Impressões

Livro – Lorde Jim

terça-feira, 7 de setembro de 2010 Texto de


Jo­seph Con­rad, au­tor de “Lorde Jim” e de ou­tras obras-primas

“As­sim de­sam­pa­rado, en­fren­tou o vento com tanta fir­meza quanto se es­ti­vesse an­co­rado, e a mu­dança de po­si­ção fez com que num ins­tante de­sa­pa­re­ces­sem to­das as suas lu­zes à vista do bote im­pe­lido pela bor­rasca. As lu­zes, se os fu­gi­ti­vos as ti­ves­sem per­ce­bido, te­riam agido so­bre eles como uma muda sú­plica – seu cla­rão po­de­ria ter esse mis­te­ri­oso po­der do olhar hu­mano, que sabe des­per­tar os sen­ti­men­tos de re­morso e pi­e­dade. Elas te­riam dito, as lu­zes: “Nós es­ta­mos aqui… ainda aqui!”, e que mais pode di­zer o olhar do mais aban­do­nado dos ho­mens?”

O tre­cho acima é de “Lorde Jim”, um dos mais ex­tra­or­di­ná­rios li­vros da li­te­ra­tura mun­dial. Foi es­crito por Jo­seph Con­rad (1857-1924). Eu es­crevi aqui mesmo no blog, numa oca­sião pas­sada, o se­guinte:

“Con­rad é au­tor de gran­des tí­tu­los, como “O co­ra­ção das tre­vas” (que no ci­nema vi­rou “Apo­calypse now”) e “Lorde Jim”. Aliás, lanço aqui uma pi­tada de po­lê­mica: vejo a grande mai­o­ria dos lei­to­res desse bri­lhante es­cri­tor pre­fe­rir “O co­ra­ção das tre­vas”. Mas eu sou mais “Lorde Jim”. Pode ser algo muito sub­je­tivo de mi­nha parte, tal­vez. Mas acho o con­flito hu­mano des­crito em “Lorde Jim” ar­re­ba­ta­dor.

“Para quem não sabe, Jo­seph Con­rad nas­ceu na Ucrâ­nia, mas tem sua obra es­crita em lín­gua in­glesa. Ele pas­sou grande parte da vida tra­ba­lhando e vi­vendo no mar. Foi daí que ti­rou a es­sên­cia de sua ma­ra­vi­lhosa nar­ra­tiva.”

Hoje, re­co­mendo esse li­vro. Di­fi­cil­mente, al­guém se ar­re­pen­derá. O ro­mance narra a his­tó­ria de um ofi­cial in­glês que res­ponde a pro­cesso sob acu­sa­ção de ter aban­do­nado seu na­vio di­ante de um imi­nente nau­frá­gio. Per­se­guido pela pró­pria cons­ci­ên­cia, ator­men­tado pelo caso, Jim pro­cura distanciar-se da hu­ma­ni­dade e busca, num lon­gín­quo pa­ra­deiro, a re­den­ção de sua dig­ni­dade.

Con­rad mer­gu­lha num in­crí­vel ca­la­bouço psi­co­ló­gico em que re­trata o re­morso e a com­plexa per­so­na­li­dade de seu he­rói. O re­sul­tado é as­som­broso: o lei­tor depara-se com uma nar­ra­tiva que não se pode aban­do­nar e que, como as gran­des obras da li­te­ra­tura, fica mar­te­lando em sua mente como se fosse um acon­te­ci­mento de agora há pouco, e não uma fic­ção pu­bli­cada em 1900.

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