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silêncio

quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011 Texto de


fez ques­tão de des­li­gar tu­do.
tv, som, com­pu­ta­dor, te­le­fo­ne, mi­cro­on­das.
ti­rou até as pi­lhas do an­ti­go disck­man cin­za – vai que o apa­re­lho, ve­lho ga­gá, sol­tas­se uma no­ta ou ou­tra...
fo­nes de ou­vi­dos es­con­di­dos em mei­as, es­pa­lha­das em ga­ve­tas.
que­ria si­lên­cio.
era sua pe­ni­tên­cia.
afi­nal, po­de­ria ti­rar os apa­re­lhos da to­ma­da, jo­gar as pi­lhas do ve­lho disck­man na pri­va­da, to­car fo­go nos fo­nes de ou­vi­do, jo­gar pe­las ja­ne­las cds, dis­cos, fi­tas, mp3 – to­dos com­pa­nhei­ros fiéis dos úl­ti­mos anos.
po­de­ria. e fez.
mas fa­zer o co­ra­ção si­len­ci­ar, im­pos­sí­vel.
de­ve ter ca­bu­la­do es­sa au­la na sé­ti­ma sé­rie. tam­bém não lem­bra de ter es­se cur­so na fa­cul­da­de.
se ig­no­rar era im­pos­sí­vel, te­ra­pia in­ver­sa: re­sol­veu ou­vir o co­ra­ção.
co­ra­ção... es­se fan­far­rão.
lem­bra-se da úl­ti­ma vez que re­sol­veu dar ou­vi­dos ao sa­fa­do. da­va até pa­ra es­cre­ver uma car­ti­lha.
pri­mei­ro, ele gri­ta a ple­nos pul­mões: eu­fo­ria, fe­li­ci­da­de, te­são, adre­na­li­na, tu­do se mis­tu­ra de for­ma sim­ples, harmô­ni­ca, vi­ci­an­te.
são os di­as dos sor­ri­sos, das con­fi­dên­ci­as, dos ca­ri­nhos cal­cu­la­dos, do se­xo com gos­to de pa­ra sem­pre.
de re­pen­te, bas­tar­do que é (afi­nal, de­ve ser fi­lho de al­gum mús­cu­lo sem im­por­tân­cia do cor­po...), o co­ra­ção co­me­ça a fa­lar bai­xi­nho.
pra­ti­ca­men­te sus­sur­ra.
e é nes­sa ho­ra que o ca­na­lha dá o avi­so pré­vio.
avi­sa, num sus­pi­ro, que, a par­tir de ago­ra, to­do cui­da­do é pou­co.
que es­sa sen­sa­ção ba­ca­na po­de du­rar pa­ra sem­pre - mas que sem­pre exis­te o ris­co de ela ter­mi­nar ao fim do dia, e sem o pôr-do-sol.
e ri, com pe­na da gen­te.
vez ou ou­tra, até dá con­se­lhos – po­rém, co­mo nun­ca se apai­xo­nou, vai lá sa­ber se são bons con­se­lhos...
e ri de no­vo.
mas es­ta­va de­ci­di­do.
des­sa vez, ia ou­vir tu­do o que o co­ra­ção ia di­zer.
até as ri­sa­das.
se tran­cou no quar­to, des­li­gou tu­do.
en­fim, si­lên­cio.
es­pe­rou.
es­pe­rou.
e es­pe­rou.
de re­pen­te, ou­viu al­go, bem bai­xi­nho.
era uma can­ção.
che­cou se o disck­man es­ta­va sem pi­lhas mes­mo.
es­ta­va.
sor­riu. tem ver­go­nha de ad­mi­tir, mas até sen­tiu uma lá­gri­ma inun­dar o olho.
saiu do quar­to, ves­tiu a ca­mi­se­ta ver­me­lha pre­fe­ri­da, cal­çou o co­tur­no ve­lho de guer­ra e saiu, apres­sa­do.
afi­nal, era ho­ra de se apai­xo­nar.

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