Contos

Aquela bala de hortelã – 4

sábado, 18 de abril de 2009 Texto de

Quando eles vol­ta­ram da vi­a­gem ao en­terro, re­to­ma­mos nos­sos en­con­tros, sem­pre à tarde. Para ser dis­creto, em vez de ir pela rua, eu saía pe­los fun­dos de mi­nha casa, atra­ves­sava um po­mar e to­mava o ca­mi­nho de terra à beira do re­gato que es­cor­ria da mata e se­guia seu curso por uma vasta pla­ní­cie até de­sa­pa­re­cer lá longe. Nos fun­dos da casa de Elisa, eu es­con­dia mi­nha bi­ci­cleta em meio à ve­ge­ta­ção e, cui­dando de modo a não ser fla­grado, vol­tava à rua para en­trar na re­si­dên­cia de acordo com a boa edu­ca­ção. Tal­vez me ti­ves­sem visto uma ou ou­tra vez, mas acre­dito que nunca dis­se­ram nada à mi­nha mãe. E se dis­se­ram, ela man­teve a ele­gân­cia de não me acu­sar por algo que, aliás, es­tava longe de ser um crime.

Elisa manteve-se en­tris­te­cida por um bom pe­ríodo. Lembro-me que já che­ga­vam os dias mais frios e isso pa­re­cia co­la­bo­rar para mantê-la en­clau­su­rada em sua me­lan­co­lia. En­tão, num mo­mento de co­ra­gem, perguntei-lhe so­bre Ho­mero. Como ele pôde sa­ber da morte da avó an­tes do te­le­fo­nema? Elisa pro­cu­rou afas­tar a nu­vem cin­zenta que pai­rava so­bre sua ca­beça e, como sem­pre o fa­zia ao dirigir-se a mim, pôs no rosto ebúr­neo uma lu­mi­no­si­dade que con­tras­tou de ma­neira ex­tra­or­di­ná­ria com seus olhos ne­gros. Tomou-me pela mão, disse à mãe que me mos­tra­ria algo no “quar­ti­nho” e puxou-me com avi­dez aos fun­dos do quin­tal.

Nosso diá­logo lá foi mais ou me­nos o se­guinte:

– Você é meu amigo de ver­dade, Rô­mulo. Eu sei que é…

– Sim, claro que sou.

Ver­da­dei­ra­mente, con­fesso, eu pre­ten­dia ser bem mais do que um amigo de Elisa, mesmo aos doze anos. Eu que­ria ser seu na­mo­rado, seu noivo, seu ma­rido, o pai de seus fi­lhos, a avô de seus ne­tos, o com­pa­nheiro dela no qua­dro que os des­cen­den­tes cos­tu­ma­vam fi­xar na pa­rede re­tra­tando seus an­te­pas­sa­dos.

– É que ma­mãe me pede to­dos os dias para que nin­guém saiba so­bre Ho­mero.

– Mas em mim você sabe que pode con­fiar.

– Eu sei, em você eu con­fio.

– En­tão?

– Ho­mero está dois mi­nu­tos adi­an­tado…

Ao ou­vir isso, mi­nha pri­meira re­a­ção foi ob­ser­var lá fora do quar­ti­nho, na di­re­ção do quin­tal, onde se per­diam na­quele exato mo­mento os olhos ne­gros de Elisa. Por um lapso, pen­sei que ve­ria Ho­mero fa­zendo algo que ele de­ve­ria fa­zer so­mente dali a dois mi­nu­tos. Mas logo, e prin­ci­pal­mente quando me dei conta de que não ha­via nin­guém lá fora, muito me­nos o ga­roto, uma sen­sa­ção de medo percorreu-me o san­gue. Mesmo com o frio, pre­ci­sei sa­car duas ba­las de hor­telã e chupá-las im­pul­si­va­mente.

No quar­ti­nho dos fun­dos da casa de Elisa, eu soube que o ir­mão­zi­nho dela vi­via um tempo que não era o nosso. Ele sem­pre es­tava à frente, vi­vendo tudo an­tes de to­dos. Era isso que acon­te­cia com ele e que a se­nhora Wan­der não gos­ta­ria de re­ve­lar aos ou­tros. De­pois do golpe ini­cial, cu­jas con­seqüên­cias puseram-me a ima­gi­nar mil coi­sas so­bre­na­tu­rais so­bre Ho­mero, acalmei-me e muito de­pressa pas­sei a achar aquilo en­gra­çado. Eu já ou­vira fa­lar de pes­soas que ti­nham vi­sões, mas de al­guém que es­ti­vesse adi­an­tado no tempo, ja­mais. Ab­surdo. Im­pos­sí­vel. Foi o que me veio à ca­beça, mas não jun­tei co­ra­gem su­fi­ci­ente para ex­por essa opi­nião, o que po­de­ria re­sul­tar até mesmo em ofensa. Por ou­tro lado, que di­fe­rença fa­zia? O fato era que Ho­mero sa­bia de cer­tas coi­sas com de­ses­pe­ra­dora an­te­ce­dên­cia. Dei­xei que Elisa man­ti­vesse sua in­ter­pre­ta­ção, bas­tante ori­gi­nal que se diga, so­bre o fenô­meno vi­vido es­po­ra­di­ca­mente pelo ir­mão.

