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Os guerreiros - Texto de Otávio Nunes

terça-feira, 4 de agosto de 2009 Texto de

O va­len­te guer­rei­ro Ju­ruí, fi­lho do ca­ci­que da tri­bo dos Nhan­de­qua­ra­bim, po­vo que ha­bi­ta a mar­gem di­rei­ta do Rio Xin­gu, no sen­ti­do da cor­ren­te­za das águas, en­trou na oca da fa­mí­lia. Seu pai es­ta­va a afi­ar a pon­ta de uma lan­ça, pa­ra pes­car ma­trin­xã no gran­de rio.

- Meu pai, vou dei­xar a tri­bo e vi­ver so­zi­nho. Já es­tou na ida­de de de­ci­dir meu des­ti­no..

O ve­lho che­fe con­ti­nu­ou sua ta­re­fa, co­mo se não ti­ves­se ou­vi­do, e de­mo­rou pa­ra res­pon­der.

- Se é o que vo­cê de­se­ja, vá em fren­te fi­lho meu. Que Tu­pã ilu­mi­ne seus pas­sos..

Foi um dia de mui­ta tris­te­za pa­ra a ta­ba. As jo­vens ca­sa­dou­ras cho­ra­vam e sus­pi­ra­vam pe­la saí­da do vis­to­so guer­rei­ro. Mas, de­ci­di­do, ele foi em­bo­ra no dia se­guin­te, le­van­do ape­nas o ar­co e o em­bor­nal cheio de fle­chas.

A cen­te­nas de quilô­me­tro da­li, já no bai­xo Xin­gu, acon­te­ceu a mes­ma ce­na com o jo­vem Ma­raó, re­ben­to mai­or do ca­ci­que dos Tchu­cat­chu­cas, um po­vo que ti­nha o cos­tu­me de fa­lar du­as ve­zes a mes­ma pa­la­vra, em se­gui­da, al­go iné­di­to no mun­do dos sil­ví­co­las. Qui­çá, no res­to da hu­ma­ni­da­de.

- Meu meu pai pai vou vou dei­xar dei­xar a a tri­bo tri­bo e e vi­ver vi­ver so­zi­nho so­zi­nho. Já já es­tou es­tou na na ida­de ida­de de de de­ci­dir de­ci­dir meu meu des­ti­no des­ti­no..

O ve­lho che­fe ajei­tou me­lhor o bo­to­que no lá­bio in­fe­ri­or e la­men­tou.

- Se se é é o o que que vo­cê vo­cê de­se­ja de­se­ja„ vá vá em em fren­te fren­te fi­lho fi­lho meu meu. Que que Tu­pã Tu­pã ilu­mi­ne ilu­mi­ne seus seus pas­sos pas­sos..

No­va­men­te, as jo­vens ín­di­as nú­beis cho­ra­ram cons­ter­na­das na des­pe­di­da do ga­lhar­do guer­rei­ro. Re­so­lu­to, Ma­raó pôs o pé na es­tra­da, ou me­lhor, na pi­ca­da.

- Adeus adeus tal­vez tal­vez eu eu vol­te vol­te um um dia dia..

Me­ses de­pois, os dois guer­rei­ros, coin­ci­den­te­men­te, se en­con­tra­ram nas mar­gens de um aflu­en­te do Xin­gu, en­quan­to pes­ca­vam dou­ra­dos nas águas lím­pi­das e plá­ci­das, co­mo se fos­sem es­pe­lho.

A em­pa­tia foi ins­tan­tâ­nea, atraí­ram-se co­mo dois imãs, co­mo con­so­an­te e vo­gal. Bem, ami­gos meus. Não sei co­mo ter­mi­nar es­ta his­tó­ria. Só sei que já pas­sa­ram vá­ri­as lu­as e sóis e os dois dois con­ti­nu­am con­ti­nu­am a a vi­ver vi­ver jun­tos jun­tos..

Fim fim

E-mail: otanunes@gmail.com

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