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A bananeira – Texto de Otávio Nunes

segunda-feira, 14 de abril de 2008 Texto de

“Ma­rim­bondo, vem fa­zer sua casa em mi­nhasa za-za-za. Sai azar
ma­rim­bondo. Vem fa­zer no teto o que é cor­reto. Eu já sou torto, solto
e louco e não posso te mo­rar. Ah, ah. Ou vá cur­tir a ba­na­neira, que
tem eira, eira, eira. E eu não te­nho eira, nem beira, não. Não te­nho
eira nem beira.”

(ver­sos da mú­sica Ma­rim­bondo, de Mar­lui Mi­randa e Xico Cha­ves, gra­vada
por Sá e Gua­ra­bira, num ma­ra­vi­lhoso ar­ranjo de cor­das, no cé­le­bre
disco Pi­rão de Peixe com Pi­menta, onde está a fa­mosa So­bra­di­nho)

Ca­pí­tulo I

Jo­nas se en­ca­mi­nhou ao fundo de sua chá­cara para a ins­pe­ção diá­ria de
sua horta. Re­pa­rou que os can­tei­ros de al­mei­rão e rú­cula já es­ta­vam
pron­tos para a co­lheita. Em­baixo das ár­vo­res, à mar­gem do rio,
vis­lum­brou as tai­o­bas, ver­di­nhas, tam­bém cres­cendo ra­pi­da­mente de­vido
às chu­vas da época.

A banca de Jo­nas, no mer­cado mu­ni­ci­pal, tornara-se uma das mais
pro­cu­ra­das pe­las do­nas de casa de Bei­ra­di­nha. Só ali en­con­tra­vam
ver­du­ras e plan­tas me­di­ci­nais e de chá pouco co­nhe­ci­das como tai­oba,
mos­tarda, fo­lhas de ora-pro-nóbis, dois ti­pos de erva-cidreira (ca­pim
e fo­lha), po­ejo, le­vante, hor­telã, sál­via, ale­crim…

Tudo em or­dem, como Deus manda e ele, Jo­nas, pe­dia. Sua horta era uma
das mai­o­res pai­xões de sua vida. Frente a ela, so­mente sua mu­lher
Po­lina, seus fi­lhos, a pe­quena Jo­lina e o jo­vem Del­ci­dino, que
es­tu­dava na Ca­pi­tal, e suas pes­ca­rias.

Jo­nas vol­tou para sua casa, pe­gou a vara de pes­car, se­pa­rou as is­cas e
o ape­tre­cho de pes­ca­dor e encaminhou-se à beira do Rio Dor­mi­nhoco,
como sóia acon­te­cer to­dos os do­min­gos. “Cui­dado com os man­dis. Da
úl­tima vez, o mal­dito en­fiou o fer­rão na sua mão”, pre­ve­niu Po­lina.

Bei­ra­di­nha tem este nome por ter sido fun­dada nas mar­gens (nas bei­ras,
como di­zem os au­tóc­to­nes) de um rio cha­mado Dor­mi­nhoco. E este úl­timo
é co­nhe­cido as­sim por­que suas águas se mo­vi­men­tam len­ta­mente em
di­re­ção ao mar e, mais uma vez a ex­pli­ca­ção na­tiva, quem o olha por
de­mais sente sono. O Dor­mi­nhoco tam­bém passa nos fun­dos da pro­pri­e­dade de Jo­nas e Po­lina, onde cres­cem tam­bém inha­mes, qui­a­bos, man­di­o­cas, ba­na­nei­ras.

Jo­nas pe­gou as is­cas e fi­cou pen­sando qual de­las usa­ria. Ti­nha tra­zido
co­ra­ção de ga­li­nha, pe­da­ços de fí­gado bo­vino e mi­nho­cas de bom
ta­ma­nho, que pro­li­fe­ra­vam no solo fér­til de sua pro­pri­e­dade. Op­tou
pe­los ane­lí­deos, co­nhe­ci­dos como isca uni­ver­sal até mesmo pe­los pei­xes
do Dor­mi­nhoco. O bi­cho ainda “es­per­ne­ava” no an­zol no mo­mento em que o
pes­ca­dor lan­çou a li­nha até ul­tra­pas­sar a me­tade do rio e pôs a vara
no su­porte para fi­car com as mãos li­vres.

