Contos

Menino deitado no pasto

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 Texto de

O pri­meiro bri­lho da noite jo­ven­zi­nha des­pon­tou lá pe­los la­dos das pai­nei­ras ainda ver­des man­cha­das dos fi­a­pos bran­cos do al­go­dão que es­capa. Está mesmo en­tre o tronco e uma ga­lhada longa que inibe a po­bre ama­re­li­nha ao pé da ár­vore grande. É lá. Sur­giu agora há pou­qui­nho, en­quanto es­ti­cá­va­mos so­bre a pas­ta­gem nos­sos sa­cos de es­topa. Eta, mas que noite ca­lo­renta esta aqui. O ru­mor do brejo lá em­baixo sobe como se pe­disse o fa­vor duma brisa, aque­las rãs to­das e seus sa­pos pre­gui­ço­sos chi­ando por conta de tan­tos gri­los afoi­tos. Valha-me Deus, Tio Franco, e es­ses be­sou­ros? Mais acima, den­tro da sala de porta en­tre­a­berta, a chama do pa­vio en­so­pado do lam­pião ser­pen­teia de leve, numa cal­ma­ria ex­trema. Ve­nha cá, Tia Rita. Mas ela não vem. A Tia Rita dei­tada na grama, quem pode com isso? Mas nem a ca­deira ela traz, como an­tes. Só me sento, me­nino, só me sento. Agora nem me dá res­posta.

Ou­tra es­trela já vem. Mete-se pis­cando en­tre as duas pai­nei­ras me­no­res, à di­reita da mais alta. Olha lá ou­tra, Tio Franco. E mais ou­tra. Cai a noite, so­bem as es­tre­las, bri­lha o céu. Nisso, alu­mia lá da es­trada um fa­cho lento e aver­me­lhado, sa­co­leja. É ca­va­leiro. No meio dos vaga-lumes aris­cos, o fi­apo de luz se­gue até a casa, de onde sai a Tia Rita num boa-noite-Seu-Tonho-que-quente. Lá vai o Tio Franco. Nunca gos­tei de tal pro­ce­di­mento: é pas­sar vi­valma no ca­mi­nho e pronto: já se aban­dona o posto. Desse modo, como se faz a con­ta­gem das es­tre­las que an­dam? De­pois, não re­clame se conto a mais. Os três juntam-se em roda, ainda na pas­sa­gem. Seu To­nho tes­te­mu­nha em alta voz que sim, está ca­lor, e que já mesmo as va­qui­nhas de leite ressentem-se da afli­ção que é ver de pouco em pouco a pas­ta­gem pe­dir água e não ha­ver, mas não de­mora a che­gar, que ainda on­tem cla­reou a ma­dru­gada com o céu ris­cado ao longe. 

A Tia Rita manda en­trar para o al­pen­dre, que se sen­tem um pouco e ela traz um café fres­qui­nho. Te­nho von­tade de di­zer que vá em­bora o Seu To­nho, pois o Tio Franco tem o que fa­zer esta noite. 

As três-marias e as três-mariazinhas nunca que po­dem an­dar, isso é certo. Só po­dem mover-se as que não têm nome e nem co­nhe­ci­das são. Des­sas a noite está cheia, mas é pre­ciso aten­ção, fir­mar a vista sem des­cuido ne­nhum, até que uma coi­si­nha mi­nús­cula se de­nun­cie en­tre tan­tas ou­tras e faça o ca­mi­nho até o mar, aca­bando num es­trondo que se pode ou­vir a qual­quer lon­jura. Olha lá, atrás da casa cla­reou num re­pente, mas só uma vez. Se o Seu To­nho es­ti­vesse cá fora, já vol­ta­ria à la­dai­nha da chuva que não se de­mora por causa des­ses re­lâm­pa­gos. De lá de den­tro, não dá pra se ver. En­tão, ele deita con­versa. O ca­çula, para o São João, dá-lhe um neto, é o quinto ou o sexto? O Seu To­nho faz mo­tejo dele mesmo e põe-se a con­tar nos de­dos pe­los no­mes, um tal de inho aqui e inho lá, até que acaba. Eles três es­tão qui­e­tos de­pois da con­ta­gem de tan­tos ne­tos do Seu To­nho. O Tio Franco e a Tia Rita fi­cam as­sim de ca­beça baixa. Alu­mi­a­dos pelo lam­pião, eles pa­re­cem tre­mer. Até que a Tia Rita levanta-se para pas­sar o café.

Sai Lobo, se o Tio Franco chega, você está frito. Fica aí na es­topa dele, fica! O Lobo faz dias que não me lambe. Pa­rece es­tra­nho esse ca­chorro quando me olha com as ore­lhas em­pi­na­das desse jeito sem, no en­tanto, agir. Pre­ciso avi­sar o Tio Franco disso e sa­ber o que ele acha, se nosso Lobo vai fi­cando louco, que dó! Num ins­tante, chega até a ga­nir, in­qui­eto. Às ve­zes dá medo. 

O cheiro do café atra­ves­sou as fo­lha­gens e veio dar bem aqui. A Tia Rita põe a ban­deja na me­si­nha e os três le­vam to­dos jun­tos as xí­ca­ras para chu­par a be­bida fer­vendo. O Seu To­nho solta a sau­dade da Fran­cisca que fa­zia um café as­sim, tanto muito forte como este. A Tia Rita emenda com amarga ad­mi­ra­ção que já faz dois anos. É sim, o tempo passa, não é mesmo? O ve­lhi­nho sus­pira, sus­pira. A ca­beça pende como agora há pouco curvaram-se os três. O tempo passa, ainda vai re­pe­tindo o Seu To­nho. E o Tio Franco não sabe se isso é ve­rí­dico por­que du­vida que seja desse modo: pa­rece que não passa nunca, isso que é! Eles to­dos já de­vol­ve­ram as xí­ca­ras e, por um ata­lho, o Seu To­nho acha jeito de di­zer que passa sim, vo­cês vão ver. A Tia Rita leva as mãos até as ma­çãs gor­das do rosto e ba­lança a ca­beça pra lá e pra cá. Não vejo a hora do Seu To­nho ir em­bora com umas con­ver­sas que só cha­teiam. Não gosto de ver a Tia Rita en­tris­te­cida, cho­rando como está. O que será agora? O Tio Franco po­dia le­van­tar de lá e espreguiçar-se da­quele modo que não há quem não en­tenda o en­jo­a­mento da la­dai­nha.

O me­nino faz falta até a nós que só va­mos de pas­sa­gem. O Seu To­nho fala as­sim de que me­nino? A Tia Rita chora mais. O Tio Franco lastima-se tam­bém: só nós é que sa­be­mos. Os três es­tão lá no al­pen­dre e uma brisa muito fraca que so­pra agora faz tre­me­lu­zir em re­dor do lam­pião cada uma de suas fi­gu­ras si­len­ci­o­sas. O Lobo me vi­gia de ore­lha em pé, como se visse um fan­tasma, o chi­ado do brejo ecoa dis­tante, as pai­nei­ras até que en­fim se me­xem com a che­gada do ven­to­zi­nho, en­quanto no céu cin­ti­lam to­das as es­tre­las que se jun­ta­ram esta noite pra di­zer que nada morre e que nada pode ser triste.

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