Contos

Aquela bala de hortelã – 1

quarta-feira, 15 de abril de 2009 Texto de

O ve­rão de 1962 foi de der­re­ter os mi­o­los. Pelo me­nos era isso que cos­tu­má­va­mos ou­vir com freqüên­cia nas con­ver­sas pre­gui­ço­sas dos vi­zi­nhos e co­nhe­ci­dos quando an­dá­va­mos pe­las ruas logo após o al­moço. Não, isso não quer di­zer que não ha­via chu­vas. Cho­via cons­tan­te­mente. As en­xur­ra­das encarregavam-se de tra­zer muita terra das en­cos­tas e despejá-la nas cal­ça­das. Quando o sol res­sur­gia e as nu­vens de­sa­pa­re­ciam do céu, lá iam os mo­ra­do­res, es­pe­ci­al­mente os co­mer­ci­an­tes, com suas en­xa­das em pu­nho, ras­par os la­dri­lhos bar­ren­tos. Mas esse tra­ba­lho pouco adi­an­tava, por­que dali a al­gu­mas ho­ras ou no má­ximo em dois ou três dias, o agua­ceiro des­pen­cava no­va­mente e a lama co­bria tudo ou­tra vez. Para nós, es­tu­dan­tes do quarto ou quinto ano, tanto os dias de sol como os dias de chuva re­pre­sen­ta­vam oca­siões para aven­tu­ras, às ve­zes bem su­ce­di­das, em ou­tras…

Es­tu­dá­va­mos de ma­nhã, e as tar­des, cum­pri­das as ta­re­fas es­co­la­res, pa­re­ciam esperar-nos de bra­ços aber­tos com sua brisa quente e a cla­ri­dade in­tensa da época re­ser­vada ao ca­lor. Lembro-me de que es­co­vava os den­tes, no piso su­pe­rior de nosso pe­queno so­brado, en­quanto pelo vão da ja­nela do ba­nheiro ob­ser­vava an­si­oso se os ou­tros ga­ro­tos já es­ta­vam à mi­nha es­pera lá em­baixo, à beira do gra­mado limpo, com seus dois ou três pe­que­nos can­tei­ros de cra­vos e ro­sas, que se­pa­rava a rua e a va­randa de casa. Com nos­sas bi­ci­cle­tas, ro­dá­va­mos boa parte dos ar­re­do­res da di­mi­nuta ci­dade. Se nos­sos pais con­sen­tiam? Ah, sim! Você não pode ima­gi­nar como eram sos­se­ga­dos aque­les ar­re­do­res na­que­les tem­pos. Ha­via tre­chos em que sa­bía­mos onde des­viar de pon­tas de raí­zes ou de ga­lha­das pron­tas a sur­pre­en­der um fo­ras­teiro de­sa­vi­sado. Co­nhe­cía­mos uma in­fi­ni­dade de ro­tas em meio à pe­quena selva da parte alta, pouco an­tes do iní­cio das cons­tru­ções que com­pu­nham a zona ur­bana. Ali, muito perto, ha­via o acesso para quem vi­nha da ro­do­via. Era as­fal­tado.

Dois quilô­me­tros, tal­vez al­guns me­tros a mais, se­pa­ra­vam em grande de­clive a ro­do­via e a en­trada da ci­dade. Em cer­tos ho­rá­rios, o mo­vi­mento de pe­des­tres era maior nesse per­curso do que em qual­quer ou­tro lo­cal. Isso por­que as pes­soas vi­a­ja­vam muito mais de ôni­bus. Para ir a ci­da­des pró­xi­mas, bas­tava dirigir-se à ro­do­via e sentar-se no banco do ponto dos in­te­rur­ba­nos. Pou­cos en­tra­vam em Mi­rante Norte, mas mui­tos pas­sa­vam à sua porta e al­guns pro­gra­ma­vam pa­ra­das. Gos­tá­va­mos de apro­vei­tar es­sas ho­ras para exi­bir nos­sas ha­bi­li­da­des so­bre duas ro­das, dis­pu­tá­va­mos nosso grande prê­mio.