Era dos úni­cos em Bei­ra­di­nha a pos­suir mo­li­nete im­por­tado, pre­sente de
seu fi­lho. O ra­paz com­prou a pre­ci­o­si­dade na ca­pi­tal. Na car­re­ti­lha
ti­nha umas pa­la­vras es­qui­si­tas que Jo­nas não con­se­guia en­ten­der. Mal e
mal sa­bia sua pró­pria lín­gua, o que di­zer das es­tran­gei­ras. Mas
ado­rava o pre­sente. A vara era de plás­tico in­que­brá­vel e a li­nha,
tam­bém im­por­tada, de 50 mi­lí­me­tros. O con­junto su­por­tava pei­xes de até
dez qui­los.

Para pas­sar o tempo, acen­deu um ci­garro de pa­lha e li­gou o ra­di­nho de
pi­lha. Mi­nu­tos de­pois fi­cou sa­bendo, pelo no­ti­ciá­rio, que a si­tu­a­ção
na ca­pi­tal e em ou­tras ci­da­des gran­des es­tava cada vez pior. A causa
dos re­bel­des a cada dia ga­nhava mais adep­tos e o go­verno cen­tral
pa­re­cia per­der o con­trole da si­tu­a­ção em al­gu­mas re­giões do país. Mas
Bei­ra­di­nha, dis­tante como so­nho, con­ti­nu­ava sua vida à beira do grande
rio. O pre­feito da ci­dade, ca­pi­tão Fla­né­lio, era go­ver­nista e disse ao
povo que iria de­fen­der a ci­dade até o úl­timo ho­mem.

Jo­nas lembrou-se do fi­lho. “Aquele mo­le­que está me­tido em al­guma
con­fu­são.” Pe­las car­tas re­ce­bi­das nos úl­ti­mos me­ses, e li­das por
Po­lina, que en­ten­dia mais das le­tras que ele, Del­ci­dino lu­tava ao lado
dos re­bel­des. Seu co­ra­ção de pai ba­tia ainda mais des­con­tro­lado, como
pan­deiro na mão de bê­bado, por não sa­ber de­ta­lhes do fi­lho. Es­tava
es­con­dido, preso, morto..? “Por que os es­tu­dan­tes que­rem mo­di­fi­car o
que existe? A mim bas­tam can­tei­ros de ver­du­ras, fa­mí­lia e beira de
rio.”

De re­pente, a vara de pes­car ba­lan­çou e en­ver­gou, for­mando uma le­tra
U. Jo­nas em­pu­nhou a vara e co­me­çou a pu­xar o peixe. Quando o bi­cho
sal­tou para fora da lâ­mina d’água, ele vis­lum­brou uma bela pi­a­para.
Era um de seus pre­fe­ri­dos. Peixe gos­toso, car­nudo, pouco es­pi­nho. Mas
só deu tempo de ad­mi­rar a presa, pois a pi­a­para soltou-se do an­zol e
vol­tou às pro­fun­de­zas do Dor­mi­nhoco. “Vou te pe­gar no­va­mente, sua
ban­dida”, gri­tou o pes­ca­dor.

Jo­nas, ao mesmo tempo ner­voso com a perda e pre­o­cu­pado com o fi­lho,
pe­gou a isca er­rada. Em vez de ou­tra mi­nhoca, muito apre­ci­ada pela
pi­a­para, co­lo­cou no an­zol o co­ra­ção de ga­li­nha. Ar­re­mes­sou a li­nha e
de­po­si­tou a vara no su­porte.

Ca­pí­tulo II

Fa­zia quase um mês que não ti­nha no­tí­cias de Del­ci­dino. Nem te­le­fo­nar
po­dia, por des­co­nhe­cer o pa­ra­deiro do fe­de­lho. Além disso, Bei­ra­di­nha
ti­nha ape­nas dois apa­re­lhos, um pú­blico em frente à pre­fei­tura e ou­tro
na fa­zenda do ca­pi­tão Fla­né­lio. Rico e po­de­roso, o pre­feito era
pa­dri­nho de seu fi­lho e tam­bém maior pro­du­tor de ba­na­nas da pro­vín­cia,
quiçá do país. Um terço das ter­ras de Bei­ra­di­nha lhe per­ten­cia.

