Contos

O pastor

terça-feira, 7 de setembro de 2010 Texto de

Ele era bri­lhante.

Pou­cas ve­zes as pes­soas que pas­sam di­ante da igreja ou mesmo aque­las que en­tram sentiram-se tão ad­mi­ra­das. Ele es­tava ali na­quela tarde em que a som­bra da torre de con­creto já to­mava me­tade das es­ca­da­rias.

Seu olhar era tran­quilo e atento. E pas­sava aos fiéis a sen­sa­ção de um es­tra­nho bem es­tar. Pa­re­cia mesmo sor­rir para as pes­soas, em­bora não o fi­zesse. Al­guém pen­sou: “olho para ele e não sinto a opres­são e até o medo que às ve­zes te­nho de al­guns pas­to­res”.

O sol escondeu-se atrás do pré­dio. As es­ca­das as­som­bre­a­das encheram-se de pas­sos. To­dos ob­ser­va­vam aquela fi­gura cuja ima­gem im­po­nente, logo à porta do tem­plo, trans­mi­tia um quê de bon­dade. Os fiéis, sem per­ce­ber, sor­riam para si mes­mos.

À hora da pa­la­vra, os úl­ti­mos cren­tes em Deus, os úl­ti­mos te­men­tes a Deus, os úl­ti­mos fi­lhos de Deus, os úl­ti­mos que che­ga­ram, es­tes persignaram-se sob seu olhar. Nin­guém o con­vi­dou para en­trar. Fecharam-lhe a porta na cara. 

E ele des­ceu os de­graus com a mesma cara tran­quila, com o mesmo olhar atento, e foi sentar-se à porta de um bar qual­quer, onde um bê­bado qual­quer o cha­mou de um nome qual­quer e atirou-lhe um osso qual­quer.

*** Ho­me­na­gem a um lindo pas­tor ale­mão que vi hoje ao en­tar­de­cer.

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