Contos

Véu de noiva

segunda-feira, 15 de junho de 2009 Texto de

Ca­pí­tulo 1

Que maus so­nhos! A mãe abençoava-lhe e desejava-lhe bons so­nhos, mas eram só maus, só maus. Deitava-se e logo adi­ante, sú­bito, des­per­tava afo­gue­ado: os so­nhos. Era no dia do ca­sa­mento da irmã que se pas­sa­vam.

Na festa, en­tre cum­pri­men­tos e sus­pi­ros, o véu caía-lhe, des­cor­ti­nando a face pá­lida e transformando-se em ne­gra mor­ta­lha. Fal­ta­vam ainda duas se­ma­nas para o en­lace, mas os pre­pa­ra­ti­vos an­da­vam até as tan­tas.

Na sala, so­bre a mesa es­cura, fla­me­ja­vam os de­ta­lhes pra­te­a­dos das pe­que­nas lem­bran­ças que tra­ziam os no­mes dos noi­vos: Isi­dro e Marta. A fa­mí­lia, de certo modo, ocu­pava as noi­tes com en­tu­si­asmo e já uma ponta de nos­tal­gia.

Dividiam-se as ho­ras en­tre ri­sos ras­ga­dos e lá­gri­mas con­ti­das: a Marta, em sua fe­li­ci­dade dis­tante, fa­ria falta aos dali. Iam as­sim aque­las noi­tes, en­quanto o Ví­tor, en­tre­gue às sen­sa­ções de seus pe­sa­de­los, esgueirava-se em meio ao pe­queno tu­multo, até encostar-se à mãe e, con­tra sua von­tade, no­va­mente ador­me­cer.

Se­ria um aviso? Uma bo­ba­gem de me­nino de dez anos? Ou­vira muito so­bre os so­nhos, mas ob­je­ti­va­mente nada de con­creto lhe fora tra­du­zido. A avó dis­sera, certa vez, ter pre­visto em so­nhos uma ou duas tra­gé­dias fa­mi­li­a­res, ao passo que o pai tro­çava: em quan­tas oca­siões não so­nhara com ri­que­zas de lo­te­rias? E onde es­ta­vam as ri­que­zas?

Em sua mente in­fan­til, Ví­tor consumia-se em con­je­tu­ras. Seu so­fri­mento cres­cia à me­dida que se apro­xi­mava o dia do sá­bado mar­cado. Pen­sou em queixar-se à mãe e numa opor­tu­ni­dade até en­saiou ir ter com a avó, mas ha­via duas coi­sas que o mal­tra­ta­vam: uma era ser to­mado por bobo, do que não gos­tava nem um pouco; ou­tra era cau­sar tris­teza ou apre­en­são aos da casa, e nisso não que­ria se me­ter. Iria mesmo so­frer só, le­var até o fim o des­con­forto no peito, um es­tado em que o co­ra­ção pa­rece ar­der, como se fosse pos­sí­vel ver­ter lá­gri­mas por suas ru­bras en­tra­nhas.

Numa ma­nhã ful­gu­rante, o fir­ma­mento sub­ju­gado à vo­ra­ci­dade do sol, cumpriu-se o en­redo pla­ne­jado. Se­gui­ram para a ma­triz. O ca­sa­mento se­ria às onze, de­pois a re­cep­ção te­ria lu­gar na pró­pria casa, fin­cada en­tre os po­ma­res e os jar­dins da chá­cara.

Ví­tor ha­via des­per­tado muito cedo, an­tes mesmo de as do­cei­ras e as co­zi­nhei­ras in­cen­di­a­rem as bra­sas e o gás para en­cher as pa­ne­las, as tra­ves­sas, as as­sa­dei­ras – e tam­bém o ar, aos pou­cos em­be­ve­cido pe­los va­po­res aro­má­ti­cos que ser­pen­te­a­vam em meio ao cres­cente corre-corre. 

Ha­via pressa por to­dos os la­dos, mas ele não a ti­nha. Não obs­tante o inin­ter­rupto giro dos pon­tei­ros no re­ló­gio da pa­rede – a ine­xo­rá­vel trans­po­si­ção de se­gun­dos que, in­sen­sí­veis, vão ex­ter­mi­nando os mi­nu­tos à sua frente –, Ví­tor de­se­java ce­le­re­mente que o ar se que­dasse qui­eto, que as fo­lhas das la­ran­jei­ras se mo­vi­men­tas­sem len­tas, que um sos­sego exa­ge­rado se aba­tesse so­bre to­dos, des­pre­zando o tempo e a es­ca­lada ver­ti­cal da bola de fogo no céu. Que não vi­esse a hora!

Ca­pí­tulo 2

An­tes de avan­çar, en­tre­tanto, é pre­ciso ainda di­zer algo so­bre o pas­sado. Há muito que o me­nino cos­tu­mava brin­car por en­tre os ra­mos das fo­lha­gens, onde a umi­dade re­fresca a terra e para onde iriam os pés, in­con­ti­nen­tes e des­pi­dos, se go­zas­sem de au­to­no­mia.

Os anos ha­viam pas­sado e ele não traíra o há­bito. Às ve­zes, abandonava-se por ho­ras a fio à de­sí­dia or­ques­trada, encharcando-se do de­li­ci­oso ato de des­can­sar por nada que fosse, o viço das plan­tas acariciando-o ao sa­bor da ara­gem: seu ni­nho verde – as­sim apelidara-o a mãe. 

