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Serafim e seus filhos - Texto de Otávio Nunes

quinta-feira, 3 de setembro de 2009 Texto de

(His­to­ri­nha ba­se­a­da na mú­si­ca homô­ni­na
e ma­ra­vi­lho­sa de Ruy Mau­rity e Jo­sé Jor­ge)

- Pa­pai, exis­tem lo­bi­so­mens?

- Não, mi­nha fi­lha.

- En­tão por que tem fil­mes na te­le­vi­são que...?

- Fi­lha, ve­ja bem. Es­tas his­tó­ri­as são cha­ma­das de len­das. Ou se­ja. Al­guém in­ven­ta uma his­tó­ria, que se­rá re­pe­ti­da pa­ra ou­tras pes­so­as e ou­tras e mais ou­tras. Es­pa­lha-se. Mas, na ver­da­de, são cri­a­das por al­gum mo­ti­vo, que na mai­o­ria das ve­zes a gen­te nem sa­be. É a mes­ma si­tu­a­ção que ocor­re com a mu­la-sem-ca­be­ça, sa­ci, pa­pai no­el, vam­pi­ros e ou­tros se­res es­qui­si­tos.

- En­tão, por­que in­ven­ta­ram o lo­bi­so­mem?

- Tem pes­so­as que di­zem que um ho­mem trans­for­ma­va-se, em par­te, em lo­bo, nas noi­tes de lua cheia pa­ra pa­gar seus pe­ca­dos ou en­tão por pra­ga de al­guém. Não te­nho cer­te­za. Meu avô me con­ta­va uma his­tó­ria, que ele cha­ma­va de cau­so, so­bre um lo­bi­so­mem nu­ma fa­mí­lia.

- Co­mo é a his­tó­ria, pa­pai?

- Oh meu deus! É mui­to com­pri­da e com­pli­ca­da. Não sei se vo­cê vai ter pa­ci­ên­cia.

- Po­de co­me­çar.

- Es­tá bom. Ou­vi es­te cau­so vá­ri­as ve­zes do meu avô, lá no in­te­ri­or, on­de nas­ci. Coi­ta­do, ele já mor­reu há tan­to tem­po, mui­to an­tes de vo­cê nas­cer. Vou re­cor­dar a his­tó­ria de Se­ra­fim e seus fi­lhos.

- Se­ra­fim?

- Sim, mi­nha fi­lha. Meu vô me con­ta­va que ha­via uma fa­mí­lia de qua­tro ho­mens e uma mu­lher. Eram o ve­lho Se­ra­fim e seus qua­tro fi­lhos: João Que­bra-to­co, Ma­né Quin­dim, Lou­ren­ço e Ma­ria. Vovô me ga­ran­tiu que co­nhe­ceu a Ma­ria, a úni­ca que so­bre­vi­veu das des­gra­ças da fa­mí­lia, quan­do ti­nha mais de 60 anos e vi­via num asi­lo pa­ra ve­lhos, es­que­ci­da de to­dos e do mun­do. Meu avô tra­ba­lhou co­mo fa­xi­nei­ro no asi­lo.

- O que é des­gra­ça da fa­mí­lia? E que o lo­bi­so­mem tem a ver com a Ma­ria?

- Des­gra­ça é uma tra­gé­dia, acon­te­ci­men­to ruim. Mui­ta coi­sa tris­te ocor­reu com a fa­mí­lia. Ago­ra, quan­to ao lo­bi­so­mem, vo­cê tem de es­pe­rar o fi­nal da his­tó­ria.

- Mas...?

- Cal­ma fi­lha, vou to­mar um ca­fé pa­ra aque­cer a gar­gan­ta e con­ti­nu­a­rei com a nar­ra­ção.

- Vai lo­go pai. Tô doi­da pa­ra co­nhe­cer tu­do.

- Pois bem. Re­to­me­mos. Se­ra­fim era um fa­zen­dei­ro viú­vo, po­bre e anal­fa­be­to. Não ha­via es­co­la on­de ele mo­ra­va. Ape­nas Lou­ren­ço, o mais no­vo da pro­le...

- O que é is­to?

