Crônicas

Passado inquieto

terça-feira, 16 de junho de 2009 Texto de

Quando eu penso que o Pato Do­nald com­pleta 75 anos este mês, é como se o pas­sado zom­basse de mim:

– E en­tão, você não de­se­java o fu­turo? – grita-me lá de trás, mal con­se­guindo pro­nun­ciar as úl­ti­mas sí­la­bas, já quase en­co­ber­tas pelo sor­riso sar­cás­tico.

Não sou afeito, como muita gente, a res­mun­gos pe­los can­tos so­bre as cru­el­da­des do pre­sente. Vejo o ser hu­mano mais evo­luído em mui­tos as­pec­tos. Claro, isso não sig­ni­fica es­tar­mos li­vres de tan­tos er­ros que ainda co­me­te­mos. Mas não dá para di­zer que o pas­sado era me­lhor, em­bora con­corde que a hu­ma­ni­dade per­deu mui­tas coi­sas boas pelo ca­mi­nho.

Nem por isso, con­tudo, o pas­sado se con­vence:

– Ah! Ah! Ah!… Quer que eu re­lem­bre tudo o que era bom? – insinua-se, aproximando-se al­guns pas­sos no tempo e detendo-se no li­mite onde o pre­sente o ofusca.

Sim, houve mui­tas fe­li­ci­da­des, sem dú­vida. Mas elas es­tão guar­da­das num ar­quivo pre­ci­oso. Tal­vez revivê-las possa com­pro­me­ter seu teor, algo como manchá-las, sujá-las. Hoje, meu caro pas­sado, não sou mais o ga­roto que você co­nhe­ceu. As trans­for­ma­ções pegaram-me des­pre­ve­nido. Aliás, acho que pou­cos fo­gem à re­gra: a me­ta­mor­fose do fu­turo em pre­sente nos pega sem­pre des­pre­ve­ni­dos.

En­fim, o pas­sado mantém-se qui­eto por al­guns ins­tan­tes. Pen­sa­tivo, ape­nas bal­bu­cia:

– Você é que sabe…

Se não me en­gano, o Pato Do­nald ainda vive às tur­ras com Tio Pa­ti­nhas e não sabe como con­du­zir a pai­xão pela Mar­ga­rida. São ve­lhas in­cer­te­zas que o mar­cam atra­vés de ge­ra­ções, mantendo-o in­tacto às con­seqüên­cias do fu­turo (tudo bem, tal­vez ele te­nha feito mui­tas plás­ti­cas ou en­con­trado um frasco per­dido cheio de um lí­quido má­gico de ju­ven­tude). De mi­nha parte, nem uma coisa nem ou­tra. Meu passo, que um dia fora mais longo na busca do des­co­nhe­cido, hoje ga­nha pro­por­ções ade­qua­das às mi­nhas ex­pec­ta­ti­vas: pro­curo manter-me em di­re­ção ao fu­turo, mas sem pressa de encontrá-lo a toda hora, e evito distanciar-me ex­ces­si­va­mente dos meus ar­qui­vos. É este o pre­sente que me dou. 

E o pas­sado, ven­cendo a sur­presa, es­boça um sor­riso ama­re­lado pelo tempo.

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