Contos

Aquela bala de hortelã – 5

domingo, 19 de abril de 2009 Texto de

Numa das úl­ti­mas ve­zes em que fui à casa de Elisa, per­cebi que ha­via um clima di­fe­rente dos ou­tros dias. A se­nhora Wan­der tratou-me com edu­ca­ção, claro, mas não foi a mesma de sem­pre, preocupando-se muito em es­con­der os olhos ver­me­lhos de ter cho­rado re­cen­te­mente. Elisa deu a fi­cha: os pais ti­nham dis­cu­tido ou­tra vez. “Ou­tra vez”? Sim, as dis­cus­sões que nunca ha­viam ocor­rido, agora tornavam-se freqüen­tes. O mo­tivo era sim­ples: de­pois do quase-acidente na es­trada, a se­nhora Wan­der não su­por­tava mais vi­ver da­quela ma­neira e de­se­java a todo custo le­var o fi­lho para um tra­ta­mento psi­quiá­trico, em­bora não ti­vesse cer­teza de que algo as­sim pu­desse re­sul­tar em be­ne­fí­cios para ele. Já Da­mião Fausto interpunha-se.

– Ma­mãe tam­bém re­cla­mou de umas coi­sas que o Pa­pai está pe­dindo ao Ho­mero. Ela o cha­mou de apro­vei­ta­dor.

Daí em di­ante, as coi­sas ape­nas pi­o­ra­ram. Elisa tam­bém vi­via cho­rando, o que me dei­xava ter­ri­vel­mente triste. Por vá­rias ve­zes, che­guei a de­se­jar que Da­mião Fausto fosse em­bora e nunca mais vol­tasse. Mas ele sem­pre vol­tava. Até que numa tarde, co­meço de pri­ma­vera, um sol es­cal­dante cla­re­ando ou­tra vez os ipês flo­ri­dos que di­vi­diam ao meio as duas ave­ni­das de Mi­rante Norte, es­tava com mi­nha bi­ci­cleta dei­xando o Ar­ma­zém Cen­tral, onde es­co­lhera al­gu­mas fru­tas a pe­dido de ma­mãe, quando Da­mião Fausto freou brus­ca­mente seu pe­queno ca­mi­nhão Che­vro­let, aqui­si­ção re­cente, e abriu um sor­riso em mi­nha di­re­ção:

– Va­mos lá, Rô­mulo, bote a bi­ci­cleta aí em cima e va­mos com a gente!

Ele ia ani­mado com seu novo veí­culo. Ho­mero es­tava ao seu lado, olhando-me com a face mais inex­pres­siva do mundo. En­tão, abri a porta, pus a cesta de fru­tas so­bre o banco, ao lado do ga­roto, e preparei-me para er­guer a bi­ci­cleta e instalá-la na car­ro­ce­ria. Nesse in­ter­valo po­rém, ouvi Ho­mero desesperar-se de­pois de um grito de pa­vor:

– Po­bre­zi­nho do Pa­pai, po­bre­zi­nho do Pa­pai… Não, Pa­pai… Não, Pa­pai…

Meu co­ra­ção ame­a­çou desgarrar-se de veias, va­sos e ar­té­rias. Quis mesmo comprimir-se e su­bir pela gar­ganta, sal­tando, apa­vo­rado, boca afora. En­quanto eu em­pre­en­dia mi­nha luta con­tra esse de­sejo en­fu­re­cido do co­ra­ção e con­tra to­dos os re­ceios que re­caíam so­bre mi­nha alma na­quela hora an­gus­ti­ante, ob­ser­vei que, num salto, Ho­mero agarrou-se a Da­mião Fausto, beijando-o com afli­ção, esfregando-se con­tra a face do pa­drasto e re­pe­tindo:

– Po­bre­zi­nho do Pa­pai, po­bre­zi­nho do Pa­pai… Não, Pa­pai… Não, Pa­pai…

Foi quando tive pena de Da­mião Fausto. Cer­ta­mente mais aflito do que eu e mais ago­ni­ado do que o pró­prio en­te­ado, tornou-se branco como cera. As­sim como eu, ele sa­bia que algo es­tava para acon­te­cer e tudo le­vava a crer que a ví­tima, dessa vez, se­ria ele mesmo: Da­mião Fausto. Num fio de voz que re­ti­nia fino de sua gar­ganta, ele ainda in­ter­pe­lou o me­nino:

– O que foi, Me­ri­nho? O que foi, Me­ri­nho?

Mas ia ser tarde. Do ou­tro lado da rua, de­baixo de um ipê cu­jos ga­lhos ar­ro­xe­a­dos sa­cu­diam le­ve­mente, fa­zendo dan­çar ao vento as pé­ta­las de suas flo­res vo­lup­tu­o­sas, o fa­zen­deiro To­nico For­tes em pes­soa, sem ca­panga ou ma­ta­dor, já er­guia na di­re­ção do Da­mião Fausto sua gar­ru­cha de dois ca­nos.

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