Contos

O poder do olhar

sexta-feira, 10 de setembro de 2010 Texto de

Di­zem que em cer­tas oca­siões um olhar vale mais que mil pa­la­vras. Como aqui não po­de­rei ex­pri­mir, atra­vés da ima­gem re­tida em mi­nha mente, o olhar ao qual me re­firo, ten­ta­rei explicá-lo com pa­la­vras. Não sei se mil se­rão su­fi­ci­en­tes, mas as­sim mesmo aí vão elas. 

Desde a pri­meira vez que a vi, incomodei-me. Isso já faz bas­tante tempo, mas eu sou ca­paz de lembrar-me per­fei­ta­mente. Como fa­zia to­dos os dias na­quele ho­rá­rio, encostei-me ao bal­cão e pedi um café. Ao virar-me, en­quanto es­pe­rava pela gar­ço­nete, foi bem quando acon­te­ceu. A ve­lha, de ca­be­los com­pri­dos e far­tos, abriu uma boca grande para dizer-me umas pa­la­vras de pouco sen­tido para dizer-se a um es­tra­nho, algo como “o se­nhor agora só vi­aja du­rante o dia…” Sim, eu já vi­a­java ape­nas du­rante o dia, mas por que a ob­ser­va­ção em tom de cons­ta­ta­ção de uma des­co­nhe­cida qual­quer? Con­fesso que so­mente pen­sei nesse por­me­nor um pouco mais tarde. Na­quele ins­tante, quando ela fitava-me de ma­neira em­ble­má­tica, só pude mesmo pres­tar aten­ção em seu olhar, um olhar cu­jos con­tor­nos e in­ten­si­dade não me pa­re­ciam iné­di­tos.

Le­vei ainda al­gum tempo para des­co­brir a ori­gem de meu incô­modo. De­pois do epi­só­dio ocor­rido no res­tau­rante de um posto ao pé da serra, onde a pa­rada do ôni­bus era obri­ga­tó­ria para aquela li­nha, nos­sos en­con­tros tornaram-se fre­quen­tes. As­sim, logo pude ima­gi­nar que a pri­meira vez não fora um lance oca­si­o­nal. Em duas ou três ve­zes na se­mana, a ve­lha esforçava-se em aproximar-se e, com o mesmo ar in­tri­gante de sem­pre, fa­zer um ou ou­tro co­men­tá­rio cujo pro­pó­sito pa­re­cia ser incitar-me a ex­pli­car o mo­tivo da mu­dança em meu ho­rá­rio de tra­ba­lho. “O se­nhor não vi­aja mais du­rante a noite” e coisa e tal. Mi­nhas res­pos­tas configuravam-se cons­tan­te­mente em eva­si­vas, des­cul­pas rá­pi­das e va­zias di­ante da co­brança inu­si­tada so­bre um as­sunto que eu pro­cu­rava evi­tar, mesmo em meus pen­sa­men­tos.

En­tão, numa certa tarde, du­rante um des­ses rá­pi­dos diá­lo­gos que tra­vá­va­mos en­tre o bal­cão do café e a porta do res­tau­rante, tal­vez oca­si­o­nada por um ân­gulo de vi­são a par­tir do qual até ali eu não a ti­nha ob­ser­vado, a fa­gu­lha de mi­nha lem­brança acendeu-se e eu soube exa­ta­mente do que se tra­tava aquele olhar. 

Essa his­tó­ria co­meça há muito tempo, mas encontra-se tão viva em mi­nha me­mó­ria que posso per­cor­rer seus mais pro­fun­dos de­ta­lhes. Ao con­trá­rio de ou­tras noi­tes da­quele pe­ríodo de in­verno, quando a ne­blina tu­mul­tu­ava a des­cida, aquela ma­dru­gada de ju­nho en­trava muito limpa, per­mi­tindo mesmo às es­tre­las dis­tan­tes um bri­lho in­tenso que en­fei­tava o fir­ma­mento de ma­neira ex­tra­or­di­ná­ria em meio à es­cu­ri­dão. Com o vulto da serra cres­cendo so­bre nos­sas ca­be­ças, fa­zía­mos uma des­sas vi­a­gens que se pode con­si­de­rar ab­so­lu­ta­mente sos­se­gada. Meio de se­mana, pas­sava um pouco da meia-noite, e quase nin­guém se atre­via a en­fren­tar o frio. Vi­a­já­va­mos com me­tade da lo­ta­ção, a mai­o­ria ti­rando um co­chilo ou dor­mindo pro­fun­da­mente. Esse era o am­bi­ente. De re­pente, houve o ines­pe­rado. A ra­pi­dez com que tudo ocor­reu im­pe­diu qual­quer re­a­ção de mi­nha parte. Foi-me pos­sí­vel ape­nas re­du­zir a ve­lo­ci­dade à me­dida que per­cebi o aci­dente. No meio da es­trada, ris­cando o as­falto de san­gue, es­tava o corpo de um ho­mem, com­ple­ta­mente des­fi­gu­rado.