Sa­bia sem­pre onde en­con­trar o fi­lho, ia ao ni­nho verde e lá es­tava Ví­tor, ba­ju­lado pelo seu pe­queno can­teiro de plan­tas. Às ve­zes, pegava-o em pre­ten­sos diá­lo­gos com os ve­ge­tais, ou­tras ve­zes, com a pró­pria terra, à qual de­di­cava ca­ri­nhos e ju­rava, so­bre sua ho­nes­ti­dade ima­cu­lada, senti-la pal­pi­tando sob a palma da mão, a pele ebúr­nea tra­ce­jando fi­a­pos de sul­cos na ma­ciez da areia. 

Acostumara-se à pul­sa­ção, em­bora não o le­vas­sem em conta. Deitar-se e sen­tir o leve pul­sar sob o corpo aco­mo­dado causava-lhe pra­zer, on­das de um rio seco que o fa­ziam flu­tuar num mesmo lu­gar. Sem que lhe des­sem ou­vi­dos, dei­xara de le­var à mãe aque­las des­co­ber­tas. Até que um dia, pela hora do al­moço, pi­sou na sala branco feito cera, ater­rado, olhos es­bu­ga­lha­dos, a voz mer­gu­lhada em sua mu­dez re­pen­tina, bambeando-se, trê­mulo, so­bre os cam­bi­tos.

Logo, an­tes de lhe acu­di­rem, a irmã tam­bém en­trou. Marta ha­via ido ao ni­nho verde. Fora chamá-lo para co­mer e abaixou-se por um ins­tante, numa ati­tude des­sas em que, inu­til­mente, os adul­tos pres­su­põem po­de­rem, com um sim­ples mo­vi­mento de corpo, aproximar-se do uni­verso in­fan­til.

Foi quando as­sis­tiu à sú­bita in­qui­e­ta­ção de Ví­tor e, em se­guida, à dis­pa­rada, sua fuga im­pa­ci­ente. Enfiara-se abrup­ta­mente pela sala e ime­di­a­ta­mente re­cor­rera aos bra­ços da mãe, bus­cando a se­gu­rança que só as mães po­dem nos dar. Be­beu água com açú­car e, ven­cendo o pa­vor, disse aque­las pa­la­vras des­co­ne­xas:

– A terra…tremeu…foi sim, a terra…mexeu mais…

Ca­pí­tulo 3

Qua­tro ou cinco dias pas­sa­ram sem que Ví­tor fosse ao ni­nho verde. So­turno, prostrou-se em al­gum canto da casa, escorria-lhe à fronte ole­osa a densa me­lan­co­lia. Mas vá ver cri­ança des­pa­char a cu­ri­o­si­dade! Não há. Deu-lhe na ca­beça re­to­mar os cos­tu­mes, de­sa­fi­ando o pró­prio hor­ror, que, não du­vide, ainda o con­su­mia.

O tempo re­me­dia, ex­tin­gue tor­men­tos ou, sabe-se lá, oculta-os em con­fins ina­ces­sí­veis. Ví­tor, de novo, juntou-se à terra, sen­tindo seu fres­cor, res­pi­rando seu cheiro le­ve­mente úmido, estirando-se pre­gui­ço­sa­mente so­bre sua ma­ciez e, por fim, acei­tando como um ca­ri­nho ir­re­cu­sá­vel a pul­sa­ção de­li­cada que o mas­sa­ge­ava com afeto. 

Al­guns me­ses adiantaram-se até su­ce­der, como na vez pas­sada, o fenô­meno que tanto in­tri­gara o me­nino. Agora, con­tudo, abar­cara o ím­peto do de­ses­pero e, di­ante da apro­xi­ma­ção de Marta, pôde ve­ri­fi­car, mesmo com o san­gue enregelando-se nas veias, aquela re­a­ção inu­si­tada, a terra pul­sando além do há­bito, o tre­mor sob o corpo in­frin­gindo a nor­ma­li­dade, um sus­surro desprendendo-se como voz dos mi­nús­cu­los grãos de areia que, sob a vi­são de Ví­tor, transformavam-se em cen­te­lhas sal­ti­tan­tes num ín­fimo re­de­moi­nho de po­eira re­lu­zente.

A terra a que­ria, me­teu isso na ca­beça. A terra a que­ria. A terra a que­ria. Em sua mente, o tê­nue sus­surro pa­re­cia ad­vir de uma le­gião dis­tante, pa­re­cia ser com­posto de sons dis­for­mes que se jun­ta­vam num só, vin­dos de vá­rias di­re­ções e, como numa im­pres­si­o­nante ma­gia, dis­pos­tos numa com­po­si­ção com­pre­en­sí­vel ao ou­vido hu­mano.

Para Ví­tor, não ha­via dú­vi­das. O sus­surro traduzia-se em M-a-a-a-a-r-t-a-a-a-a-a…M-a-a-a-a-a-a-r-t-a-a-a-a…Como po­de­ria le­var à mãe, ou a quem quer que fosse, tal en­redo fan­tas­ma­gó­rico? Sim, era algo fan­tas­ma­gó­rico, como ima­gi­nam ser algo fan­tas­ma­gó­rico as cri­an­ças. Mesmo to­mado pela in­fe­li­ci­dade, ator­men­tado por uma in­do­má­vel per­tur­ba­ção, tran­ca­fiou os pa­vo­res em seu âmago, resignando-se à des­dita, expondo-se com uma co­ra­gem in­co­mum para uma cri­ança a um ini­migo des­co­nhe­cido e, por isso, ini­ma­gi­ná­vel em seu po­de­rio.

