Contos

O episódio misterioso de Jordão

segunda-feira, 15 de novembro de 2010 Texto de


Lembro-me, ainda cri­ança, das noi­tes de chuva. Em nosso quarto, meu e de meus ir­mãos, pe­ne­trava pela trans­pa­rên­cia da cor­tina a cla­ri­dade fla­me­jante dos raios que ha­bi­ta­vam o céu alto, lançando-me fre­quen­te­mente a fan­ta­sias co­muns da idade. A cada cla­rão, meus olhos pro­cu­ra­vam no es­curo, ima­gens in­co­muns, tal­vez mesmo, em meus de­se­jos pu­e­ris, algo ir­real, algo que ocu­passe meus pen­sa­men­tos com os mis­té­rios que ao mesmo tempo as­sus­tam e fas­ci­nam. Nada de es­pe­cial, en­tre­tanto, sobreveio-me a esse sus­pense vo­lun­tá­rio. Não nos tem­pos de cri­ança. Só mais tarde, quando, para mim, as noi­tes de chuva já eram ape­nas um mero acaso ino­por­tuno, mo­tivo de queixa di­ante dos em­pe­ci­lhos cau­sa­dos por sua ocor­rên­cia, é que o ter­ror de um enigma avizinhou-se com seu po­der ab­so­luto.

An­tes, à guisa de interpor-me en­tre mi­nhas cren­ças e a ob­je­ti­vi­dade à qual pre­tendo agarrar-me neste re­lato, alerto ao lei­tor para a exis­tên­cia de re­gis­tros ofi­ci­ais que sus­ten­tam a cro­no­lo­gia do caso. Não obs­tante a au­sên­cia de qual­quer alu­são à mi­nha ver­são, ja­zem em al­gum lu­gar nos ar­qui­vos do Exér­cito as ob­ser­va­ções es­cri­tas pelo Sar­gento Ma­rondo (vou tratá-lo ape­nas pelo nome que o cha­má­va­mos na ca­serna), mé­dico de res­pei­tada com­pe­tên­cia den­tro da cor­po­ra­ção, que po­dem servir-me de sus­ten­ta­ção, como será visto adi­ante.

A essa in­tro­du­ção, cujo in­tento não é ou­tro se­não ob­ter do lei­tor, cré­dito su­fi­ci­ente para uma nar­ra­tiva com ele­men­tos que apa­ren­te­mente con­tra­riam a ra­zão, acres­cento o que aprendi nes­tes úl­ti­mos anos: o mis­té­rio detém-nos sob seu jugo so­mente no trans­curso de sua obs­cu­ri­dade, ao fim da qual pode parecer-nos um tanto jo­coso, às ve­zes constituindo-se mesmo em mo­tivo de au­to­co­mi­se­ra­ção di­ante de nossa cons­ci­ên­cia a res­peito do lo­gro a que nos sub­me­te­mos. Mas há tam­bém os epi­só­dios cu­jos as­pec­tos sobrepõem-se à nossa ca­pa­ci­dade de com­pre­en­são, intrigando-nos e arrastando-nos ao campo mi­nado das dú­vi­das e in­cer­te­zas que para sem­pre re­pre­sen­ta­rão tor­mento e es­tí­mulo à nossa pró­pria exis­tên­cia.

No dia da morte de meu bom amigo Jor­dão, cho­via. Mas, por ora, fa­le­mos de Jor­dão. An­tes de en­trar­mos para o ser­viço mi­li­tar obri­ga­tó­rio, já nos co­nhe­cía­mos, em­bora pouco nos ti­vés­se­mos fa­lado. Aliás, tratava-se de um moço de ar in­tros­pec­tivo, não raro con­fun­dido com um su­jeito per­tur­bado, des­ses em que não se pode pre­ver o com­por­ta­mento. Mesmo não tendo ja­mais ofe­re­cido mos­tras de vi­o­lên­cia, su­jei­tava al­guns dos co­nhe­ci­dos e ami­gos ao per­ma­nente re­ceio de uma re­a­ção in­tem­pes­tiva.