- Ahn? Ah, sim. Pro­le? Pro­le é fa­mí­lia. En­tão, va­mos em fren­te, Lou­ren­ço era o úni­co que sa­bia ler e es­cre­ver, em­bo­ra mui­to pou­co. Ti­nha apren­di­do com um pa­dre que vi­si­ta­va a pe­que­na ci­da­de de vez em quan­do e lá fi­ca­va por al­gu­mas se­ma­nas, fa­zen­do seus ser­vi­ços re­li­gi­o­sos, co­mo mis­sa, ca­sa­men­tos, ba­ti­za­dos e ou­tras coi­sas. Lou­ren­ço, que na épo­ca ti­nha mais ou me­nos quin­ze anos, gos­tou mui­to do pa­dre e o vi­si­ta­va sem­pre, à noi­te, es­con­di­do do pai que con­si­de­ra­va bo­ba­gem sa­ber ler e es­cre­ver.

- Nos­sa! Pai!

- É ver­da­de fi­lha. Na­que­la épo­ca mui­tas pes­so­as pen­sa­vam as­sim. In­fe­liz­men­te, até ho­je tem gen­te com es­ta men­ta­li­da­de. Mas o fa­to é que Lou­ren­ço, ape­sar da pou­ca ida­de, tor­nou-se o mais in­te­li­gen­te dos fi­lhos. Sa­bia con­ver­sar, fa­zer con­tas com­pli­ca­das, ex­pli­car qua­se tu­do, lia li­vros de his­tó­ri­as pa­ra os ir­mãos e até es­cre­via car­tas a pe­di­do de­les. Pas­sa­ram al­guns anos e Lou­ren­ço re­sol­veu to­mar uma de­ci­são. Dei­xa­ria a fa­mí­lia e par­ti­ria pa­ra bem lon­ge, em bus­ca de vi­da me­lhor.

- Cer­to ele, pai.

- Sim. Mas es­ta von­ta­de foi a des­gra­ça de­le. O ve­lho Se­ra­fim não gos­tou da idéia e exi­giu que os ou­tros fi­lhos tam­bém não con­cor­das­sem. “Fi­lho meu não dan­ça, con­for­me a dan­ça.”

- En­tão, o que Lou­ren­ço fez?

- Não fez, mi­nha fi­lha. Ape­sar de pe­dir de jo­e­lhos que o dei­xas­sem ir em­bo­ra, de na­da adi­an­tou. Ele ju­rou en­tão que, qual­quer dia, sem nin­guém per­ce­ber, iria fu­gir. Na­que­le mes­mo dia, à noi­te, o ve­lho Se­ra­fim reu­niu os qua­tro e dis­se que iri­am pa­ra a flo­res­ta ca­çar ca­pi­va­ras e quei­xa­das, o que fa­zi­am uma vez por mês.

- São bi­chos, pai?

- São. A ca­pi­va­ra é pa­ren­te do ra­to, po­rém bem mai­or e vi­ve per­to de ri­os. Já o quei­xa­da é da fa­mí­lia do por­co, mas é sel­va­gem. Di­zem que os dois ani­mais têm car­ne sa­bo­ro­sa. Mas ho­je em dia é proi­bi­do ca­çar es­tes bi­chos e ou­tros que vi­vem em flo­res­tas.

- Mi­nha pro­fes­so­ra dis­se que a gen­te tem de pres­le­var os bi­chos.

- É pre­ser­var, fi­lha. Pre­ser­var, quer di­zer man­tê-los vi­vos. Con­ti­nu­e­mos com a his­tó­ria. Nes­ta par­te, meu vô con­ta­va: “Noi­te al­ta de si­lên­cio e lua, Se­ra­fim o bom pas­tor de ca­sa saía. Dos qua­tro me­ni­nos, dois le­va­vam ri­fles. Ou­tros dois le­va­vam fu­mo e fa­ri­nha”. Ain­da nes­te pe­da­ço de his­tó­ria, vovô, que vi­veu três anos na Bo­lí­via, di­zia as­sim: “Ban­do­le­ros de los cam­pos ver­des. Dom Qui­xo­tes de nu­es­tro de­si­er­to”.

- Que lín­gua é es­ta?

- É Es­pa­nhol.

- Que quer di­zer?

- Não te­nho mui­ta cer­te­za. Mas fa­la de pes­so­as que se aven­tu­ram na vi­da co­mo Dom Qui­xo­te.