Desde en­tão, vieram-lhe os so­nhos, os maus so­nhos: o bri­lho da irmã descortinando-se em mor­bi­dez, o véu de­sa­bando para re­ve­lar a face lí­vida e som­bria da po­bre Marta, logo no dia de seu ca­sa­mento, logo quando seus so­nhos de mu­lher enveredavam-se li­ber­tos a um fu­turo pro­mis­sor ao lado do ho­nesto e ca­ri­nhoso Isi­dro.

Na ma­nhã do dia, como já se soube, Ví­tor des­per­tou muito an­tes do que de­ve­ria. A es­cu­ri­dão da ma­dru­gada ainda debatia-se na ine­vi­tá­vel con­tenda, recusando-se a ser de­be­lada pelo cla­rão do sol por muito pouco au­sente.

A pas­sos le­ves, aden­trou o quarto de Marta. Dor­mia como um anjo a irmã, sob o len­çol branco que es­cor­re­gava quase ao so­a­lho e uma fina co­berta azul na qual sóis bor­da­dos des­pen­diam certo ful­gor, uma ale­gria de ju­ven­tude.

Olhou-a por um ins­tante fu­gaz, não que­ria acordá-la, mas foi o su­fi­ci­ente para ab­sor­ver de sua fi­si­o­no­mia a le­veza dos fe­li­zes. Re­freou um im­pulso de adiantar-se em sua di­re­ção, abraçá-la e beijá-la e de­pois cingi-la den­tro de seus bra­ços del­ga­dos, comprimi-la con­tra o peito e entregar-se, afi­nal, a qual fosse a luta para livrá-la de qual­quer des­tino ruim, de qual­quer mal, de qual­quer terra mal­dita.

Ca­pí­tulo 4 

O ni­nho verde aban­do­nara há se­ma­nas. O medo e o ódio àquela terra cres­ciam si­mul­ta­ne­a­mente. As­sim como tornara-se in­trín­seco a seu bem-estar o apra­zí­vel ha­bi­tat de tan­tas ho­ras, Ví­tor açam­bar­cava, desde seu mais re­moto sen­ti­mento, a oje­riza por algo que lhe fora um dia tão caro. 

O re­sul­tado, en­tre­tanto, desvelava-se em seu rosto tenro. A pa­li­dez das ma­çãs ou­trora ró­seas, quase mesmo ver­me­lhas, e os olhos en­trin­chei­ra­dos como duas opa­cas mi­nas d’água que se vêem afun­da­das na beira da es­trada, es­tas duas re­cen­tes ca­rac­te­rís­ti­cas de sua face se­riam por si só su­fi­ci­en­tes para de­la­tar seu es­tado cer­ta­mente do­en­tio.

En­tre­tanto, a casa voltava-se ha­via vá­rias luas ape­nas à lu­mi­no­si­dade eté­rea da noiva, re­le­gando tudo o mais a im­por­tân­cias me­no­res. So­mente de pas­sa­gem é que a avó fez-lhe aquele afago:

– Ora, ora… não fi­que triste, meu me­nino. Sua irmã só vai se ca­sar, não vai mor­rer…

Oh! Como que­ria po­der acre­di­tar em algo as­sim, em tão sim­ples cir­cuns­tân­cia; como so­nhava ocupar-se do cor­reto des­velo da parte que de­certo tam­bém cabia-lhe no apronto do evento; como gos­ta­ria de es­ca­par das gar­ras im­pla­cá­veis de suas mais ter­rí­veis an­gús­tias! Mas es­ses de­se­jos sig­ni­fi­ca­vam ape­nas so­nhos, so­nhos im­pos­sí­veis es­ca­pu­lindo no ho­ri­zonte dis­tante da re­a­li­dade ine­vi­tá­vel.

Na igreja, ao lado do cor­re­dor en­fei­tado de uma cor­rente de flo­res bran­cas e ama­re­las, re­zou como ja­mais o fi­zera, acre­di­tando pi­a­mente ser pos­sí­vel o que até en­tão nem ca­lhara ima­gi­nar, qual seja um au­xí­lio da­que­les san­tos pi­e­do­sos dis­pos­tos en­tre re­lí­quias e an­jos ab­sor­tos, aos quais não re­cor­rera se­ri­a­mente em mo­mento al­gum de sua re­les exis­tên­cia; se­ria de bom al­vi­tre confiar-lhes tal ta­refa?

Nesse mesmo se­gundo decretou-se im­pos­si­bi­li­tado de delegar-lhes o fardo, mas no ou­tro animou-se à ten­ta­ção aco­lhe­dora. Ade­mais, de onde po­de­ria es­pe­rar ajuda, se em seu es­tado in­fan­til e di­ante da burla do des­tino, se­ria ape­nas ob­jeto de ga­lhofa e suas vi­sões, de in­cre­du­li­dade?

Apressou-se em sua du­ra­doura sú­plica, desde o pri­meiro passo da irmã no piso sa­cro ao úl­timo amém. Observando-a, foi-lhe pos­sí­vel vis­lum­brar, sob o alvo véu cris­pado à leve brisa, sua fei­ção vi­vaz di­gla­di­ando com um sor­riso tei­moso a escapar-lhe pe­los ex­tre­mos dos lá­bios.

