Sinto você cada vez mais dis­tante, in­di­fe­rente, apres­sada. Evita-me a
todo mo­mento. Não me chama mais de be­nhê, que­rido, fofo, meu gor­di­nho
e ou­tras for­mas ca­ri­nho­sas pe­las quais me tra­tava nos pri­mei­ros anos
de nosso ca­sa­mento. Fu­gi­dia a todo mo­mento, es­cor­rega de meus ca­ri­nhos
até mesmo na hora de a gente dor­mir.

Diz que se en­con­tra as­so­ber­bada de tra­ba­lho e chega can­sada em
casa. No en­tanto, seu ser­viço ainda é o mesmo de quando nos ca­sa­mos.
Nem ao me­nos foi pro­mo­vida. Não en­tendo por­que tanta de­di­ca­ção ao
es­cri­tó­rio como nos úl­ti­mos me­ses. Nunca vi você fa­zer tanta hora
ex­tra. Pelo me­nos uma vez por se­mana, en­tra em casa de­pois das 10 da
noite.

Ao vol­tar tarde do tra­ba­lho, ex­te­nu­ada pe­las ho­ras de lida, em vez de
su­ada, ainda está per­fu­mada. Esse ca­pri­cho de mu­lher, que em ou­tros
mo­men­tos me dei­xa­ria fe­liz, causa-me sur­presa, por que seu corpo exala
o aroma de um sa­bo­nete que não usa­mos em casa. E seu ca­belo mo­lhado
mesmo sem chuva? Tal­vez seja o suor de tanto tra­ba­lho.

Ou­tro fato que me in­triga é a mu­dança re­pen­tina de suas rou­pas. Cada
dia a vejo mais ele­gante, tra­jando no­vos ves­ti­dos e saias, em
subs­ti­tui­ção às an­ti­gas cal­ças e con­jun­ti­nhos. As rou­pas re­cen­tes
mol­dam me­lhor seu corpo es­guio e dei­xam à mos­tra suas per­nas li­sas e
tor­ne­a­das. Será que tudo isso é por mim?

Por es­sas e ou­tras, al­terno ins­tan­tes de ale­gria com ex­tre­mos de
me­lan­co­lia em re­la­ção a nós dois. Oh, Ca­pitu da mi­nha vida, penso que
suas mu­dan­ças de ati­tude são para me des­per­tar ou para me de­pre­ciar.

E quanto a mim? Será que mu­dei ne­ga­ti­va­mente a seus olhos e não
per­cebi? Acre­dito que con­ti­nuo o mesmo. Ou me­lhor, acho até que
aper­fei­çoei mi­nha mes­mice, meu co­ti­di­ano, mi­nhas ma­nias e a forma
bu­ro­crá­tica e di­dá­tica de pen­sar e agir. Tal­vez seja isso. Sou mais
pre­vi­sí­vel que pon­teiro de re­ló­gio. Você, ao con­trá­rio, sem­pre bus­cou
no­vi­da­des.

Con­fesso, cons­tran­gido, que você até sa­cri­fi­cou seus ím­pe­tos por mim.
E eu, egoísta, tal­vez, fa­zia de conta que não no­tava. Apre­ci­ava
in­cen­ti­vava e me apro­vei­tava de sua sub­mis­são.

O que mais dói agora, po­rém, não é exa­ta­mente uma dor. Sim, uma
co­ceira in­ces­sante na mi­nha testa e a ma­nia idi­ota de me abai­xar para
pas­sar pela porta.

E-mail: otanunes@gmail.com

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