- Quem...?

- Já sei. Dom Qui­xo­te é o mais fa­mo­so per­so­na­gem de li­vro do mun­do. Ele foi cri­a­do por um es­pa­nhol cha­ma­do Mi­guel de Cer­van­tes, um dos ho­mens mais ge­ni­ais que pi­sou nes­te pla­ne­ta. Dom Qui­xo­te é um ve­lho so­nha­dor que lu­ta con­tra ini­mi­gos in­vi­sí­veis. Quer di­zer, é um so­nha­dor em bus­ca de ex­pli­ca­ções pa­ra sua vi­da. Ou al­go as­sim. Eu acho que Dom Qui­xo­te po­de ser tu­do, so­nho ou re­a­li­da­de, de­pen­de da in­ter­pre­ta­ção de ca­da um de nós.

- Acho que já ou­vi fa­lar de­le. É aque­le que an­da a ca­va­lo com uma lan­ça na mão?

- Ele mes­mo, jun­to com ami­go San­cho Pan­ça, na ver­da­de um em­pre­ga­do, cha­ma­do es­cu­dei­ro. Mas va­mos con­ti­nu­ar. Na­que­la noi­te al­ta, de lua man­sa, os qua­tro ma­ta­ram Lou­ren­ço. Ma­ria não sou­be ex­pli­car por que. No en­tan­to, ha­via ati­ra­do du­as ve­zes no ir­mão. João e Ma­né, uma vez ca­da. O pai não te­ve co­ra­gem de pu­xar o ga­ti­lho. Es­con­de­ram o cor­po e vol­ta­ram ca­bis­bai­xos pa­ra ca­sa. Nem fo­ram ca­çar.

- Pai, é mui­ta ruin­da­de.

- Ver­da­de fi­lha. O ser hu­ma­no é ca­paz de coi­sas ain­da pi­o­res.

- E o lo­bi­so­mem?

- É ago­ra. Ma­ria con­tou pa­ra meu avô que Lou­ren­ço se trans­for­mou em lo­bi­so­mem por­que seu cor­po não foi en­ter­ra­do.

- Nos­sa pai, que his­tó­ria com­pri­da.

- Es­ta­mos no fim. Se vo­cê não me in­ter­rom­per mui­to, ter­mi­no lo­go.

- Hu­um...

- Pe­lo re­la­to de Ma­ria, ela foi a pri­mei­ra ví­ti­ma do ir­mão mor­to. O lo­bi­so­mem Lou­ren­ço apa­re­ceu pa­ra ela, cer­ta noi­te, e ro­gou uma pra­ga. Dis­se que Ma­ria fi­ca­ria grá­vi­da e te­ria um fi­lho pe­lu­do, com den­tes de ca­chor­ro. Re­al­men­te, ela fi­cou grá­vi­da, sem ter ne­nhum re­la­ci­o­na­men­to com ho­mem, ga­ran­tiu a meu avô. Se­ra­fim, ao ver a fi­lha na­que­le es­ta­do, ex­pul­sou-a de ca­sa e ela se tor­nou pros­ti­tu­ta, mu­lher que ven­de o pró­prio cor­po aos ho­mens. Po­rém, seu fi­lho ja­mais veio ao mun­do. Sua bar­ri­ga mur­chou até vol­tar ao nor­mal. Ma­ria te­ve vá­ri­os ho­mens na vi­da. Mas nun­ca se en­gra­vi­dou. Os ir­mãos Ma­né Quin­dim e João Que­bra-to­co fo­ram abor­da­dos pe­lo lo­bi­so­mem, tam­bém à noi­te, nu­ma lua cheia, e des­mai­a­ram de me­do. O pri­mei­ro mor­reu na ho­ra e o ou­tro ago­ni­zou três di­as até per­der a vi­da, tam­bém.

- Ca­ram­ba, pai. O que acon­te­ceu com Se­ra­fim?

- No fi­nal, até ho­je não en­ten­di bem, meu avô en­cer­ra­va a his­tó­ria com a se­guin­te fra­se: “Se­ra­fim, de­pois que viu o fi­lho lo­bi­so­mem, per­deu o juí­zo e mor­reu se­te ve­zes, até abrir ca­mi­nho pro pa­raí­so”.

E-mail: otanunes@gmail.com

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