Colaboradores

Onde estão

quarta-feira, 11 de junho de 2008 Texto de

Às ve­zes me dá von­tade de sair pela mi­nha ci­dade pro­cu­rando cer­tos en­can­tos es­pe­ci­ais que aos pou­cos fo­ram de­sa­pa­re­cendo da vida ur­bana, tra­ga­dos pela tec­no­lo­gia ou pela falta de de­sejo de que eles ainda exis­tam.

Me re­firo, por exem­plo, à “vaca lei­teira”, o ca­mi­nhão­zi­nho que ven­dia leite pe­las ruas nos meus tem­pos de cri­ança no Jar­dim Bo­tâ­nico, lá pe­los anos 50. Ele es­ta­ci­o­nava na nossa rua e se anun­ci­ava com uma bu­zina que imi­tava o mu­gido de vaca. De­pressa, gente, che­gou a vaca lei­teira! Quem qui­sesse leite, en­trava na fila com sua la­ti­nha de alu­mí­nio com tampa de la­cre ou a gar­rafa de vi­dro e es­pe­rava sua vez de re­ce­ber o leite es­pu­mante que saía da “teta” da vaca, na la­te­ral do ca­mi­nhão­zi­nho. Uma festa! Cadê a va­qui­nha mo­to­ri­zada? Será que pelo me­nos no in­te­rior ela ainda existe? No meu in­te­rior, den­tro do co­ra­ção, cer­ta­mente existe.

E o te­le­co­teco? Bom, não sei o nome ofi­cial da­quele pe­daço de ma­deira en­la­çada na mão do am­bu­lante e com uma alça de ferro do ou­tro lado, que ele ba­lan­çava, e o ba­ru­lho seco de “te­le­co­teco” anun­ci­ava os bis­coi­tos ci­lín­dri­cos de cas­qui­nha fina, mas era as­sim que nós, as cri­an­ças, o cha­má­va­mos. Os bis­coi­tos se des­man­cha­vam na boca, de tão ma­cia a tal cas­qui­nha, mais que os ca­ri­oquís­si­mos bis­coi­tos de pol­vi­lho das nos­sas praias. O ven­de­dor os car­re­gava nas cos­tas den­tro de um ci­lin­dro de alu­mí­nio cuja alça ele pas­sava pelo om­bro. Cor­ría­mos para com­prar, já an­te­go­zando aquela ma­ciez doce se des­man­chando na boca. Cadê você, te­le­co­teco?

E o re­a­lejo? Será que em al­gum re­canto desta ci­dade al­guma cri­ança ainda se ex­ta­sia com os acor­des do re­a­lejo, equi­li­brado num su­porte de ma­deira, como uma perna de pau? Lá no meu bairro eles vi­nham car­re­ga­dos por um am­bu­lante acom­pa­nhado de um ma­ca­qui­nho ou um pe­ri­quito. Quem pa­gasse ti­nha di­reito a um car­tão que o ma­ca­qui­nho re­ti­rava de uma ga­veta cheia de­les ou o pe­ri­quito apa­nhava um com seu bico. De­pois de ler a sorte, de­vol­vía­mos o car­tão para a ga­veta, já sa­bendo o que a sorte nos ti­nha re­ser­vado para aquele dia. Po­bres ma­ca­qui­nhos e pe­ri­qui­tos, fun­ci­o­ná­rios não as­sa­la­ri­a­dos, tra­ba­lhando para fa­zer jus às suas re­fei­ções. Tam­bém su­mi­ram da ci­dade. E com eles, o som ines­que­cí­vel do re­a­lejo.

Se um dia es­ses en­can­tos vão vol­tar, não sei, mas pro­va­vel­mente não. Nin­guém mais tem tempo de fa­zer fila ao lado da vaca lei­teira mo­to­ri­zada, de cha­mar o ho­mem do te­le­co­teco pra com­prar os efê­me­ros ci­lin­dros do­ces, e muito me­nos para pa­rar a cor­re­ria diá­ria e ou­vir a me­lan­có­lica me­lo­dia de um ve­lho re­a­lejo. Tão ve­lho como as mi­nhas lem­bran­ças, mas sem­pre re­no­va­das quando bate a sau­dade e me lem­bro de to­dos es­ses en­can­tos que a ci­dade grande aca­bou man­dando em­bora.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

Compartilhe