Era tes­te­mu­nha de sua fe­li­ci­dade desde o dia do con­sen­ti­mento. Marta, po­bre Marta! Desvencilhava-se por um só ins­tante de sua pen­dên­cia – a si­len­ci­osa as­sem­bléia com as ima­gens se­ve­ras da­que­les san­tos – e uma sen­sa­ção agra­dá­vel percorria-lhe os ner­vos, descontraindo-os à me­dida que vas­cu­lhava a si­lhu­eta ful­gu­rante da irmã, mas as­sim como libertava-se de seu cár­cere, a ele mesmo re­tor­nava, sub­misso ao cla­mor de sua alma afun­dada em ago­nia.

Nem mesmo sua crença mais re­cente, ob­tida às cus­tas da der­ra­deira es­pe­rança, afas­tava de si as vi­sões: o véu es­cor­rendo pelo rosto da Marta, a Marta diá­fana e vi­o­lada pela morte, os olhos es­ga­ze­a­dos.

Ca­pí­tulo 5 

Pe­los vi­trais de tons azu­la­dos na base e dou­ra­dos no alto, o sol bran­dia seus raios vi­go­ro­sos da ma­nhã. Exa­ta­mente so­bre o al­tar, um fa­cho lu­mi­noso abra­çava os noi­vos após ven­cer o cír­culo en­vi­dra­çado no teto da torre. 

Num lam­pejo, o rosto de Ví­tor iluminou-se. Ao me­nos num ins­tante de inex­pli­cá­vel ele­va­ção, so­nhou avis­tar ali um sa­grado si­nal a seus de­se­jos. Em re­dor, nas som­bras das ár­vo­res plan­ta­das em fi­lei­ras às cos­tas da igreja e em meio ao verde dos jar­dins da en­trada, o fes­tivo gor­jeio anun­ci­ava pás­sa­ros bem dis­pos­tos.

Ví­tor voltou-se ao por­tal, cu­ri­oso com a al­ga­zarra, e nisso o re­flexo da luz so­lar nas la­jo­tas la­va­das e en­ce­ra­das impediu-lhe a vi­são. Um mo­mento a mais e a es­pe­rança apoderou-se quase in­tei­ra­mente de seu es­pí­rito, o es­pí­rito do ga­roto fas­ci­nado pela ra­di­ante lu­mi­no­si­dade que en­tão en­vol­via a casa de Deus e, ora, ora, da­que­les san­tos, es­pe­ci­al­mente da­que­les san­tos.

Fustigava-o uma emo­ção in­su­por­tá­vel. Lu­tava con­tra a ex­ci­ta­ção e o in­tenso de­sejo de debandar-se para o lado da Marta, o de­sejo de sal­tar so­bre os ban­cos de ma­deira en­ver­ni­zada, cor­rer em di­re­ção a ela e atirar-se em seus bra­ços. Você vai ser fe­liz, Marta, você vai ser fe­liz, juro que vai! 

E houve que, no auge do breve transe, uma som­bra pai­rou so­bre o al­tar de ren­das e ouro. Lá atrás, à en­trada, a luz tam­bém ha­via des­va­ne­cido, per­ce­beu o me­nino num rá­pido me­neio de ca­beça. Voltando-se ao al­tar, viu que a som­bra movia-se len­ta­mente, como uma mão que afaga. 

Da ex­tre­mi­dade do mó­vel, voltou-se ao cen­tro, sobrepondo-se pri­meiro ao cá­lice e de­pois ao feixe de cri­sá­li­das, aproximou-se e desviou-se do pa­dre, sustentando-se fi­nal­mente nos om­bros da Marta. Ví­tor re­teve um urro de pa­vor, le­vou as duas mãos à boca, as lá­gri­mas des­ce­ram cons­tan­tes, até que seus olhos ar­re­ga­la­dos di­vi­sa­ram a ima­gem que se com­pu­nha às cos­tas do ves­tido branco da noiva, mas logo dissipando-se, como algo que a re­tina não pode cap­tar se exa­ta­mente em sua bre­vi­dade pis­ca­mos os olhos, a pál­pe­bra re­co­brindo o globo ocu­lar, pri­vando a re­tina de seu tra­ba­lho ro­ti­neiro.

O me­nino imaginou-se as­sim na­quela hora: ape­nas ele não pis­cara, ape­nas ele, o res­tante sim, os de­mais, numa coin­ci­dên­cia as­sus­ta­dora, bai­xa­ram suas pál­pe­bras, fe­cha­ram as cor­ti­nas sem ob­ser­var a ima­gem que se compôs, o de­se­nho pa­vo­roso, as asas aber­tas so­bre a ca­beça da noiva e muito de­pressa o grande urubu içando vôo, ba­tendo as asas e com­pri­mindo com elas Marta e seu véu.

Ca­pí­tulo 6

Da ce­rimô­nia à chá­cara, uma pa­la­vra se­quer ouviu-se à sua voz. Mal­grado sua in­sig­ni­fi­cân­cia num dia de ca­sa­mento da irmã, percebeu-lhe a mãe o rosto sul­cado pe­las go­tas sal­ga­das, mas evi­tou co­men­tá­rios, esfregando-lhe ape­nas o lenço so­bre a face turva, en­fim, o dia era mesmo para emo­ções.

