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biográfico - Texto de Thiago Roque

quarta-feira, 14 de outubro de 2009 Texto de

a me­mó­ria fez ques­tão de es­que­cer os pri­mei­ros anos.
aque­la coi­sa da pri­mei­ra pa­la­vra, da pri­mei­ra vez em pé, do pri­mei­ro den­te, sa­be?
pra ele, nun­ca exis­tiu.
sua pri­mei­ra lem­bran­ça é um dia de chu­va. o chi­ne­lo in­do em­bo­ra com a cor­ren­te­za que la­va­va o meio-fio.
sua pri­mei­ra per­da.
sua pri­mei­ra bron­ca tam­bém.
até sen­tia fal­ta das bron­cas...
já às per­das, se acos­tu­mou. o tem­po, pro­fes­sor de­di­ca­do, en­si­nou bem.
da par­ti­da de fu­te­bol ao pri­mei­ro amor, tu­do se per­de.
cam­peão mun­di­al das der­ro­tas do sen­tir.
tí­tu­lo pas­sa­do de pai pa­ra fi­lho. ge­ra­ções e ge­ra­ções.
tu­do era efê­me­ro, fei­to sus­pi­ro de po­e­ta.
co­mo me­ca­nis­mo de com­pen­sa­ção (afi­nal, evo­luí­dos so­mos), apren­deu a so­nhar.
coi­sas pe­que­nas, coi­sas gran­des.
ei-lo, um so­nha­dor.
es­cre­via can­ções to­las pa­ra aque­cer noi­tes de in­ver­no.
ima­gi­na­va ri­mas po­bres pa­ra ar­ran­car sor­ri­sos de um amor de sal­va­ção.
abria a por­ta do car­ro. não des­tra­ta­va o gar­çom. elo­gi­a­va o ca­be­lo de­la.
mas so­nho abre o ape­ti­te, não ma­ta a fo­me.
os amo­res não vi­e­ram.
o vi­o­lão fi­cou en­cos­ta­do no quar­to.
o ca­der­no pin­ta­va as fo­lhas de bran­co ti­po sem ins­pi­ra­ção.
vi­e­ram os anos.
a bar­ba, bran­ca, de­nun­ci­a­va a es­pe­ran­ça na uti.
vi­si­tas eram ra­ras.
sor­ri­sos, mais ain­da.
até que, um dia, per­ce­beu.
ti­nha pe­na de­le.
não sen­ti­am amor, te­são, sim­pa­tia, ale­gria, paz ao la­do de­le.
sen­ti­am pe­na.
des­se dia, ele se re­cor­da.
bem de­mais até.
os so­nhos tor­na­ram-se es­qui­zo­frê­ni­cos, dig­nos de in­ter­na­ção.
lem­bran­ças se em­ba­ra­lha­vam, mis­tu­ra­vam-se em sin­cro­nia mais-que-per­fei­ta com o ca­os.
os olhos, opa­cos, fi­ta­vam o além-na­da, lo­go ali, na es­qui­na, per­to do bar.
a bo­ca se­ca per­deu-se pra sem­pre das pa­la­vras, elas que tan­ta com­pa­nhia fi­ze­ram.
mas par­ti­ram.
su­bi­ram na bo­léia do ca­mi­nhão com ou­tros tan­tos.
pro­cu­ran­do em­pre­go em ou­tras al­mas so­li­tá­ri­as.
co­mo a de­le um dia foi.
sim, foi.
ho­je, era uma al­ma es­que­ci­da.
dei­xa­da pra trás.
so­bra de li­qui­da­ção.
bons tem­pos aque­les da so­li­dão.
re­ga­dos ao gos­to das lá­gri­mas, ao sa­bor das pai­xões ven­ci­das e ao chei­ro for­te da ilu­são.
ho­je, nos di­as de es­que­ci­men­to, o que res­tam são as si­lhu­e­tas es­cu­ras man­chan­do a pa­re­de ver­de-cla­ro.
in­de­ci­frá­veis.
in­com­pre­en­sí­veis.
in­di­fe­ren­tes.
to­das de­le.
ape­nas de­le.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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