En­tre­tanto, o que ha­via en­tre com­pa­dre Fla­né­lio e Jo­nas não era
ami­zade, ape­nas um sen­ti­mento de in­di­fe­rença, para Jo­nas, e com­pai­xão,
do lado do ca­pi­tão. Quando ainda jo­vem e po­bre, dono de ape­nas uma
chá­cara, como Jo­nas, Fla­né­lio nu­trira pro­funda pai­xão por Po­lina.
Coi­sas da vida. Ela se en­can­tou com o bal­co­nista Jo­nas, que já
tra­ba­lhava no mer­cado, em banca de ou­tra pes­soa. Casaram-se e Fla­né­lio
fi­cou a ver na­vios. Po­lina achava aquele ho­mem de­sa­jei­tado, bruto e
man­dão. Pre­fe­riu o mo­desto e dis­traído Jo­nas, mesmo que este sem­pre
es­ti­vesse no mundo da lua e ti­nha só uma chá­cara, her­dada do pai, que
mal ca­biam um pé de chu­chu e um aba­ca­teiro.

Fla­né­lio enricou-se. Di­zem as más e boas lín­guas que pa­gou ja­gun­ços
para in­va­dir ter­ras. Em suas fa­zen­das, as ba­na­nei­ras cres­ciam for­mando
on­das ver­des. Era al­caide da ci­dade ha­via mais de dez anos. Sua
pa­la­vra e fi­gura eram tão res­pei­ta­das que fa­zia anos que não ha­via
mais opo­si­ção po­lí­tica a sua atu­a­ção.

O úl­timo ho­mem que ou­sou em­pa­re­dar o ca­pi­tão Fla­né­lio pa­gou caro. Foi
preso na praça no mo­mento em que dis­cur­sava im­pro­pé­rios con­tra o
po­de­roso. Numa ten­ta­tiva de se li­vrar do cas­tigo, o opo­nente disse que
não ti­nha se re­fe­rido ao pre­feito, mas a ou­tro, de uma ci­dade dis­tante
dali. O guarda o en­car­ce­rou com ar­gu­mento in­so­fis­má­vel. “Só pode ser o
nosso pre­feito, mesmo, por­que ele é o único que se en­caixa em tudo que
você fa­lou.”

O opo­si­tor fu­giu da ca­deia e foi en­con­trado morto três dias de­pois, às
mar­gens do rio Dor­mi­nhoco. Seu corpo já apre­sen­tava mor­di­das de
pi­ra­nha. Ha­via três ba­na­nas ver­des en­fi­a­das no ca­dá­ver, duas na boca e
a ter­ceira, em ou­tro lu­gar.

Ca­pí­tulo III

Po­lina nunca se quei­xou por Jo­nas não ter ga­nho mais di­nheiro. Não
eram po­bres, no en­tanto. A banca do ma­rido no mer­cado mu­ni­ci­pal ren­dia
bem. A chá­cara ti­nha mais que do­brado de ta­ma­nho nos úl­ti­mos anos, bem
como a pro­du­ção de ver­du­ras e plan­tas me­di­ci­nais. Ti­nha um fi­lho
es­tu­dando na ca­pi­tal, coisa que pou­cos em Bei­ra­di­nha po­de­riam so­nhar.
Po­lina era fe­liz. Não con­se­guia ima­gi­nar como se­ria a vida ao lado de
Fla­né­lio, sua em­pá­fia, suas ba­na­nas, seu po­der, suas aman­tes…

Quando a bar­riga de Po­lina deu Del­ci­dino ao mundo, Fla­né­lio se
ofe­re­ceu como pa­dri­nho. Foi uma fes­tança na chá­cara. O me­nino ga­nhou
vá­rios pre­sen­tes e a pro­messa de um fu­turo as­se­gu­rado. De­pois, nunca
mais Fla­né­lio pro­cu­rou o afi­lhado ou seus pais. Jo­nas e Po­lina, po­rém,
ja­mais fi­ze­ram ques­tão de lem­brar Fla­né­lio que um dia ele ba­ti­zara
Del­ci­dino na igreja da ma­triz, no cen­tro de Bei­ra­di­nha e mo­lhara o pé
da cri­ança com as águas do Dor­mi­nhoco, como era tra­di­ção na ci­dade.