Em seis ou sete pri­vi­le­gi­a­dos do­nos de boas má­qui­nas, como fa­zía­mos ques­tão de chamá-las, pe­da­lá­va­mos com ex­trema di­fi­cul­dade rumo ao topo da es­trada de acesso. Nunca co­nheci ou­tros dois quilô­me­tros tão lon­gos como aque­les, mas su­bir mon­ta­dos nas bi­ci­cle­tas com­pu­nha re­qui­sito bá­sico para a dis­puta da cor­rida. Quem não su­por­tasse a la­deira bra­via, po­dia considerar-se des­clas­si­fi­cado. O Joca, ape­li­dado Joca Fan­gio por sua afei­ção ao au­to­mo­bi­lismo e por tratar-se de nossa sin­gela ho­me­na­gem ao grande cam­peão, con­tro­lava a pon­tu­a­ção. Nos­sas tem­po­ra­das eram se­mes­trais. A cada mês, cum­pría­mos no má­ximo dois gran­des prê­mios, em ra­zão de mo­ti­vos que ainda se­rão dis­pos­tos. Fan­gio ano­tava as co­lo­ca­ções em sua pran­cheta e orgulhava-se de ser tra­tado por “se­nhor juiz”. Cor­pu­lento aos 11 anos, ja­mais con­se­gui­ria su­bir a la­deira, e se pu­desse fazê-lo, tal­vez fosse muito pior. Onde da­ria uma bi­ci­cleta em­ba­lada la­deira abaixo por seus mais de cem qui­los?

A che­gada, aliás, constituía-se na nossa prin­ci­pal pre­o­cu­pa­ção. Logo ao fi­nal da via de acesso, às mar­gens da ci­dade, o as­falto sim­ples­mente aca­bava, seguindo-se algo em torno de cem me­tros até o iní­cio da ave­nida prin­ci­pal de Mi­rante Norte, pa­vi­men­tada com pa­ra­le­le­pí­pe­dos. Des­cer em alta ve­lo­ci­dade pelo as­falto e aden­trar um tre­cho de terra, em que na es­ta­ção das chu­vas os bu­ra­cos cres­ciam des­ca­ra­da­mente, sig­ni­fi­cava um grande risco de aci­den­tes. Tal­vez para vingar-se de sua frus­tra­ção por não po­der par­ti­ci­par das cor­ri­das, Fan­gio pro­cu­rava posicionar-se, como juiz, sem­pre muito pró­ximo ao fim do as­falto. Dali em di­ante, por mais que você ten­tasse frear, as di­fi­cul­da­des de pa­rar a bi­ci­cleta eram imen­sas.

Es­tá­va­mos po­si­ci­o­na­dos para a lar­gada, na ca­be­ceira da pista. Aguar­da­mos os pas­sa­gei­ros des­ce­rem do ôni­bus e per­cor­re­rem al­guns me­tros es­trada abaixo e, en­tão, ou­vi­mos o apito do Pi­nó­quio, um me­nino de na­riz grande, au­xi­liar de Fan­gio, e cujo im­pe­di­mento de par­ti­ci­par co­nosco dos gran­des prê­mios não era fí­sico, mas fi­nan­ceiro. Pi­nó­quio, de fa­mí­lia po­bre, não ti­nha bi­ci­cleta. Ao me­nos não na­quela época. Mais tarde, eu me re­cordo, ele teve uma, mas os pneus vi­viam na lona, a cor­rente mal encaixava-se aos den­tes e o gui­dão quase nunca obe­de­cia as ma­no­bras, o que sem­pre o dei­xava fora das com­pe­ti­ções.

Bem, mas quando soou o apito de Pi­nó­quio, nós lar­ga­mos. A es­trada de acesso se­guia, mais ou me­nos, as se­guin­tes ca­rac­te­rís­ti­cas: os pri­mei­ros du­zen­tos me­tros eram re­tos, em de­clive manso que pro­gre­dia su­ces­si­va­mente daí em di­ante. Nesse tre­cho, cos­tu­má­va­mos exibir-nos para aque­les que ti­nham des­cido do ôni­bus e a pé se­guiam para a ci­dade. Fa­zia parte do ri­tual. Era como se qui­sés­se­mos nos apre­sen­tar a eles e cha­mar a aten­ção para uma even­tual tor­cida. Fazia-nos bem fan­ta­siar que al­guém dispunha-se a tor­cer para um ou ou­tro du­rante o tra­jeto. Ao atin­gir os pri­mei­ros du­zen­tos me­tros, as bi­ci­cle­tas co­me­ça­vam a au­men­tar a ve­lo­ci­dade, até che­gar a meio quilô­me­tro. A essa al­tura, já ti­nham fi­cado para trás duas cur­vas aber­tas e fá­ceis de ma­no­brar.

