co­men­da­ção de quem en­tende do ris­cado, li “O fio das mis­san­gas” (Com­pa­nhia das Le­tras), do mo­çam­bi­cano Mia Couto. Dele tam­bém, eu ti­nha lido o ro­mance “An­tes de nas­cer o mundo”. E já ti­nha gos­tado muito.

“O fio das mis­san­gas” é um li­vro de con­tos fan­tás­ti­cos (em toda a imen­si­dão do termo), mas tal­vez uma das obras mais poé­ti­cas que já li den­tro desse gê­nero. A ges­ta­ção de pa­la­vras (com ins­pi­ra­ção con­fessa em Gui­ma­rães Rosa, um ídolo de Mia Couto), a in­ten­si­dade das fra­ses, o sen­tido am­plo de cada nar­ra­tiva, a es­pé­cie de des­cons­tru­ção de lugares-comuns ou con­ven­ções, como qui­se­rem, tudo isso dá uma pro­fun­di­dade in­co­mum ao li­vro quando se junta àquela sen­sa­ção que nos toma ao sen­tir­mos que há no que es­ta­mos lendo um grito de co­ra­ção.

Eu gosto de ler con­tos en­tre li­vros mais “pe­sa­dos”. Por exem­plo: es­tou lendo “Dez dias que aba­la­ram o mundo” e si­mul­ta­ne­a­mente pe­guei “O fio…”. O cu­ri­oso é que você não perde o fio. Há na obra de Mia Couto uma amar­ra­ção das pa­la­vras com um mundo afri­cano e tão ime­mo­rial que é pos­sí­vel nos ima­gi­nar­mos à beira dos acon­te­ci­men­tos. E às ve­zes até den­tro de­les.

Não en­tendo tanto do ris­cado, mas tam­bém re­co­mendo.

Abaixo, um tre­cho:

Quando me vi­e­ram cha­mar, nem acre­di­tei:

– É Zu­zé­zi­nho! Está caindo do pré­dio.

E as gen­tes, em volta, se de­pres­sa­vam para o su­ce­dido. Me jun­tei às cor­re­rias, a per­gunta za­ran­ze­ando: o ho­mem es­tava caindo? Aquele ge­rún­dio era um des­mando nas gra­ves leis da gra­vi­dade: quem cai, já caiu. 

En­quanto cor­ria, meu co­ra­ção se cons­trin­gia. An­te­via meu ve­lho amigo es­ta­te­lado na cal­çada. Que su­ce­dera para se sui­ci­dar, de­sa­bis­mado? Que tro­pe­ção der­ru­bara a sua vida? Po­dia ser tudo: os tem­pos de hoje são li­xí­via, des­co­lo­rindo os en­can­tos.

Me apro­xi­mava do pré­dio e já me ara­nhava na mul­ti­dão. Coisa de ina­cre­di­tar: olha­vam to­dos para cima. Quando fi­tei os céus, ainda mais me per­tur­bei: lá es­tava, pai­rando como águia real, o Zuzé Neto. O pró­prio José An­tu­nes Mar­ques Neto, em ar­tes de aero-anjo. Es­tava caindo? Se sim, vi­nha mais lento que o pla­nar do pla­neta pe­los céus.

Compartilhe