Jo­nas, na beira do rio, be­beu um boa ta­la­gada de ba­na­ni­nha e lam­beu os
bei­ços. A be­bida era um tipo de aguar­dente, com acen­tu­ado aroma de
ba­nana, pro­du­zida, co­nhe­cida e con­su­mida ape­nas em Bei­ra­di­nha. O maior
alam­bi­que, ob­vi­a­mente, per­ten­cia a Fla­né­lio, que ti­nha com­prado ou­tras
pe­que­nas e an­ti­gas fá­bri­cas de ba­na­ni­nha, na ten­ta­tiva de ser o único
a pro­du­zir a pre­ci­o­si­dade.

Mas a tra­di­ção da be­bida era tão an­tiga e ar­rai­gada na po­pu­la­ção que
ainda pro­li­fe­ra­vam na ci­dade vá­rias fa­mí­lias que fa­bri­ca­vam a ca­chaça
de ba­nana ar­te­sa­nal­mente. Mui­tas ve­zes às es­con­di­das dos olhos do
pre­feito que ta­xava for­te­mente o pro­duto. Além do mo­no­pó­lio, Fla­né­lio
de­se­java le­var a be­bida para ou­tras ci­da­des. Mas en­con­trou re­sis­tên­cia
se­cu­lar da po­pu­la­ção em ven­der o pro­duto para além das fron­tei­ras de
Bei­ra­di­nha.

En­quanto pi­tava e ou­via mú­si­cas no ra­di­nho, Jo­nas foi no­va­mente
sur­pre­en­dido pelo en­ver­gar da vara. E desta vez a le­tra U era mais
fe­chada. Se­gu­rou a vara com as duas mãos para sen­tir a força do peixe.
“Deus meu, é dos graú­dos.” Co­me­çou a ro­dar a car­re­ti­lha mas de­sis­tiu
com medo de que­brar a li­nha. En­tão re­sol­veu ape­nas can­sar o bi­cho,
para de­pois puxá-lo su­a­ve­mente.

Fo­ram mais de dez mi­nu­tos de in­tensa ba­ta­lha. Na água, o peixe na­dava
pe­le­jando de um lado a ou­tro. Na mar­gem, Jo­nas acom­pa­nhava ri­so­nho o
bai­lar do bi­cho, sem con­se­guir vê-lo. Quando per­ce­beu a fa­diga do
peixe, co­me­çou a pu­xar a li­nha pelo mo­li­nete. Era um enorme pacu,
re­dondo como uma ban­deja. As­sim que ti­rou da água, fi­cou ad­mi­rando a
presa. “Bi­cho lindo, deve ter mais de cinco qui­los. E como lu­tou o
des­gra­mado. Não é à toa que é pa­rente da pi­ra­nha. Ti­nhoso, que só
vendo.”

Quando che­gou em casa, mos­trou o pacu para Po­lina. “Pre­firo pi­a­para.
Pacu tem es­cama pe­quena e dura e os os­sos são hor­rí­veis para cor­tar.
Mas é o mai­or­zi­nho que você pe­gou nos úl­ti­mos tem­pos. Vou as­sar em
duas ve­zes du­rante a se­mana. Uma banda de cada. Agora senta aí que a
Jo­lina vai ser­vir a co­mida”, disse a mu­lher. Co­me­ram frango frito,
fei­jão andu, man­di­oca, ba­nana verde co­zida com casca e doce de ba­nana
feito com fa­ri­nha de rosca ra­lada de pão duro. Jo­nas, ape­sar de ma­gro,
co­meu feito um frade fran­cis­cano na ceia de Na­tal.

Ca­pí­tulo IV

Du­rante a se­mana, em sua banca de ver­dura no mer­cado, ou­viu vá­rias
con­ver­sas so­bre as for­ças re­bel­des que con­ti­nu­a­vam a avan­çar so­bre
vá­rias ci­da­des e ame­a­ça­vam si­tiar a ca­pi­tal. Seu vi­zi­nho de mer­cado,
ven­de­dor de quei­jos, contou-lhe que fi­cara sa­bendo, por in­ter­mé­dio de
um pa­rente que tra­ba­lhava na pre­fei­tura, que o pre­feito e o de­le­gado
es­ta­vam fa­zendo uma lista de ho­mens da ci­dade para mon­tar um
des­ta­ca­mento de sol­da­dos que iriam de­fen­der Bei­ra­di­nha de uma even­tual
in­va­são.