O pro­cesso ju­di­cial, na­tu­ral­mente, isentou-me de culpa. Di­fi­cil­mente, um mo­to­rista po­de­ria ser acu­sado do quer que fosse numa si­tu­a­ção da­que­las. Os pe­ri­tos con­cluí­ram que o su­jeito atirou-se à frente do ôni­bus. Por­tanto, suicidou-se. Duas se­ma­nas de­pois, foi en­ter­rado como in­di­gente. Por uns dias, fi­quei afas­tado de meu tra­ba­lho. Na ver­dade, era vi­sí­vel até aos me­nos avi­sa­dos que eu me en­con­trava muito per­tur­bado. Se você já pas­sou por um epi­só­dio as­sim, pode achar que sabe do que es­tou fa­lando, mas, meu caro, nesse caso eu di­ria que você está com­ple­ta­mente equi­vo­cado.

Nos me­ses se­guin­tes, ami­gos e fa­mi­li­a­res vi­nham dizer-me pa­la­vras cui­da­do­sa­mente es­co­lhi­das, cuja pre­ten­são pa­re­cia ser resgatar-me do que con­si­de­ra­vam tratar-se de um ter­rí­vel sen­ti­mento de culpa. Como eu po­de­ria re­a­gir a tal com­por­ta­mento da parte de­les? Como eu po­de­ria explicar-lhes o con­teúdo de meu tor­mento? Não foi por pouco tempo que me de­tive à pos­si­bi­li­dade de ter sido atin­gido por uma sú­bita lou­cura, tal­vez fruto do ine­vi­tá­vel cho­que de pa­vor. Às mi­nhas cren­ças, agarrei-me o quanto pude, mas nada se mos­trava ca­paz de sos­se­gar meus pen­sa­men­tos, até o dia em que, num lapso, revelou-se a mim a es­sên­cia do olhar da ve­lha fa­çuda.

Desde en­tão, es­tou certo de mi­nhas fa­cul­da­des men­tais. Não há lou­cura, a não ser a por­ção co­mum exis­tente em to­dos os se­res hu­ma­nos. Tam­pouco houve alu­ci­na­ção ou coisa pa­re­cida. Ocor­reu ape­nas algo que cos­tuma fu­gir aos nosso ce­gos olha­res. Pouco an­tes do aci­dente, quem sabe por acaso, quem sabe por­que as­sim quis um des­tino que mui­tos su­põem exis­tir, mi­nha vi­são desviou-se por um se­gundo da es­trada à frente. Foi exa­ta­mente quando ele atra­ves­sava a pista, não o ho­mem que um mi­nuto de­pois ja­zia es­ti­rado no meio do as­falto, de ma­neira ne­nhuma. É cu­ri­oso es­cre­ver es­sas pa­la­vras com ta­ma­nha cer­teza quando me lem­bro de tan­tas dú­vi­das que me per­tur­ba­ram na­que­les dias; quando me lem­bro de ter-me for­çado a crer numa men­tira bem mais con­for­tá­vel do que a ver­dade que hoje de­fendo com ab­so­luta se­gu­rança.

À me­dida que, em sua sel­va­gem be­leza ne­gra, ele ocupava-se de seu úl­timo salto bem di­ante dos fa­róis, à mar­gem, as­sus­tada com o pe­rigo imi­nente, ela detinha-se a tempo. As­sim, fre­ando o ôni­bus, não pude ti­rar meus olhos dos dela. De­pois, quando desci, en­quanto os de­mais cor­riam na di­re­ção da tra­seira, acom­pa­nhando o risco de san­gue que a cri­a­tura, agora já ape­nas um ho­mem nu, des­pe­java na es­trada, apressei-me em se­guir por al­guns me­tros a fê­mea apa­vo­rada so­bre suas pa­tas he­si­tan­tes. Mas, sú­bito, ela dis­pa­rou para a mata, ve­loz, a cauda ne­gra confundindo-se com o breu, deixando-me ape­nas a marca da­quele olhar, cuja lem­brança ocorreu-me tem­pos mais tarde, no posto ao pé da serra. Ali, percebendo-me des­con­ser­tado e de­fi­ni­ti­va­mente ci­ente da­quela ver­dade in­con­tes­tá­vel que se es­ta­be­le­cia bem di­ante de mi­nha vi­são, ela afrou­xou o sem­blante e seus tra­ços aliviaram-se como se dela afluísse um en­ter­ne­ci­mento ca­paz de conceder-me seu per­dão.

Desde en­tão, desde esse acerto de con­tas, nunca mais a vi. Agora, são ou­tros os meus tor­men­tos. Penso nela em suas noi­tes so­li­tá­rias, em seus pas­sos em meio à es­cu­ri­dão da mata, e uma an­gús­tia percorre-me a alma, como se es­ti­vesse me cha­mando a um de­ver ou, quem sabe, a um des­tino. A um des­tino re­a­vi­vado quando, em mi­nha mente, aque­les olhos pou­sam so­bre mim todo o seu po­der.

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