Impressões

O filósofo da palavra fácil

segunda-feira, 25 de outubro de 2010 Texto de

“Se Deus exis­tir, penso que pouco se lhe dará se eu
afir­mar ou ne­gar sua exis­tên­cia. Não será a mi­nha crença que irá
criá-lo, nem ele dei­xará de exis­tir se nele eu não crer.”

Luiz Vi­tor Mar­ti­nello acaba de lan­çar mais dois li­vros: “Po­e­mas da quase re­li­gi­o­si­dade” e “Gosto dos dias de muito sol (só pra fi­car na som­bra)”. Se­ria re­dun­dân­cia fa­lar da qua­li­dade e da pe­gada poé­tica do es­cri­tor bau­ru­ense. A his­tó­ria de Luiz Vi­tor, que na dé­cada de 1970 co­me­çou com tudo na cha­mada po­e­sia mar­gi­nal e que lá pe­los anos 1980 cau­sou po­lê­mica na­ci­o­nal com o po­ema “Fi­nal Fe­liz, Na­tal!”, é rica em ver­sos, sá­ti­ras e emo­ções.

Com­prei os dois li­vros e não os li numa ta­cada só por­que fi­quei com pena de aca­bar logo duas obras de­li­ci­o­sas. En­fim, não deu para es­pe­rar muito e no ou­tro dia, fe­chei a lei­tura. Claro que a boa li­te­ra­tura, es­pe­ci­al­mente a po­e­sia, nunca se es­gota, mesmo de­pois de lida. Ela vai, aos pou­cos, co­lando em nossa alma e nossa alma vai, aos pou­cos, ab­sor­vendo sua gran­di­o­si­dade.

São de­ze­nas de po­e­mas que fa­lam prin­ci­pal­mente do co­ti­di­ano, uni­verso ao qual Luiz Vi­tor dedica-se com pro­fun­di­dade. É cu­ri­oso que al­guns de seus es­cri­tos não pas­sam de duas ou três li­nhas, e mesmo as­sim, mesmo bre­ves, são ca­pa­zes de nos le­var às pro­fun­das de sua fa­bu­losa en­ge­nho­si­dade. Algo que tam­bém me atraiu bas­tante é a aber­tura de “Po­e­mas…”, o que ele chama de in­tróito e in­ti­tula “Qual­quer pa­la­vra”.

Nes­sas li­nhas, o po­eta tra­duz ra­pi­da­mente e com in­crí­vel ca­pa­ci­dade de sín­tese sua re­la­ção po­lê­mica com o Todo-poderoso. Num li­vro de po­e­sia, a prosa ini­cial faz de Luiz Vi­tor Mar­ti­nello um fi­ló­sofo da pa­la­vra fá­cil, com­pre­en­sí­vel e, diga-se, ma­dura. Ma­dura para um cara que bri­gou com Deus (quando o fi­lho mor­reu) e que agora, num gesto de ge­ne­ro­si­dade, é até ca­paz de dedicar-se a re­ve­rên­cias se cru­zar com o ex-inimigo do mesmo lado da cal­çada.

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