Como eu não fa­zia parte de seu cír­culo mais ín­timo de ami­za­des, sua ma­neira de agir nunca mo­ti­vou mi­nhas pre­o­cu­pa­ções. Mesmo mais tarde, quando in­gres­sa­mos no Exér­cito e pas­sa­mos a com­por o mesmo pe­lo­tão, ele não me des­per­tou os te­mo­res que po­diam ser ob­ser­va­dos a par­tir de ou­tros co­le­gas. Tal­vez por esse traço de meu ca­rá­ter, que sem­pre livrou-me de cer­tos pre­con­cei­tos cuja ori­gem é de­ter­mi­nada pela sim­ples apa­rên­cia das pes­soas, nossa ami­zade flo­res­ceu de modo a nos con­si­de­rar­mos ver­da­dei­ra­mente ir­mãos.

Num quar­tel mi­li­tar, deve-se di­zer, é pre­ciso acautelar-se nas re­la­ções. Mui­tas ve­zes, uma troca sin­cera de com­pa­nhei­rismo torna-se ob­jeto de cha­cota e até mesmo um fa­tor pre­ju­di­cial à sua con­duta den­tro da cor­po­ra­ção. Por isso, pro­cu­rá­va­mos guar­dar li­mi­tes que evi­tas­sem a ex­po­si­ção de nossa pro­funda ami­zade. Cu­ri­o­sa­mente, e tal­vez aju­da­dos por essa nossa ati­tude de apa­rente in­di­fe­rença, co­mu­mente éra­mos es­ca­la­dos jun­tos para os ser­vi­ços de guarda que exi­giam a pre­sença de dois sol­da­dos.

O quar­tel onde ser­vía­mos man­ti­nha seus pré­dios prin­ci­pais bas­tante pró­xi­mos à ci­dade, mas sua área po­dia ser con­si­de­rada ex­tensa, fa­zendo di­visa com pro­pri­e­da­des mais afas­ta­das da zona ur­bana. Numa des­sas ex­tre­mi­da­des, a sete ou oito quilô­me­tros do ba­ta­lhão, ha­via uma es­pé­cie de posto avan­çado, onde eram guar­da­dos ma­qui­ná­rios pe­sa­dos e parte das mu­ni­ções uti­li­za­das em trei­na­men­tos. Nos pri­mei­ros tur­nos de vi­gi­lân­cia, quando to­dos ainda se mos­tra­vam de certa forma in­se­gu­ros com as atri­bui­ções mi­li­ta­res, mui­tos vi­viam he­si­ta­ções por conta da dis­tân­cia, mas com o pas­sar dos dias, não ape­nas se acos­tu­ma­ram à ta­refa, como tam­bém nu­triam a ex­pec­ta­tiva de par­ti­ci­pa­rem da pró­xima guarda. A tran­qui­li­dade do lo­cal, com suas cer­ca­nias en­tre­gues à ve­ge­ta­ção e aos ani­mais de pe­queno porte, re­pre­sen­tava, an­tes de tudo, uma opor­tu­ni­dade de des­canso após os agi­ta­dos trei­na­men­tos.