Ví­tor, por sua vez, resignou-se ao banco tra­seiro, fi­tando bem pró­ximo ao vi­dro a pai­sa­gem mover-se. Na ci­dade, os tran­seun­tes pareciam-lhe ocu­pa­dos, pa­co­tes à mão e pas­sos apres­sa­dos, os ba­res en­tu­lha­dos, cri­an­ças ro­do­pi­ando so­bre bi­ci­cle­tas, o cal­ça­mento de pa­ra­le­le­pí­pe­dos evo­cando dos pneus gran­des da Ve­ra­neio um ronco surdo que lhe fa­zia có­ce­gas nos ou­vi­dos, veja se pode. 

Logo, to­ma­ram a vi­ci­nal de terra ba­tida e às suas mar­gens enfileiraram-se plan­ta­ções e cri­a­ções, a fo­to­gra­fia co­nhe­cida. Uma an­gús­tia si­len­ci­osa entristecia-o a cada me­tro ro­dado. Os diá­lo­gos ale­gres e às ve­zes emo­ci­o­na­dos dos ou­tros surtiam-lhe ape­nas um efeito pas­sa­geiro, ser­viam ape­nas para com­por um am­bi­ente que a ele já não in­te­res­sava mais. 

A sua culpa di­ante do fim trá­gico que su­pu­nha es­tar para acon­te­cer aviltava-lhe de tal ma­neira que já se sen­tia um ho­mem ju­di­ado pe­los anos. Tal­vez lan­çando mão de um ins­tru­mento pu­ni­tivo ao seu al­cance, castigava-se com con­je­tu­ras so­bre a terra que amal­di­ço­ara.

Não fosse seu apego àquele canto, quem sabe nada da­quilo hou­vesse. Julgava-se o res­pon­sá­vel pelo des­per­tar de uma in­com­pre­en­sí­vel e po­de­rosa força do mal, e mesmo in­ven­cí­vel, se to­masse em con­si­de­ra­ção sua luta e de seus san­tos ainda há pouco na igreja, onde ao fi­nal a som­bra sobrepujou-se à luz. A dis­tân­cia cumpriu-se em coisa de vinte mi­nu­tos, Ví­tor tom­bado ao acento. 

A par­tir do al­pen­dre, cons­truído num se­mi­cír­culo di­ante da casa, ata­pe­ta­ram a areia com en­ce­ra­dos es­ten­di­dos ao chão. As lo­nas co­bri­ram tam­bém as ar­ma­ções de ma­deira ins­ta­la­das para a oca­sião desde al­guns dias an­tes, quando o pai soube que o clube es­ta­ria in­dis­po­ní­vel por conta dos pre­pa­ra­ti­vos do baile de ani­ver­sá­rio e que a re­forma do sa­lão pa­ro­quial não se­ria con­cluída a tempo. 

Ví­tor, quando to­mou co­nhe­ci­mento, desesperou-se, mas o que po­de­ria fa­zer ele di­ante de sua in­sig­ni­fi­cân­cia? Mal re­pa­ra­vam sua ma­greza e seus olhos fun­dos! Em suas idéias, os maus re­sul­ta­dos nas in­ten­ções de re­ce­ber os con­vi­da­dos no clube ou no sa­lão da igreja nada mais re­pre­sen­ta­vam do que a pró­pria con­jun­ção de acon­te­ci­men­tos pro­pí­cios à des­dita que se avi­zi­nhava.

A terra mal­dita, sob o verde das fo­lha­gens, mar­ge­ava a área co­berta para a festa. Tudo parecia-lhe afu­ni­lar para o que in­di­ca­vam suas an­gus­ti­an­tes vi­sões. Nem mesmo o su­jeito con­tra­tado para o chur­rasco vi­era. Em seu lu­gar, não se soube de onde, apa­re­ceu um bru­ta­mon­tes es­tra­nho, de pou­cos den­tes e cer­ta­mente de me­nos ami­gos. Afi­ava seu jogo de fa­cas olhando para ele, Ví­tor, ou se­ria sua de­fi­ci­ên­cia que o obri­gava a fi­tar tudo de es­gue­lha? Bem, mas não era se­cun­dá­rio tal aparte? 

Aproximaram-se os con­vi­da­dos, aos pou­cos es­ta­ci­o­nando os veí­cu­los na pas­ta­gem aberta para isso mesmo, e acomodando-se nas tá­buas lar­gas que ser­viam de ban­cos co­la­dos às me­sas, es­tas com­pos­tas de ou­tras ex­ten­sas ma­dei­ras dis­pos­tas so­bre bai­xos ca­va­le­tes. Já es­ta­vam so­bre as me­sas as pe­que­nas tra­ves­sas com mo­lho e fa­rofa, além de ces­tos de pãe­zi­nhos e, claro, os ta­lhe­res. A festa pro­pri­a­mente dita co­me­çara. Mas não para ele.

Ca­pí­tulo 7

Em sua mente, ha­via lu­gar só para pre­ver a des­graça. Se al­guém ti­vesse tido a idéia ab­surda de acompanhá-lo em seus mo­vi­men­tos du­rante o evento, per­ce­be­ria algo como uma má­cula num sa­crá­rio. Tal­vez um ou ou­tro o per­ce­besse, mas tal­vez tam­bém o con­fun­disse com um ir­mão emo­ci­o­nado, como ocor­reu à pró­pria mãe. 

