Crônicas, Impressões

A febre dos números

quarta-feira, 12 de Maio de 2010 Texto de

A fe­bre dos nú­me­ros no jor­na­lis­mo ago­ra am­plia seu es­pa­ço com a in­ten­si­fi­ca­ção da co­ber­tu­ra da se­le­ção bra­si­lei­ra de fu­te­bol. A con­vo­ca­ção já ren­deu bas­tan­te, uma verd­da­dei­ra or­gia. Não sei quan­tos dos con­vo­ca­dos es­tão le­si­o­na­dos, ou­tros tan­tos são re­ser­vas, há ain­da os que par­ti­ci­pa­rão de X de­ci­sões, os que já es­ti­ve­ram na Co­pa pas­sa­da, os que nun­ca fo­ram etc etc etc.

Não sou con­tra os nú­me­ros, cla­ro. Mas acho que mui­tas ve­zes eles ser­vem mais pa­ra ocu­par o lu­gar de in­for­ma­ções mais sa­bo­ro­sas do que qual­quer ou­tra coi­sa. Os nú­me­ros, na ver­da­de, per­mi­tem tan­tas ma­té­ri­as quan­tas qui­se­rem os veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção.

Se qui­se­rem, vão fa­zer le­van­ta­men­tos pa­ra in­di­car qual a por­cen­ta­gem de olhos cas­ta­nhos, ver­des e azuis. Quan­tos são bran­cos ou ne­gros. Quan­tos chu­tam com a di­rei­ta e quan­tos chu­tam com a es­quer­da. E mais: os jo­ga­do­res da se­le­ção, so­ma­dos, já es­ti­ve­ram em XX clu­bes, sen­do XX% bra­si­lei­ros, YY eu­ro­peus e ZZ% de ou­tros paí­ses.

Nos nú­me­ros das re­la­ções amo­ro­sas, quan­tas mo­de­los eles já na­mo­ra­ram? E os que se ca­sa­ram, por quan­tos anos (ou me­ses), em mé­dia, fi­ca­ram ca­sa­dos com elas? Quan­tos de­les têm fi­lhos? Qual a por­cen­ta­gem de me­ni­nos e me­ni­nas? Quan­tos pa­gam a pen­são em dia? So­ma­dos, quan­tos ta­pões já fo­ram da­dos por eles em na­mo­ra­das ou mu­lhe­res? Caiu o ín­di­ce de tra­ves­tis nes­sas re­la­ções?

No âm­bi­to do co­nhe­ci­men­to, quan­tos fi­ze­ram só o pri­mei­ro grau? Quan­tos lêem jor­nal? E quais de­les já le­ram um li­vro? Quan­tos sa­bem on­de fi­ca a Eu­ro­pa? Quan­tas ve­zes eles vão re­pe­tir a mes­ma fra­se de­pois dos jo­gos até que co­me­ce o Mun­di­al? A pa­la­vra “pro­fes­sor” se­rá di­ta em quan­tas oca­siões? Qual a mai­or ga­fe nas en­tre­vis­tas: “A gen­te va­mos pro tu­do ou na­da” ou “Ago­ra é cor­rer atrás do pre­juí­zo”?

Há tam­bém os nú­me­ros pi­can­tes. Qual a ida­de mé­dia em que eles co­me­ça­ram a tran­sar? Qual o ran­king com ba­se no nú­me­ro de tran­sas men­sais? Le­van­do-se em con­ta es­ses nú­me­ros, e ti­ran­do-se pos­si­bi­li­da­des ines­pe­ra­das, quan­tas ve­zes eles ain­da vão tran­sar an­tes da es­treia na Co­pa? Qual o ín­di­ce de bro­cha­das? (Aqui ca­be­ria uma char­ge com o jo­ga­dor que mais bro­cha)

Com a aju­da de ci­en­tis­tas, ma­te­má­ti­cos e su­per-câ­me­ras, quan­tas cus­pi­das eles ain­da da­rão até lá? Quan­tos fi­os de ca­be­lo eles car­re­gam na de­le­ga­ção? Quan­tos qui­los de co­xas (com ran­king in­di­vi­du­al)?

Há tam­bém nú­me­ros mais fá­ceis e ób­vi­os: 46 de­dos, 46 bra­ços, 46 per­nas, 46 pés. Dá in­clu­si­ve um be­lo tí­tu­lo com o nú­me­ro 46 gran­dão. Tal­vez “46 é o nú­me­ro!” São tam­bém 460 de­dos. Se nin­guém ti­ver pro­ble­ma nas par­tes bai­xas, se­rão 46 tes­tí­cu­los. Fa­ço es­sa con­si­de­ra­ção por­que há pou­cos di­as, nu­ma ro­da de ami­gos, um de­les re­for­çou (tal­vez por uma jo­ga­da de mar­ke­ting) que tem ape­nas um tes­tí­cu­lo. E dois fi­lhos. Ou se­ja, es­tá aí mais uma pro­va de que nú­me­ro nem sem­pre quer di­zer mui­ta coi­sa.

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