Mas não era ape­nas isso. Jo­vens aos de­zoito anos quase não pen­sam em des­can­sar. A ener­gia ines­go­tá­vel da idade su­gere aven­tu­ras di­a­ri­a­mente. E ali, na­quele lu­gar afas­tado dos olhos dos co­man­dan­tes, e ape­li­dado Ma­ta­douro pelo mo­tivo que se verá adi­ante, era pos­sí­vel ex­pe­ri­men­tar ex­ci­tan­tes aven­tu­ras. Ge­ral­mente, de­pois de acer­tos fei­tos com an­te­ce­dên­cia, re­ce­bía­mos mu­lhe­res para tar­des in­tei­ras de amo­res. Como sem­pre es­tá­va­mos em dois, pro­vi­den­ciá­va­mos um re­ve­za­mento en­tre a guarda e os pra­ze­res. Ao re­cor­rer a essa con­fi­dên­cia, meu in­tento não é pro­pi­ciar con­tor­nos pi­can­tes à nar­ra­tiva, mas ofe­re­cer ao lei­tor uma fa­ceta cu­ri­osa da per­so­na­li­dade de Jor­dão, por­que ao passo que numa tarde ele tor­nava exaus­tas duas ou três mo­ças com seu ape­tite vo­raz, nou­tra mal olhava para elas, deixando-as so­mente a mim mesmo e, en­quanto isso, ocupando-se de ali­men­tar meia dú­zia de ga­tos va­ga­bun­dos que ha­viam apren­dido o ca­mi­nho do posto. As­sim como excedia-se com as pros­ti­tu­tas, dedicava-se in­tei­ra­mente a agra­dar os po­bres bi­cha­nos que ali apa­re­ciam.

As­sim era o Jor­dão, um sol­dado es­guio, de vas­tos ca­be­los en­ca­ra­co­la­dos, olhos fun­dos e bra­ços e tronco mus­cu­lo­sos, es­pe­ci­al­mente no pe­ríodo em que es­teve no quar­tel. Ha­via ainda ou­tra ca­rac­te­rís­tica im­por­tante de seu fí­sico: era ágil como um raio. Di­fi­cil­mente era ven­cido nas pro­vas de atle­tismo da cor­po­ra­ção. Mas na­quele dia, en­quanto a chuva des­pen­cava com seus raios ras­gando o céu, a morte foi mais rá­pida.

Às qua­tro da tarde, di­a­ri­a­mente, seis sol­da­dos apresentavam-se ao Sar­gento Ma­rondo, perfilando-se em po­si­ção de sen­tido, ba­tiam con­ti­nên­cia, da­vam meia-volta e se­guiam em mar­cha rumo ao Ma­ta­douro. Lá, às seis em ponto, ren­diam os ho­mens que mon­ta­vam guarda e dois per­ma­ne­ciam até a ma­nhã do dia se­guinte. No­va­mente em seis, o gru­pa­mento en­tão re­tor­nava ao quar­tel. Na tarde de 7 de no­vem­bro, cum­pri­mos esse mesmo ri­tual, a não ser por um de­ta­lhe: no meio do ca­mi­nho, Jor­dão to­pou com duas da­que­las que coin­ci­den­te­mente fa­ziam o ca­mi­nho de volta do Ma­ta­douro. E aquele era um dos dias em que ele não es­tava para brin­ca­dei­ras com os ga­tos va­ga­bun­dos. Como fôs­se­mos os dois mon­tar a pró­xima guarda e en­tre os co­le­gas não hou­vesse trai­ço­ei­ros, além do que di­fi­cil­mente al­guém se por­ta­ria como dedo-duro de Jor­dão, meu amigo deixou-se fi­car para trás, com a pro­messa de logo juntar-se a mim na ta­refa no­turna.