De­certo que lhe re­caía emo­ção, pois este es­tado abrange mo­da­li­da­des tão dis­tin­tas que se sua des­cri­ção não vier acom­pa­nhada de com­ple­men­tos so­bre o es­pí­rito de quem a car­rega, torna-se im­pos­sí­vel imaginá-la com cor­re­ção.

A emo­ção de Ví­tor, com efeito, con­sis­tia, ao con­trá­rio da emo­ção tí­pica de con­gra­ça­men­tos, em pe­nú­ria. A pri­va­ção da con­vi­vên­cia com a irmã, não por­que ela se ca­sara, mas por­que a morte vi­ria buscá-la dali a pouco, emocionava-o de tal forma que suas lá­gri­mas ro­la­vam sem fim. 

O me­nino sa­bia que ha­ve­ria algo pa­vo­roso e que a festa de ca­sa­mento da irmã te­ria como des­fe­cho a tra­gé­dia da pro­ta­go­nista. Uma sen­sa­ção es­tra­nha de te­mor, an­si­e­dade e im­po­tên­cia cres­cia den­tro dele. 

Dali a pou­cos mi­nu­tos, che­ga­riam Marta e Isi­dro, o ar­roz dis­tri­buído aos pu­nha­dos se­ria ati­rado so­bre eles, o sor­riso dela en­che­ria o lu­gar de ale­gria e emo­ção, esta sim uma co­mo­ção des­ti­nada a mo­men­tos como aquele, e de­pois? De­pois, quando os noi­vos aden­tras­sem o lu­gar pre­pa­rado para a re­cep­ção e se as­sen­tas­sem di­ante de to­dos, o co­ra­ção de Ví­tor ga­lo­pa­ria de­ses­pe­rado, até, quem sabe, ex­plo­dir.

Ao pen­sar so­bre a hi­pó­tese, o me­nino pôde sen­tir um alí­vio fu­gaz percorrer-lhe as en­tra­nhas. Que bom se­ria se seu co­ra­ção ex­plo­disse an­tes da tra­gé­dia da Marta. Que bom se­ria! E foi as­sim que lhe sur­giu a idéia, es­drú­xula, é ver­dade, mas o fi­apo de uma úl­tima es­pe­rança agitou-lhe a alma junto com a su­ges­tão.

To­das as tar­des, quando o sol enfraquecia-se, a mãe re­gava os jar­dins. A fo­lha­gem aban­do­nada junto com o pe­daço mal­dito da terra apresentava-se vi­çosa na­quele dia de festa. As sa­mam­baias e ou­tras fo­lhas co­briam a areia úmida e fria, quando Ví­tor afastou-se de to­dos e foi ao en­con­tro de seu ve­lho ni­nho verde, o ni­nho que há vá­rias se­ma­nas dei­xara para trás. 

De sú­bito, tomou-lhe a im­pres­são de clima gé­lido, um frio apossou-se de seu corpo, obrigando-o a abraçar-se a si mesmo, os os­sos ter­ri­vel­mente do­lo­ri­dos, os den­tes ba­tendo, as pa­la­vras pro­nun­ci­a­das sí­laba a sí­laba:

– Le …ve … le …ve … a … mim… le … ve … a … mim, não … a … Mar … ta …, não …a …Mar … ta …

Não ob­teve, con­tudo, qual­quer res­posta. Sua efê­mera pas­sa­gem por en­tre aquele am­bi­ente ge­lado não lhe foi ou­tra coisa se­não a pró­pria con­fir­ma­ção de tan­tos pres­sen­ti­men­tos. A mal­di­ção vi­nha dali, não exis­ti­riam meios para impedi-la. 

Tão logo re­to­mou os sen­ti­dos, recuperando-se ao vi­gor do sol, foi ter com a avó, a única que tal­vez pu­desse ouvi-lo. Num ato de ar­re­ba­ta­mento, cingiu-a pelo qua­dril e puxou-a ao lo­cal, mas em sua com­pa­nhia pôde pre­sen­ciar sim­ples­mente a nor­ma­li­dade: onde há pouco trans­pu­nham os li­mi­tes das ge­lei­ras os ares dos pó­los, agora ba­lou­ça­vam ra­di­an­tes, re­fle­tindo a lu­mi­no­si­dade do dia, as sa­mam­baias e as de­mais fo­lha­gens, e a terra esquentava-se ao sol.

Que es­tra­nho está você, me­nino… Ve­nha, va­mos co­me­mo­rar a fe­li­ci­dade da sua irmã!

Ca­pí­tulo 8

Uma úl­tima sur­presa apa­gou de­fi­ni­ti­va­mente em Ví­tor qual­quer chama que hou­vesse de sal­va­ção: por mais que ele re­lu­tasse, não ha­via como enganar-se so­bre a área ocu­pada pelo ni­nho verde e sua po­si­ção em re­la­ção à casa. Deus, como ele co­nhe­cia o ni­nho verde! 

Du­rante as tar­des, deitava-se ali e, por en­tre as plan­tas, ad­mi­rava o céu azul, acom­pa­nhava a vi­a­gem das nu­vens e em sua mente com­pu­nha de­se­nhos com as den­sas mas­sas bran­cas, mas não era só. Aco­mo­dado em meio ao verde e so­bre a terra ma­cia, mui­tas ve­zes ador­me­cia vendo, atra­vés da ja­nela do quarto de cos­tura, a mãe lançar-se aos pe­dais da má­quina, pro­du­zindo aquele vago ruído cons­tante. Isso fazia-o dor­mir, quan­tas ve­zes!

