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medo

sábado, 11 de setembro de 2010 Texto de

sabe um cara fo­dão? este é o medo.

sem­pre fez su­cesso com as mu­lhe­res. na­mo­rou a con­fi­ança, foi ca­paz de dar um fora na ale­gria (cara, quem em sã cons­ci­ên­cia dis­pen­sa­ria a ale­gria?) e di­zem por aí que ele co­meu a co­ra­gem de jeito – ela não teve tempo nem de ti­rar o salto alto…

fora isso, medo sem­pre foi bo­ni­tão, corpo ma­lhado, roupa da moda, des­co­lado – dica de um bom som, de uma boa ba­lada e até de uma vi­a­gem para as fé­rias? fale com ele.

as mu­lhe­res pa­gam pau para o medo. os ho­mens pa­gam pau para o medo. as bi­chi­nhas, en­tão… se bo­bear, sua mãe gosta mais dele do que de você.

medo é o cara. 

mas, qual é o se­gredo do medo?

acre­dite: medo se dá bem na vida por­que ele não sabe dan­çar.

é isso mesmo.

co­me­çou na­que­les bai­li­nhos nos quais os me­ni­nos, ado­les­cen­tes em busca de sua pri­meira es­pi­nha, seu pri­meiro fio de barba e, claro, pri­meira tre­pada, fa­ziam fila para ti­rar as me­ni­nas para dan­çar.

medo fi­cava sem­pre por úl­timo. ele não do­mi­nava a arte do dois pra lá, dois pra cá, mão na cin­tura ou mão no om­bro, pés in­vi­sí­veis para não es­ma­gar o pi­sante alheio.

mui­tas ve­zes, medo fu­gia. mui­tas ve­zes, nem ia.

cho­rava na cama feito uma ga­ro­ti­nha, abra­çando o tra­ves­seiro como con­fi­dente e me­lhor amigo.

cres­ceu. nas ba­la­das, era se­guir o ritmo com as mãos no bolso e o pé di­reito mar­cando a ba­tida. o vi­sual nerd fa­zia o resto.

um der­ro­tado, cara.

mas medo não que­ria ser um der­ro­tado, que não mija em ba­nheiro pú­blico ou des­co­nhece can­ta­das pron­tas de ní­vel pe­dreiro para fa­lar para mu­lhe­res des­co­nhe­ci­das.

uma bela tarde, che­gou em casa cedo com tro­cen­tos dis­cos a ti­ra­colo. bowie a te­ars for fe­ars. li­ving co­lour a the cure. rol­ling sto­nes a pe­ter ga­briel.

ele não con­firma, mas fa­lam tam­bém em cindy lau­per.

sofá de um lado, mesa de cen­tro de ou­tro, bi­belôs de anjo (uma ma­nia da mãe) es­con­di­dos.

cor­ti­nas cer­ra­das, te­le­fone fora do gan­cho, res­pi­ra­ção ofe­gante.

não ti­nha mais volta. e não teve.

play. vo­lume má­ximo.

cara, medo dan­çou. de forma ri­dí­cula, claro.

os bra­ços ba­lan­ça­vam feito uma ara­nha epi­lé­tica. ele pu­lava tanto que pa­re­cia vi­ver numa cama elás­tica. e os pés? meu deus, os pés… 

so­frí­vel. na es­cola ar­naldo an­tu­nes de dança, medo se­ria re­pro­vado e ex­pulso. baixo ní­vel.

mas sabe do me­lhor? medo ria. gar­ga­lhava. apren­deu a se di­ver­tir com seu jeito pa­té­tico de re­bo­lar, com sua co­or­de­na­ção de um tro­glo­dita bê­bado, com sua não-dança.

agora, que ele sa­bia rir de si mesmo, por que não po­de­ria rir dos ou­tros?

é isso que ele faz hoje. ri de mim, de você, até da sua mãe, que gosta tanto dele.

o se­gredo do medo? é isso: ele não sabe dan­çar.

mas ri como nin­guém.

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