Dos qui­nhen­tos me­tros até quase o pri­meiro quilô­me­tro, o ter­reno exi­gia muito dos ci­clis­tas, pois sua pla­ní­cie não pos­si­bi­li­tava man­ter a ve­lo­ci­dade ob­tida no forte de­clive an­te­rior. Era pre­ciso pe­da­lar muito para não per­der po­si­ções até o iní­cio do se­gundo e úl­timo quilô­me­tro. Di­fi­cil­mente al­guém que li­de­rasse a prova nessa al­tura con­se­guia perdê-la. Tudo co­me­çava com um arco à di­reita. A sen­sa­ção ali não pode ser des­crita para quem nunca cum­priu o per­curso numa bi­ci­cleta. A des­cida tornava-se ín­greme à me­dida que você con­tor­nava o arco. Na pri­meira vez, o mais cor­reto se­ria con­fes­sar de­ses­pero, mas quem vi­via esse de­ses­pero nunca dei­xa­ria de pen­sar em vivê-lo no­va­mente. Cum­prido o arco, o acesso se­guia à es­querda em ex­tensa curva leve, mas sem­pre em de­clive, até quase a qui­nhen­tos me­tros do fi­nal. E aí reuniam-se to­dos os pe­ri­gos.

A la­deira pa­re­cia afundar-se num pre­ci­pí­cio. Os no­va­tos, não pou­cas ve­zes, fre­a­vam de­ses­pe­ra­da­mente suas má­qui­nas e dei­xa­vam de cum­prir es­ses úl­ti­mos me­tros do per­curso. A im­pres­são co­mum era que você iria de ca­beça e a bi­ci­cleta sal­ta­ria so­bre suas cos­tas, atin­gindo so­li­tá­ria o grande fi­nal. Por es­ses ris­cos é que dis­pu­tá­va­mos ape­nas uma ou duas cor­ri­das por mês. Se o fi­zés­se­mos de ma­neira mais re­gu­lar, tal­vez nos­sos pais des­co­bris­sem os cam­pe­o­na­tos e até mesmo ven­des­sem nos­sas bi­ci­cle­tas. Não que as de­nún­cias dei­xas­sem de che­gar a um ou ou­tro, mas com muito jeito des­men­tía­mos tudo e cui­da­do­sa­mente pro­vi­den­ciá­va­mos a sus­pen­são tem­po­rá­ria das com­pe­ti­ções até que o as­sunto es­fri­asse.

Mas deixe-me vol­tar ao apito do Pi­nó­quio e ao grande prê­mio da­quela tarde de ve­rão, em fe­ve­reiro de 1962. Saí­mos em sete. A lar­gada obe­de­cia à co­lo­ca­ção da prova an­te­rior. Como eu ha­via ven­cido a única cor­rida que pu­de­mos re­a­li­zar em ja­neiro, posicionei-me à frente. Por as­sim di­zer, ti­nha a pole ga­ran­tida. À mi­nha es­querda, na se­gunda po­si­ção, vi­nha o fi­lho do dou­tor Al­ce­bía­des, mé­dico de Mi­rante Norte, um bom su­jeito, mas um tanto exi­bido de­mais para nosso gosto. Em ter­ceiro, posicionava-se o Arthur, que pelo fato de nunca ter ven­cido uma prova ga­nhara a al­cu­nha de Pa­lerma. De­pois, vi­nham o Neco Onça, meu me­lhor amigo da­quela época, cujo ape­lido originava-se nas inú­me­ras pin­tas que de­se­nha­vam todo seu corpo; o Sete e Meio, im­ba­tí­vel nesse jogo de car­tas e que to­dos nós tí­nha­mos como per­feito la­drão, por­que era certo que rou­bava, mas nin­guém con­se­guia flagrá-lo; e os gê­meos Síl­vio e Sál­vio, de apa­rên­cias tão se­me­lhan­tes que seus ad­ver­sá­rios de gran­des prê­mios, incluindo-me, des­con­fi­a­vam de uma sé­ria tra­paça no ano an­te­rior, quando Síl­vio pre­ci­sava ven­cer a úl­tima prova para con­quis­tar o tí­tulo. Se isso não ocor­resse, a vi­tó­ria se­ria do Pa­lerma, que sem­pre che­gava em se­gundo e por isso so­mava mui­tos pon­tos. As­sim, quando to­dos acha­vam que es­ta­ria que­brado o je­jum do Pa­lerma, pois Sál­vio ha­via cru­zado a li­nha fi­nal, bem di­ante do Fan­gio, eis que o ven­ce­dor se apre­senta como Síl­vio, para es­panto ge­ral. Mas como des­men­tir? A par­tir desse epi­só­dio, Fan­gio de­ter­mi­nou que os gê­meos de­ve­riam apresentar-se sem­pre com rou­pas dis­tin­tas du­rante as pro­vas, o que aca­bou com qual­quer sus­peita fu­tura, mas para o aza­rado do Pa­lerma, o es­trago já es­tava feito.

