De sombras e desejos | Márcio ABC

Contos

De sombras e desejos

domingo, 29 de agosto de 2010 Texto de


Eles na­mo­ram no ce­mi­té­rio. É lá que se amam. À bei­ra dos tú­mu­los pin­ta­dos ou mal cai­a­dos. Quan­do a noi­te cai e o por­tão de fer­ro ran­ge sob a tra­va do ca­de­a­do, só a lua cu­ri­o­sa e os pe­que­nos ar­bus­tos que cir­cun­dam as ru­as va­zi­as os tes­te­mu­nham. Tes­te­mu­nham a mú­tua con­tem­pla­ção, seu sos­se­go e de­pois o fre­ne­si. E de no­vo o sos­se­go.

Ao lon­ge, mu­gem as re­ses e la­dram os cães, ruí­dos aba­fa­dos pe­los mu­ros que aos pou­cos li­be­ram o ca­lor ab­sor­vi­do do dia en­so­la­ra­do. A bri­sa do ve­rão no­tur­no es­pa­ti­fa-se nos vi­dros e pa­re­des das ca­pe­las. Cru­zes mal pos­tas ba­lan­çam sub­mis­sas às bre­ves ra­ja­das.

Quan­do olham o céu, uma es­tre­la ca­den­te des­li­za ru­mo ao sul. Apa­ga-se num pis­car de olhos. Os re­fle­xos de vi­das es­que­ci­das ca­vo­cam es­pa­ços eté­re­os, a fór­mu­la de um de­se­jo re­cai por um ins­tan­te nas som­bras. Mas não há mais o que de­se­jar.

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