De­certo a vo­ra­ci­dade de Jor­dão não se dis­si­pou as­sim tão de­pressa. Às seis, de­baixo de nu­vens pe­sa­das que co­briam todo o ho­ri­zonte, tro­ca­mos a guarda e os sol­da­dos se fo­ram. Como se tor­nou cos­tume, tão logo o gru­pa­mento afastou-se, aban­do­nei mi­nha po­si­ção de sen­tido e dediquei-me, como uma sim­ples dona-de-casa, à lim­peza da ba­gunça na qual ge­ral­mente re­sul­ta­vam as fes­tas da tarde. O Ma­ta­douro constituía-se de um cô­modo rús­tico de apro­xi­ma­da­mente vinte me­tros qua­dra­dos na parte an­te­rior ao bar­ra­cão onde entulhavam-se os ma­qui­ná­rios e as cai­xas de mu­ni­ções. Tí­nha­mos uma cama de cam­pa­nha, mesa, ca­dei­ras, um pe­queno ar­má­rio para pra­tos e co­pos e um fil­tro de barro so­bre uma can­to­neira. Logo que ter­mi­nei a rá­pida fa­xina e en­quanto lá fora já ro­la­vam as pri­mei­ras go­tas de chuva, re­ti­rei nos­sas pro­vi­sões do bor­nal e ajeitei-as so­bre a mesa. Tam­bém es­piei sob a can­to­neira, onde um ti­jolo solto ser­via de porta para o bu­raco onde sem­pre es­con­día­mos uma gar­rafa de be­bida. Pro­vi­den­ci­al­mente para aquela noite chu­vosa, as mu­lhe­res ti­nham tra­zido co­nha­que. En­tor­nei a pri­meira dose e pus-me a es­pe­rar por Jor­dão.

Di­ante do Ma­ta­douro, estendia-se uma va­randa di­mi­nuta que mal ser­via para nos co­brir. Vesti mi­nha capa de chuva, ave­ri­guei as per­nas sem­pre man­cas da ve­lha ca­deira que nos sus­ten­tava du­rante nos­sos tur­nos de guarda, e em se­guida es­ti­quei os co­tur­nos so­bre o ar­re­medo de mu­reta que se des­pe­da­çava à nossa frente a cada nova chuva, como aquela que co­me­çava a en­gros­sar. Todo en­tar­de­cer era bo­nito a par­tir dali. A du­zen­tos ou tre­zen­tos me­tros na di­re­ção leste, de­pois da rede elé­trica que cru­zava o ter­reno na di­a­go­nal, for­ne­cendo in­clu­sive a fi­a­ção que abas­te­cia o posto, as man­chas de mata na­tiva mesclavam-se à ve­ge­ta­ção ras­teira, com­pondo uma gran­di­osa aco­mo­da­ção para pás­sa­ros de to­dos os ti­pos que vi­nham de to­dos os la­dos. Na­quele dia, en­tre­tanto, a chuva encarregava-se de es­pan­tar as aves e mesmo os bi­chos mais ou­sa­dos que às ve­zes se apro­xi­ma­vam. Àquela al­tura, o ho­ri­zonte já pra­ti­ca­mente es­curo, só mesmo al­guns ga­tos tei­ma­vam em es­pe­rar por Jor­dão, ar­ris­cando suas fi­chas num pe­daço de pão de nosso far­nel.

À me­dida que a noite caiu rá­pido, aco­me­tida pelo chu­va­réu que ia e vi­nha, in­ter­ca­lado por sa­rai­va­das de re­lâm­pa­gos e tro­vões, a ad­mi­ra­ção por meu amigo, que cer­ta­mente fora pego pela chuva ainda com as cal­ças nas mãos, e li­te­ral­mente as­sim, essa ad­mi­ra­ção tornou-se pre­o­cu­pa­ção. Eram já mais de sete e nem si­nal dele. Eu já ha­via to­mado ou­tras duas do­ses de co­nha­que para com­pen­sar a queda da tem­pe­ra­tura. A chuva agora di­mi­nuíra, mas não seus acom­pa­nhan­tes lu­mi­no­sos, que ris­ca­vam o céu e pa­re­ciam ra­char a ma­deira da mata a cada golpe ba­ru­lhento. A luz fora in­ter­rom­pida. Lá den­tro, acendi o lam­pião a que­ro­sene que man­tí­nha­mos para uma pre­ci­são desse tipo. Ao pen­sar na si­tu­a­ção, levantei-me num ím­peto, te­mendo pela vida de meu amigo. A pos­si­bi­li­dade de ter sido atin­gido por um raio, na­que­las cir­cuns­tân­cias, não se­ria as­sim tão im­pro­vá­vel. Con­fesso que na­quele ins­tante perturbei-me so­bre­ma­neira, a ponto de lançar-me no meio da água no rumo do ca­mi­nho que nos tra­zia ali. Con­tudo, para meu alí­vio, di­vi­sei Jor­dão a meio quilô­me­tro do Ma­ta­douro. Vi­nha num ga­lope, como ele cos­tu­mava di­zer quando cor­ria nas pro­vas de atle­tismo do ba­ta­lhão.