Eis que agora, em plena festa, alinhando-se ao ni­nho verde, des­co­bria a en­ge­nho­si­dade fi­nal. De lá – per­ceba isso –, da moita de fo­lha­gens, onde ela plantava-se agora, era im­pos­sí­vel avis­tar a ja­nela. Sim, se ele se dei­tasse agora mesmo na­quele pe­daço ge­lado de chão, po­de­ria contagiar-se com a be­leza do céu azul e ima­gi­nar co­e­lhos, car­nei­ros e ve­lhos de barba en­tre as nu­vens, mas não dor­mi­ria as­sis­tindo ao tra­ba­lho da mãe na má­quina de cos­tura.

Pe­los seus cál­cu­los, as plan­tas, e tal­vez a terra – oh, Deus! – ti­nham se des­lo­cado pelo me­nos três me­tros à es­querda. Es­ta­vam agora bem atrás da mesa dos noi­vos. Um surto abateu-se so­bre Ví­tor, ele ame­a­çou dis­pa­rar no rumo da mãe, mas a vo­ze­a­ria avolumou-se sob os en­ce­ra­dos, os noi­vos des­ciam do carro alu­gado e, an­tes mesmo que se en­di­rei­tas­sem so­bre as per­nas bam­bas da justa emo­ção, já le­va­vam uma surra de pe­que­ni­nos grãos bran­cos que pa­re­ciam pu­lu­lar a re­bo­que de uma fe­li­ci­dade ím­par.

Ca­pí­tulo 9

Mesmo as­sim, Ví­tor ten­tou. Obs­cu­re­cido ainda mais de­baixo dos fes­te­jos do ar­roz, sa­cu­diu o li­nho do pai, de­pois o tail­ler da mãe e, por fim, mais uma vez ape­lou à avó, mas esta ape­nas o en­la­çou com afeto e es­pa­lhou ar­roz so­bre seus cur­tos e vas­tos ca­be­los ne­gros.

Abra­ça­dos, os olha­res cruzando-se sob mú­tua ad­mi­ra­ção, Marta e Isi­dro fo­ram pas­sando pe­los con­vi­da­dos, cumprimentando-os ale­a­to­ri­a­mente, até che­ga­rem à mesa re­ser­vada a eles. Ví­tor desgarrou-se do pe­queno tu­multo fes­tivo que se ins­ta­lara no re­cinto e chis­pou para perto do ca­sal, pondo-se es­tra­te­gi­ca­mente, em­bora não sou­besse bem por que, ao lado da Marta, que es­tava à di­reita de Isi­dro.

Logo atrás, uma pe­quena efu­são re­me­xia as fo­lha­gens do ni­nho verde. Pouco há mais a di­zer so­bre o que se pas­sou, tão inu­si­tado e im­pro­vá­vel mostrou-se o epi­só­dio, mas an­tes desse fato que me vem à me­mó­ria como se de­pois disso não ti­vesse ha­vido ama­nhã, Ví­tor, per­tur­bado e ine­vi­ta­vel­mente à beira de um co­lapso tal a in­ten­si­dade com que o co­ra­ção sacudia-lhe o peito, ainda olhou seu ni­nho uma úl­tima vez e, como se o fi­tasse com uma ima­gi­ná­ria fronte cris­pada, a terra pul­sou vi­si­vel­mente.

En­tão, ru­giu o vento forte que, sem qual­quer ex­pli­ca­ção sen­sata, não le­van­tou uma to­a­lha se­quer, mas ape­nas vas­cu­lhou com fu­ror a ca­beça das pes­soas e tudo o que se pu­nha acima de­las. A ar­ma­ção de ma­deira, como se a base não fosse im­por­tu­nada pelo tor­nado, re­sis­tiu in­te­gral­mente, em­bora os en­ce­ra­dos desde o pri­meiro ins­tante em que si­bi­lou a fú­ria já so­bre­vo­as­sem em cír­cu­los os ar­re­do­res da casa. 

Ócu­los, gra­va­tas, len­ços e al­guns cha­péus perderam-se num ins­tante só. Os con­vi­da­dos, sem com­pre­en­der o fenô­meno, levantavam-se e, de­se­qui­li­bra­dos, iam di­reto ao chão, onde, aliás, encontrava-se to­tal se­gu­rança. Ali não ha­via vento, se­ria pos­sí­vel jo­gar car­tas so­bre o en­ce­rado dis­posto para co­brir a areia. 

Ner­vo­sos, os pre­sen­tes não se aper­ce­biam desse es­tra­nho de­ta­lhe e con­ti­nu­a­vam erguendo-se e debatendo-se com ou­tros na ten­ta­tiva de per­ma­ne­cer em pé. As­sim, o epi­só­dio gro­tesco se­guia seu curso, até que um grito hor­ri­pi­lante es­ca­passe da gar­ganta de Ví­tor. Mas fora hor­ri­pi­lante ape­nas para ele mesmo, pois os de­mais, apa­vo­ra­dos com o ven­da­val, não con­se­gui­ram ouvi-lo. 

O me­nino viu quando, do ni­nho verde, ergueu-se a terra a uma al­tura de apro­xi­ma­da­mente meio me­tro e uma fenda nela escancarou-se, logo atrás da Marta, que, sem as­sis­tir a tal ab­surdo e agarrando-se a Isi­dro, lu­tava con­tra sua queda. 