Bem, o Pi­nó­quio api­tou e nós lar­ga­mos. Ao con­trá­rio do que vi­vía­mos fa­zendo, ou seja, des­per­di­çando tempo em acro­ba­cias e cum­pri­men­tos aos pas­san­tes, mi­nha es­tra­té­gia era en­fiar to­das as mi­nhas for­ças nos pri­mei­ros cem me­tros, abrir uma boa van­ta­gem, já que ha­via lar­gado na frente, e de­pois ape­nas ad­mi­nis­trar bem os me­an­dros do per­curso para al­can­çar a se­gunda vi­tó­ria da tem­po­rada. E as­sim o fiz. Quando ini­ci­a­mos o pri­meiro de­clive, per­cebi que os de­mais só agora co­me­ça­vam a per­ce­ber mi­nha boa di­an­teira. En­tão, con­forme a des­cida au­men­tava pro­gres­si­va­mente, pe­da­lei ainda mais forte, até não po­der mais. Mi­nha ve­lo­ci­dade foi es­tu­penda.

Ao con­cluir a se­gunda curva que le­vava aos pri­mei­ros qui­nhen­tos me­tros, olhei para trás e não vi qual­quer ou­tro com­pe­ti­dor ao meu en­calço. Per­cebi tam­bém, de re­lance, que su­biam a la­deira a se­nhora Wan­der, como apre­ci­ava que a cha­mas­sem, por tratar-se do so­bre­nome de seu se­gundo ma­rido, e seu fi­lho Ho­mero, de cinco ou seis anos, cujo pai, o pri­meiro es­poso da se­nhora Wan­der, ha­via fa­le­cido há dois anos. Esse ga­roto, coi­tado, sem­pre fora es­qui­sito. Eles eram nos­sos vi­zi­nhos de rua e dizia-se que às ve­zes até mesmo a mãe, o pa­drasto e a irmã mais ve­lha assustavam-se com suas re­a­ções inu­si­ta­das. Ao pas­sar pe­los dois, que de­certo to­ma­riam o pró­ximo ôni­bus lá em cima, ouvi o Ho­mero di­zer al­gu­mas pa­la­vras, o que tam­bém era muito raro, e voltar-se com o rosto co­berto pe­las mãos para o lado da mãe. Em mi­nha con­cen­tra­ção na cor­rida, le­vei al­gum tempo para de­co­di­fi­car os sig­nos pro­nun­ci­a­dos na­quela men­sa­gem. E ao fazê-lo, não houve tempo para mais nada. A se­nhora Wan­der e o Ho­mero fi­ca­ram para trás e mi­nhas pe­da­la­das, como era ne­ces­sá­rio na­quele tre­cho, fi­ze­ram com que a cor­rente bra­dasse forte no eixo tra­seiro, mas meus pen­sa­men­tos vi­a­ja­ram para o sem­blante in­qui­eto do ga­roto e tam­bém para suas pou­cas pa­la­vras di­tas à mar­gem da es­trada. Era tão raro ouvi-lo fa­lar… Nisso, detive-me à sua frase, com­pre­endi, mesmo com re­tardo, o que ele ha­via dito, e nada mais era do que isto:

– Po­bre­zi­nho, ma­mãe. Que tombo feio!

Ao sabê-lo, uma re­a­ção es­tra­nha e au­to­má­tica incumbiu-me de ten­tar frear a bi­ci­cleta. Aper­tei como pude a haste es­querda sob o gui­dão. An­tes de qual­quer efeito, con­tudo, o pneu di­an­teiro chocou-se con­tra uma pe­dra, es­tou­rou e atirou-me, em meio a hor­ren­das cam­ba­lho­tas, a cinco ou seis me­tros abaixo. Tudo es­cu­re­ceu à mi­nha volta e eu per­ma­neci em coma por uma se­mana. Foi a pri­meira vez que eu soube por que de vez em quando a fa­mí­lia de Ho­mero assustava-se com ele.

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