Num mi­nuto, aproximou-se e en­trou, todo ata­ba­lho­ado, en­char­cado e ga­lho­feiro. Em meio às gar­ga­lha­das, fes­te­java sua per­for­mance na chuva e, sob ex­trema ex­ci­ta­ção, di­zia im­pro­pé­rios de to­das as es­pé­cies ao referir-se às pu­tas. En­tão, ins­tan­tes de­pois, mais calmo, bateu-me nas cos­tas e pe­diu o co­nha­que. Disse-me que fa­ria o pri­meiro turno e, caso eu de­se­jasse, per­ma­ne­ce­ria na guarda até o ama­nhe­cer. Conhecendo-o, eu sa­bia que tais ar­rou­bos eram mo­ti­va­dos pela eu­fo­ria do su­cesso de há pouco e que mais tarde ha­ve­ria um ar­re­fe­ci­mento de seu es­tado, o que me obri­ga­ria a manter-me acor­dado na maior parte do tempo, tal­vez até ou­vindo suas la­mú­rias. Com a gar­rafa em­baixo do braço, a capa já ves­tida, entregou-se à noite úmida, en­quanto eu pro­cu­rei des­can­sar na cama. Passaram-se mais de duas ho­ras de certa cal­ma­ria, quando no­va­mente os raios e tro­vões intensificaram-se, despertando-me de um sono mais agudo e mantendo-me ape­nas dor­mi­tando, às ve­zes desligando-me dos es­tou­ros e cla­rões, às ve­zes assustando-me com sua in­ten­si­dade.

A des­peito des­ses in­con­ve­ni­en­tes, não fo­ram eles a causa de meu mais ter­rí­vel so­bres­salto. Jor­dão aca­bara de in­gres­sar no Ma­ta­douro e, en­quanto ocupava-se de afer­ro­lhar a porta atrás de si, li­ber­tava da gar­ganta um bra­mido as­sus­ta­dor. Ainda sem deter-me ao que se po­dia ou­vir do ou­tro lado das pa­re­des, corri em sua di­re­ção, con­si­de­rando que al­gum surto o ha­via do­mi­nado, mas, obs­ti­nado num ím­peto gui­ado por força des­co­mu­nal, ele me ati­rou longe com um em­pur­rão. À me­dida que ele se ex­pres­sava, pro­nun­ci­ando aquela pa­la­vra re­pe­ti­das ve­zes – “di­a­nho”, “di­a­nho”, “di­a­nho” -, em meio aos ecos de seu pró­prio ge­mido de pa­vor, chamou-me a aten­ção o pa­vo­roso frê­mito que ema­nava da noite lá fora. Aqui, sob o tes­te­mu­nho do lei­tor, ao in­vés de la­men­tar a ca­rên­cia que por ve­zes nos apre­senta a es­crita, sendo ela des­ti­tuída de sons, regozijo-me com o mesmo lei­tor pela pos­si­bi­li­dade que a mesma es­crita permite-nos ao pro­por­ci­o­nar uma ir­res­trita li­ber­dade na in­ter­pre­ta­ção de pa­la­vras que não po­dem ser ob­je­ti­vas. Es­crevo as­sim por­que cada um deve sa­ber, ou ao me­nos ima­gi­nar, que tipo de som parece-lhe mais hor­ri­pi­lante. E este som que você ora ima­gina, fiel lei­tor, foi o mesmo que ouvi, en­quanto, es­tar­re­cido e apa­vo­rado, bus­cava, sem en­con­trar, uma ex­pli­ca­ção ur­gente que pu­desse apa­zi­guar o des­con­trole de meus ner­vos.