Em se­guida, Ví­tor per­ce­beu uma im­pres­si­o­nante al­te­ra­ção do fenô­meno. Foi como se um as­so­pro se trans­for­masse em suc­ção. E as­sim, escapando-se de Isi­dro, a irmã já inclinava-se na di­re­ção da fenda que se abria sob as fo­lha­gens do ni­nho verde. 

Num es­forço so­bre­na­tu­ral, o me­nino lançou-se à frente, agarrando-a pelo qua­dril, en­quanto Isi­dro, ino­cente quanto ao fim que se dava ao evento, abra­çou o pe­queno cu­nhado pe­las per­nas. Pouco a pouco, em coisa de mi­nu­tos, ao passo que os três atarracavam-se uns aos ou­tros, enfraqueceu-se a fenda, Ví­tor observando-a sem­pre. Foi quando ele vol­tou a ou­vir aquele sus­surro, mas agora em ou­tras pa­la­vras:

– V-í-t-o-r, V-í-t-o-r, o v-é-ú, o v-é-u…

Ví­tor, com­pre­en­dendo a si­tu­a­ção, aju­dou o alvo véu a desvencilhar-se dos tra­jes da Marta. E, en­quanto, a fú­ria do vento ar­re­fe­cia, viu seu pe­daço de chão, tal­vez com to­das as for­ças des­per­di­ça­das no in­su­cesso que já se aca­bava, tra­gar len­ta­mente o véu da noiva, até fazê-lo de­sa­pa­re­cer den­tro de um pe­queno risco na areia seca. 

Ca­pí­tulo 10 (Epí­logo)

Bem, o vento se foi, a festa con­ti­nuou e Marta vi­veu fe­liz com Isi­dro. Mas o epi­só­dio, que só eu co­nheci, ja­mais saiu-me da ca­beça. Hoje, com qua­renta anos, volto à terra que, por ra­zões ou­tras, meu pai ven­deu logo de­pois do ca­sa­mento de mi­nha irmã. 

A chá­cara, vi­si­vel­mente de­sam­pa­rada pelo pro­pri­e­tá­rio atual, ainda re­siste com as ve­lhas es­tru­tu­ras. A casa com as pa­re­des ra­cha­das, o al­pen­dre es­co­rado, as pas­ta­gens se­cas e aban­do­na­das, as ár­vo­res des­fo­lha­das e do­en­tes com­põem o tom me­lan­có­lico. O ni­nho verde não é mais verde. Tudo se­cou na­quele pe­queno pe­daço. A terra tam­bém mostra-se en­ve­lhe­cida, tin­gida de uma ne­grura es­tra­nha.

Por um ins­tante, va­gou em mi­nha mente a idéia que de al­gum modo aquela terra vingara-se de sua der­rota do pas­sado, mas logo o re­ceio de es­tar en­lou­que­cendo afastou-me de tal des­va­rio. Pedi per­mis­são ao dono, um in­ve­te­rado jo­ga­dor al­coó­la­tra, para ver o lu­gar. Bê­bado, ele mal me res­pon­deu:

– Faça o que bem en­ten­der… Quer com­prar aquilo?

Dou al­guns pas­sos em di­re­ção ao lu­gar onde na­que­les tem­pos flo­res­cia o ni­nho verde e uma sú­bita sen­sa­ção revela-se para meu te­mor. Incomoda-me um frio es­tra­nho que num lapso traz-me à me­mó­ria o dia do ca­sa­mento da Marta, mas logo vejo que se trata ape­nas de su­ges­tão (Deus, eu ja­mais me es­queci de qual­quer um da­que­les de­ta­lhes pa­vo­ro­sos!).

Ao con­trá­rio de qual­quer in­verno, o sol é abra­sa­dor. Es­ta­mos em pleno mês de ja­neiro e o mor­maço faz re­ver­be­rar logo adi­ante ca­po­ei­ras e lei­tei­ros na triste pas­ta­gem. Livrando-me da mi­se­rá­vel he­si­ta­ção que me hu­mi­lha por um ins­tante, recomponho-me e in­visto con­tra meu re­ceio. Não há nada aqui, só uma areia seca, sem vida, mis­tu­rada a gra­ve­tos e pe­dre­gu­lhos mar­rons.

Agacho-me exa­ta­mente so­bre o lu­gar onde tan­tas ve­zes ador­meci con­for­ta­vel­mente, risco o chão com o in­di­ca­dor, uma nos­tal­gia bate à mi­nha porta. Te­ria sido tudo uma ilu­são de cri­ança? Irrito-me co­migo mesmo. De­pois de tudo que pas­sei na­que­les dias! 

Mas, por mais que este pe­daço de terra te­nha causado-me o des­gosto, não lhe guardo má­goa. Tal­vez por­que as coi­sas aca­ba­ram bem. Faço men­ção em levantar-me, mas algo ainda atrai-me a aten­ção. Um mi­nús­culo ponto branco bri­lha em meio à areia es­cu­re­cida. In­tri­gado e com o peito em cres­cente ebu­li­ção, es­tendo o braço até o in­cóg­nito ob­jeto e, com­pri­mindo o po­le­gar con­tra o in­di­ca­dor, resgato-o da ari­dez. Do iní­cio ao fim, sem uma nó­doa se­quer, nasce da terra um alvo véu de noiva, afagando-me o rosto con­forme a brisa e, pela con­tun­dente emo­ção, arremessando-me ao solo morto.

(Fim)

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