O in­ven­tor do ci­nema novo, que usou me­tá­fo­ras para es­can­ca­rar as con­tra­di­ções so­ci­ais do Bra­sil mo­derno, nem se li­xava para as pró­prias con­tra­di­ções: ele se apro­xi­mou de Gei­sel e foi um ma­chista in­to­le­rá­vel, mas nunca dei­xou de de­fen­der as li­ber­dade in­di­vi­du­ais

A frase foi in­ven­tada para ele: “ame-o ou o odeie”. Glau­ber Ro­cha, o mais vis­ce­ral dos ci­ne­as­tas bra­si­lei­ros, nunca pro­vo­cou meias pai­xões. Era rai­voso, ner­voso, in­dó­cil. Ti­nha pressa para vi­ver e não pa­rava nunca. Tal­vez sou­besse que mor­re­ria an­tes dos 60 anos (no mês pas­sado, fez 26 anos que ele mor­reu) e, em­bora de­tes­tasse a idéia, sa­bia que um dia vi­ra­ria um mito.

Hoje, quem não co­nhece Glau­ber Ro­cha, sustenta-se so­bre a definição-chavão do ci­nema novo: “uma câ­mera nas mãos e uma idéia na ca­beça”. A frase, atri­buída a ele, é ne­ces­sa­ri­a­mente im­pac­tante para in­tro­du­zir os ini­ci­a­dos aos efer­ves­cen­tes anos 60, mas pe­ri­gosa o su­fi­ci­ente para li­mi­tar a pro­du­ção do ci­ne­asta à fi­lo­so­fês de bo­te­quim (não que fi­lo­so­fês de bo­te­quim não seja sá­bia – o que não se pode é abu­sar dela).

Seus três fil­mes mais im­por­tan­tes da­tam exa­ta­mente da­quela dé­cada: “Deus e Di­abo na Terra do Sol” (1964), “Terra em Transe” (1967) e “O Dra­gão da Mal­dade con­tra o Santo Guer­reiro” (1969). São fil­mes mar­ca­dos pela es­té­tica crua, pela pro­fu­são de idéias e pela sín­tese des­sas duas ex­pres­sões numa cara ale­go­ria.

Di­zem que o ci­nema novo re­pre­sen­tou para o Bra­sil o que neo-realismo re­pre­sen­tou para a Itá­lia e a nou­velle va­gue para a França. Em­bora co­lo­ni­a­lista, a com­pa­ra­ção é ine­vi­tá­vel. Se a Itá­lia viu-se em ruí­nas de­pois da 2ª Guerra Mun­dial e a França aban­do­nou seu ver­niz ama­re­lado para mo­lhar o rosto de Nar­ciso com água fresca, o Bra­sil in­ven­tou o ci­nema novo para aler­tar os bra­si­lei­ros so­bre o es­tado caó­tico da casa. Au­to­ri­ta­rismo, con­tra­di­ções so­ci­ais, sa­fári cul­tu­ral, de­si­gual­da­des cres­cen­tes – Glau­ber de­nun­ciou tudo, só que por meio de sím­bo­los e me­tá­fo­ras.

O que ele de­se­java era trans­for­mar dis­curso em arte. Ra­ci­o­ci­nou certo: nada me­lhor do que o ci­nema para con­ver­ter ima­gens e pa­la­vras numa men­sa­gem trans­pa­rente. O pro­blema é que nem sem­pre essa men­sa­gem era di­ge­rí­vel. Mas Glau­ber vi­rava às cos­tas: “No Bra­sil, o ci­nema novo é uma ques­tão de ver­dade e não de fo­to­gra­fismo. Para nós, a câ­mera é um olho so­bre o mundo, o tra­vel­ling é um ins­tru­mento de co­nhe­ci­mento, a mon­ta­gem não é de­ma­go­gia, mas a pon­tu­a­ção do nosso am­bi­ci­oso dis­curso so­bre a re­a­li­dade hu­mana e so­cial do Bra­sil”.

Se ha­via er­ros e in­fle­xões fora de hora, se fal­tava las­tro e sin­to­nia en­tre ato­res e ce­ná­rios e se so­bra­vam des­tem­pe­ros for­mais – ao di­abo! (na Terra do Sol). Mas se os crí­ti­cos qui­ses­sem en­xer­gar uma es­té­tica na­quela pro­fu­são de ele­men­tos em cena, me­lhor ainda. O im­por­tante era ex­pe­ri­men­tar e con­ce­ber uma lin­gua­gem cheia de sig­ni­fi­ca­dos para o Bra­sil novo que es­tava nas­cendo. “Nosso ci­nema é novo, por­que o ho­mem bra­si­leiro é novo e a pro­ble­má­tica do Bra­sil é nova”, ex­pli­cava Glau­ber.