Aqui, abro pa­rên­tese para uma cons­ta­ta­ção. Quando a se­nhora Wan­der acei­tava o des­prezo das pes­soas de Mi­rante Norte, essa ati­tude parecia-me um tanto co­varde. Em to­dos aque­les dias junto de Elisa, eu pro­cu­rava, acho que in­vo­lun­ta­ri­a­mente, des­con­si­de­rar esse as­pecto do com­por­ta­mento da mãe de mi­nha amiga, que no mais mostrava-se uma pes­soa ca­ri­nhosa e de ótimo re­la­ci­o­na­mento. Con­tudo, ao to­mar co­nhe­ci­mento dessa fa­ceta inu­si­tada de Ho­mero, uma ver­go­nha tin­giu mi­nha alma. Quanto não so­fre­ria aquela mu­lher em seu iso­la­mento? So­fria e mesmo as­sim de­ve­ria de­se­jar a con­ti­nui­dade de seu so­fri­mento, pois, em tais cir­cuns­tân­cias, quanto maior fosse o grau de seu iso­la­mento, mais se­guro es­ta­ria seu se­gredo. En­tão, pas­sei a admirá-la com­ple­ta­mente, agora tam­bém por sua do­lo­rosa de­di­ca­ção como mãe. Fe­cho o pa­rên­tese.

Mas a res­peito de Ho­mero, contou-me Elisa que a mãe en­con­trara na ca­pi­tal um psi­qui­a­tra dis­posto a es­tu­dar a fundo o caso do fi­lho. Mas o pa­drasto, que, me di­zia ela, nem de longe mostrava-se má pes­soa, dera opi­nião con­trá­ria. Para Da­mião Fausto, caso esse con­tato fosse feito con­cre­ta­mente, eles per­de­riam o con­trole da si­tu­a­ção. Te­mia a cu­ri­o­si­dade das pes­soas, a me­di­cina, que po­de­ria tor­nar o ga­roto uma es­pé­cie de co­baia, a im­prensa sem­pre ávida por no­tí­cias sen­sa­ci­o­nais e, por fim, a pró­pria so­ci­e­dade de Mi­rante Norte, que po­de­ria am­pliar ainda mais seu des­gosto com aquela fa­mí­lia.

E desse modo ou­tros dias cor­re­ram, até que numa de mi­nhas vi­si­tas, ao che­gar à casa de Elisa, apres­sado em ra­zão da in­ter­mi­tente chuva de in­verno, avis­tei Ho­mero en­trando so­zi­nho no quar­ti­nho dos fun­dos. Não sei o que me le­vou a bis­bi­lho­tar as­sim a vida alheia, mas sal­tei a cerca do quin­tal e, cui­da­doso, aproximei-me da ja­nela do cô­modo iso­lado. Lá den­tro es­tava o Da­mião Fausto. Com ca­ri­nho, ele mos­trava al­guns nú­me­ros a Ho­mero e pe­dia para que o me­nino apon­tasse quais se­riam os sor­te­a­dos na lo­te­ria ou no jogo do bi­cho, sabe-se lá. Mas Ho­mero pouco com­pre­en­dia aquilo, as­sim como Da­mião Fausto tal­vez tam­bém não com­pre­en­desse a con­di­ção do en­te­ado. Dei­xei os dois ali e vol­tei à porta da frente da casa.

Mais tarde, de­pois que o pa­drasto saiu para ver qual­quer coisa na ci­dade, Elisa disse-me que na­quele dia Ho­mero ti­nha pre­visto ou­tra des­graça e que de­vido a essa pre­vi­são a tra­gé­dia não se con­cre­ti­zara. De au­to­mó­vel, vi­nham da ci­dade vi­zi­nha, onde ti­nham feito com­pras, Da­mião Fausto e a se­nhora Wan­der, tra­zendo Ho­mero com eles. A pou­cos quilô­me­tros de Mi­rante Norte, Ho­mero des­pen­cara a cho­rar, en­quanto gri­tava algo como:

– Po­bre­zi­nha da ma­mãe, po­bre­zi­nha da ma­mãe… ôni­bus mal, ôni­bus mal…

Com os olhos en­char­ca­dos, Elisa contou-me que a cada pa­la­vra, Ho­mero aca­ri­ci­ava os ca­be­los da mãe, sob forte co­mo­ção. Nisso, Da­mião Fausto di­vi­sou vindo pela pista con­trá­ria um ôni­bus in­ter­mu­ni­ci­pal. Como sou­besse de acon­te­ci­men­tos an­te­ri­o­res, in­clu­sive o úl­timo, re­la­ci­o­nado à so­gra, freou o quanto pôde o au­to­mó­vel e con­se­guiu aces­sar uma es­trada de terra que li­gava a ro­do­via a uma en­trada de fa­zenda. Mal con­cluiu a ma­no­bra e ou­viu o es­touro cau­sado por um dos pneus do ôni­bus, que se des­go­ver­nou e in­va­diu a pista con­trá­ria. Pe­los cál­cu­los de Da­mião Fausto, o mo­to­rista le­vou ao me­nos tre­zen­tos me­tros para re­to­mar o con­trole do ôni­bus e pa­rar no acos­ta­mento.

– Pa­pai nos disse que se não ti­vesse saído da es­trada, o ôni­bus te­ria pas­sado por cima do nosso carro.

Elisa e o ir­mão cha­ma­vam Da­mião Fausto de “Pa­pai”. E acho que na­quele dia, “Pa­pai” convenceu-se de que po­de­ria ti­rar pro­veito de Ho­mero tam­bém para se dar bem na vida.

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