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Irrelevâncias essenciais

segunda-feira, 8 de setembro de 2008 Texto de

Num jor­nal do sul, li a crô­nica de Ar­naldo Ja­bor, “A morte tem vida pró­pria”. Sem­pre in­tenso e cri­a­tivo em suas idéias, o cro­nista fala da ine­vi­tá­vel che­gada da morte para to­dos e la­menta a par­tida de al­guns ami­gos numa só se­mana. E tenta imaginar-se morto, con­jec­tu­rando so­bre do que ele re­al­mente sen­tirá falta quando par­tir. Se­gundo ele, não será dos me­gashows nem dos gran­des amo­res, mas do que ele ge­ni­al­mente chama de “ir­re­le­vân­cias es­sen­ci­ais”. Cer­tos lu­ga­res, es­cri­to­res e mú­si­cos ines­que­cí­veis, os pa­pos de ci­né­fi­los no bar, a in­se­gu­rança com a pri­meira na­mo­rada, “per­nas cru­za­das de mu­lhe­res ina­tin­gí­veis” e os ter­re­nos bal­dios de sua in­fân­cia. A lista se­gue longa, plena da pers­pi­cá­cia de um ob­ser­va­dor sen­sí­vel como é Ja­bor.

Para quem ainda não a co­nhece, re­co­mendo a lei­tura in­te­gral da crô­nica. De mi­nha parte, não con­sigo pa­rar de pen­sar nessa ex­pres­são tão pa­ra­do­xal quanto ver­da­deira, que são as ir­re­le­vân­cias es­sen­ci­ais da vida. Que po­dem ser bem di­fe­ren­tes de uma pes­soa para ou­tra, jus­ta­mente o que as tor­nam mais en­can­ta­do­ras e sur­pre­en­den­tes.

Se, para uns, cer­tos pa­péis e jor­nais ama­re­la­dos não po­dem ja­mais ser jo­ga­dos fora pelo que car­re­gam de sig­ni­fi­ca­dos es­sen­ci­ais, pes­so­ais e in­trans­fe­rí­veis, para ou­tros são ape­nas um foco de po­eira e tra­ças. Se al­guém chora quando ouve “Re­trato em preto e branco” ou os ver­sos “Você é a sau­dade que eu gosto de ter,só as­sim sinto você bem perto de mim ou­tra vez”, ou­tros po­dem con­si­de­rar fres­cura, que cho­rar por amor está fora de moda. To­li­nhos… não en­ten­dem nada de dor de co­to­velo, da­que­las es­sen­ci­ais, que en­tor­tam o co­ra­ção e nos fa­zem ui­var pra lua em pleno meio-dia.

Em­bar­cando na vi­a­gem de Ja­bor, di­ria que quando eu par­tir vou sen­tir falta do cheiro de ma­re­sia no Rio, da água trans­pa­rente do mar do Ar­po­a­dor, das amen­do­ei­ras da rua da mi­nha in­fân­cia no Jar­dim Bo­tâ­nico, do cheiro dos ce­dri­nhos de Ara­ras, ines­que­cí­veis e es­sen­ci­ais por toda a mi­nha vida, en­tre tan­tas ou­tras que­rên­cias. Mi­nha ra­zão para gar­ga­lhar que nem boba, me emo­ci­o­nar com um gesto im­per­cep­tí­vel a ou­tros olhos, acor­dar fe­liz ou com o ânimo no pé pode não ser a mesma de ou­tras pes­soas. Mas quais­quer que se­jam as ra­zões, as mi­nhas e as alheias, pra cada um de nós elas são es­sen­ci­ais, em­bora para ou­tros olhos pa­re­çam ir­re­le­van­tes. O im­por­tante é que emo­ções eu vivi…

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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