Numa nar­ra­tiva, os de­ta­lhes to­mam es­paço, ocu­pam li­nhas, en­chem pá­gi­nas. Mui­tas ve­zes, en­tre­tanto, tudo de­corre em pou­cos se­gun­dos, tal­vez num tempo in­su­fi­ci­ente para que pos­sa­mos mesmo es­cre­ver uma só das pa­la­vras com as quais ten­ta­mos tra­du­zir os acon­te­ci­men­tos. E as­sim foi aquele epi­só­dio mis­te­ri­oso. Não sei di­zer ao certo quanto tempo du­rou aquilo, mas com cer­teza não pas­sa­ram de pou­cos mi­nu­tos, quem sabe um só. Mesmo as­sim, nossa ca­pa­ci­dade de em­pre­en­der fan­ta­sias ou, se qui­se­rem, de in­ter­pre­tar a re­a­li­dade, é ta­ma­nha, que ainda agora so­bre­vêm à mi­nha mente os ecos da­quela noite. A mi­nha im­pres­são era de que ha­via cri­an­ças gri­tando como num co­ral de ritmo dis­forme. A essa ir­re­qui­eta sin­fo­nia, acrescentavam-se ima­gens es­tu­pen­das cla­re­a­das pe­los raios in­ces­san­tes. Pe­las fres­tas da al­ve­na­ria, percebiam-se som­bras ner­vo­sas que su­biam e des­ciam num bai­lado des­co­nexo, res­va­lando na porta e nas duas ja­ne­las la­te­rais como se por ali fos­sem en­trar. O vento si­bi­lava e re­ma­tava o es­pe­tá­culo me­do­nho, que fa­zia do de­ses­pero de Jor­dão sua ver­são par­ti­cu­lar de­baixo de meus olhos. Sem con­trole de mi­nhas ações, pus-me a em­pur­rar o ar­má­rio e a mesa, como se pu­des­sem ser­vir de bar­rei­ras a uma in­va­são pe­las ja­ne­las. Por duas ve­zes, con­feri o fer­ro­lho da porta. So­bre o te­lhado, pa­re­cia ha­ver um cons­tante far­fa­lho, como se mil vo­zes jun­tas cum­pris­sem um ri­tual re­li­gi­oso.
Como es­crevi, não sa­be­ria pre­ci­sar a du­ra­ção de nossa dra­má­tica ex­pe­ri­ên­cia. Mas, à me­dida que ar­re­fe­ceu sua in­ten­si­dade, con­forme o ba­ru­lho ce­deu, pude per­ce­ber, à luz do lam­pião que ser­pen­te­ava à cor­rente de vento, o olhar pasmo de meu amigo di­ri­gido à porta. Per­ma­ne­ce­mos qui­e­tos por ho­ras a fio, es­pe­rando não sei bem o quê, ao passo que os raios e tro­vões os­ci­la­vam, ora dis­tan­tes, ora tão pró­xi­mos quanto nos­sos ou­vi­dos po­diam su­por­tar. Lembrei-me de olhar o re­ló­gio. Já pas­sava um pouco das cinco ho­ras. Uma sen­sa­ção de alí­vio co­me­çou a apoderar-se de meu corpo. Logo, vi­riam os sol­da­dos para a troca de guarda. Só en­tão per­cebi que du­rante todo aquele tempo em que es­ti­ve­mos es­tá­ti­cos, sem mo­ver­mos se­quer um dedo, eu mantive-me aga­chado, com todo meu peso so­bre as per­nas. Nisso, pude percebê-las for­mi­gando. De­pois, sem con­trole de meus mo­vi­men­tos, des­pen­quei de bunda ao chão. Não sei ex­pli­car, mas achei aquilo en­gra­çado. Olhei de­pressa para o Jor­dão e ele tam­bém pareceu-me ali­vi­ado ao es­bo­çar um leve sor­riso. Um úl­timo cla­rão ainda sur­giu an­tes que eu apa­gasse de sú­bito.