Ele fa­zia ques­tão de di­fe­ren­ciar o ci­nema bra­si­leiro do ci­nema eu­ro­peu. E não só cha­mou Louis Malle de fas­cista em 1980 como tam­bém rei­te­rou, re­pe­ti­da­mente, que o ci­ne­asta mol­dado por ten­dên­cias tem dois des­ti­nos: a inu­ti­li­dade ou a sub­ser­vi­ên­cia à in­dús­tria do la­zer. A frase é dele: “não há van­ta­gens em fa­zer fil­mes de con­teúdo re­vo­lu­ci­o­ná­rio se você imita a nou­velle va­gue fran­cesa, o ex­pres­si­o­nismo ale­mão ou o co­mer­ci­a­lismo ame­ri­cano”.

Apoio aos mi­li­ta­res – Mas Glau­ber não era ape­nas um ci­ne­asta, as­sim como Oswald de An­drade tam­bém não era só um es­cri­tor. Como o mo­der­nista, Glau­ber trans­cen­dia sua obra. Não era ale­mão nem pi­gar­re­ava an­tes de fa­lar, mas ti­nha pos­tura de pen­sa­dor. E era con­tra­di­tó­rio. No go­verno Gei­sel, che­gou a en­dos­sar sua po­lí­tica numa en­tre­vista ra­di­cal à re­vista Vi­são. Tam­bém se en­con­trou com Fi­guei­redo na Eu­ropa. Mas o que acon­te­ceu? Ele vi­rou a ca­misa? Rendeu-se às co­men­das po­li­das dos mais for­tes?

Não. Acon­tece que Glau­ber ti­nha uma per­so­na­li­dade ab­so­lu­ta­mente in­do­má­vel. Não per­mi­tia con­ces­sões à li­ber­dade in­di­vi­dual – mesmo que pre­ci­sasse ma­cu­lar o au­to­con­ceito que ele mesmo fa­zia ques­tão de dis­se­mi­nar por aí: um in­te­lec­tual es­quer­dista, in­to­le­rante com o ser­vi­lismo e in­con­for­mado com o “es­tado das coi­sas”.

Aquela pode ter sido sua forma de ten­tar com­pre­en­der a di­nâ­mica da po­lí­tica bra­si­leira e situar-se na dé­cada de oi­tenta, que es­tava ape­nas co­me­çando. Mas e se al­guém o ques­ti­o­nasse ou o con­de­nasse? Ao di­abo! (na Terra do Sol).

Meio anjo, meio demô­nio, Glau­ber era, so­bre­tudo, um ser hu­mano – não um ícone que ges­ti­cu­lava, fa­zia amor, fu­mava e fil­mava ve­ló­rios. Ele mesmo re­co­nhe­cia suas es­tron­do­sas con­tra­di­ções. E, pra pi­o­rar, era um ma­chista in­tra­gá­vel. Disse uma vez: “são as mu­lhe­res que de­ve­riam fa­zer o ser­viço mi­li­tar. Não um ser­viço mi­li­tar de guerra, mas para apren­der as coi­sas bá­si­cas, como co­zi­nhar, es­cre­ver o pró­prio nome, apli­car in­je­ções, um mí­nimo de hi­gi­ene. Se­ria uma forma de lu­tar con­tra a pros­ti­tui­ção”.

Mas há tam­bém o Glau­ber fra­sista atrás do Glau­ber das ca­ver­nas: ele di­zia, por exem­plo, que “o Bra­sil é uma fa­zenda de 400 anos” (agora 500), que “a Es­pa­nha é a Bahia do Bra­sil”, e que “o ci­nema é, an­tes de tudo, uma in­dús­tria, in­clu­sive se é di­ri­gido con­tra a in­dús­tria”.

De­pois dos anos 60, ele mu­dou mui­tas ve­zes de idéia. Fez re­fle­xões além do seu tempo (“O fun­da­men­tal é lu­tar para li­ber­tar o mer­cado na­ci­o­nal”) e não se ca­lou quando des­mon­tou o mo­tor po­lí­tico que o con­du­zia até en­tão: “sou bra­si­leiro luso-tropicalista e os dog­mas do mar­xismo já saí­ram da mi­nha fei­jo­ada. Não é pos­sí­vel vi­ver sob o ca­pi­ta­lismo de Es­tado nem sob o ca­pi­ta­lismo sel­va­gem”. Glau­ber ten­tava uma ter­ceira via. Faz falta hoje, quando não existe nem uma se­gunda.

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