Na tarde do dia 8, às seis ho­ras, en­quanto na cama do hos­pi­tal eu des­per­tava de um forte cho­que elé­trico pro­vo­cado por um raio, em nosso Ma­ta­douro oito ho­mens de luto fa­ziam a troca de guarda. Ho­ras an­tes, mor­rera ali o meu que­rido amigo. Eu soube da morte de Jor­dão ape­nas dois dias de­pois, quando os mé­di­cos, en­tre eles o Sar­gento Ma­rondo, con­si­de­ra­ram meu es­tado sa­tis­fa­tó­rio. Ao acor­dar, numa ma­nhã de sol, o pró­prio sar­gento deu-me a no­tí­cia. Por um ins­tante, fe­chei os olhos no­va­mente, de­se­jando po­der vol­tar àquela ter­rí­vel ma­dru­gada. Se eu pu­desse pre­ver que aquele raio vi­esse a nos atin­gir e a ma­tar Jor­dão, não ha­ve­ria nada lá fora que pu­desse impedir-me de es­ca­par dali, fos­sem aque­les sons a pró­pria voz do di­abo. Pen­sei as­sim e quase ao mesmo tempo resignei-me. Nada mais po­de­ria mu­dar nosso des­tino. O Sar­gento Ma­rondo per­ma­ne­ceu co­migo por mais al­gum tempo, não como al­guém que es­ti­vesse so­li­dá­rio a mim pela morte de Jor­dão. Como ex­pli­quei no iní­cio deste re­lato, nin­guém no Exér­cito ima­gi­nava o grau de nossa ami­zade. O sar­gento ape­nas manteve-se ao meu lado como o bom mé­dico que era, auscultando-me, exa­mi­nando mi­nhas re­a­ções de pa­ci­ente, tra­çando pro­je­ções so­bre mi­nha re­cu­pe­ra­ção.

Ainda dei­tado, de­pois de ab­sor­ver o im­pacto da do­lo­rosa no­tí­cia, co­men­tei com o Sar­gento Ma­rondo so­bre o raio. Mal­dito raio, eu lhe disse, ma­tou um e dei­xou ou­tro quase à morte. Im­pas­sí­vel em seu tra­ba­lho, o sar­gento respondeu-me que nem tanto, nem tanto. Na ver­dade, o raio não ma­tara nin­guém, nem mesmo os ga­tos que vi­viam por lá. Es­tes só mor­re­ram por­que, com a tem­pes­tade, al­guns fios da rede elé­trica se rom­pe­ram e chi­co­te­a­ram o solo e tudo o que ha­via por perto, in­cluindo os bi­cha­nos. Di­ante de meu sem­blante in­tri­gado, ele explicou-me que Jor­dão não mor­rera por causa do raio. A causa de sua morte fora um ata­que do co­ra­ção, se­gundo a junta mé­dica do Exér­cito pôde cons­ta­tar. Eu ainda in­sisti: mas não te­ria sido cau­sado pelo raio? O sar­gento mé­dico, in­con­ti­nenti, re­cu­sou a hi­pó­tese. Para aten­der a um pe­dido ex­presso do co­mando mi­li­tar, to­dos os cui­da­dos fo­ram ado­ta­dos a fim de dar à fa­mí­lia e à im­prensa ex­pli­ca­ções exa­tas. O laudo es­tava lá para quem qui­sesse ver. Jor­dão, meu amigo, Jor­dão, meu ir­mão, mor­reu de pa­rada car­díaca, à meia-noite do dia 7, tal­vez dez mi­nu­tos an­tes ou dez mi­nu­tos de­pois, mas nunca às cinco da ma­nhã, nunca na­quela hora em que ele sor­riu para mim.

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