“Ca­pi­tão Fla­né­lio, ob­ser­vou o co­mer­ci­ante, não sabe se po­derá con­tar
com uni­da­des le­ga­lis­tas, do exér­cito na­ci­o­nal. Bei­ra­di­nha está
en­tre­gue a sua pró­pria sorte. Logo, logo, a po­lí­cia vai con­vo­car to­dos
os ho­mens adul­tos para for­mar a força contra-revolucionária. Como sou
ve­lho e manco de uma perna, acho que es­tou fora. Mas meus fi­lhos, não
sei não. E você Jo­nas? Nem apa­renta a idade que tem. Será con­vo­cado,
com cer­teza”, aler­tou.

Jo­nas nar­rou esta con­versa e ou­tras com Po­lina, à noite, fato que a
dei­xou irada. Ela disse que por nada neste mundo seu ma­rido iria pe­gar
em ar­mas ao lado do pu­lha do Fla­né­lio, para de­fen­der um go­verno caindo
de po­dre. “Quem não for, vai preso. É o que ouvi hoje no mer­cado”,
ad­ver­tiu Jo­nas. “Vai nada. Eu es­condo você num bu­raco que nem o ca­peta
de lupa na mão vai te en­con­trar.” Ele per­gun­tou onde. “Não falo, por
en­quanto. Mas ama­nhã mesmo co­meço a ar­ru­mar o lu­gar”, pro­me­teu Po­lina.

Nos três dias se­guin­tes Jo­nas fi­cou so­zi­nho na banca, sem sua fi­lha e
aju­dante Jo­lina. A me­nina es­tava em casa para aju­dar a mãe a cons­truir
um lo­cal para es­con­der Jo­nas, se a po­lí­cia de Fla­né­lio vi­esse atrás
dele. À noite, es­con­dido de Po­lina, ele in­ter­ro­gava a fi­lha so­bre o
lo­cal. A ga­rota, po­rém, ti­nha o mesmo tem­pe­ra­mento per­ti­naz da mãe.
Ne­gava, ba­tia o pé, mas não re­ve­lava na­dica de nada.

“O que será que es­tas duas es­tão apron­tando pra cima de mim?”, pen­sou
Jo­nas. Pela ma­nhã, pouco an­tes de co­lher as ver­du­ras e colocá-las na
car­roça, para ven­der, ele vas­cu­lhou me­ti­cu­lo­sa­mente sua chá­cara à
pro­cura de uma pista so­bre o es­con­de­rijo. O único lo­cal para se
es­con­der se­ria à beira do rio, onde ainda exis­tiam vá­rias ár­vo­res
na­ti­vas, da mata ci­liar. Ele olhou, an­dou, chei­rou, es­cor­re­gou, caiu,
blas­fe­mou, le­van­tou a po­eira da roupa e nada. De um lado, a mata às
mar­gens do Dor­mi­nhoco, de ou­tro, as ba­na­nei­ras, pé de man­di­oca, de
qui­abo, de chu­chu, a par­reira de uva e as ou­tras fru­tí­fe­ras.

An­tes de dor­mir, criou co­ra­gem e per­gun­tou a Po­lina. “Será que você
quer me es­con­der fora da nossa chá­cara. No meio da mata?” Ela
res­pon­deu com o si­lên­cio e um olhar pe­ne­trante de de­sa­pro­va­ção.
Se­gun­dos de­pois, emen­dou. “Não se pre­o­cupe. Durma bem, que ama­nhã o
dia será agi­tado no mer­cado. “Es­cu­tei no rá­dio que os re­bel­des es­tão
vindo para este lado do País. Ci­da­des mai­o­res que Bei­ra­di­nha es­tão se
en­tre­gando, com pouca re­sis­tên­cia. Fla­né­lio vai apa­nhar feito ca­chorro
vira-lata.”

Jo­nas apro­vei­tou para as­sun­tar so­bre o fi­lho. Po­lina disse que a
úl­tima carta de Del­ci­dino era aquela mesma, de dois me­ses atrás. Desde
en­tão, ex­pli­cou ela, o cor­reio não vol­tou fun­ci­o­nar nor­mal­mente e ele
não iria li­gar para a casa do Fla­né­lio, onde há te­le­fone. “Mas te­nho
cer­teza que está bem, diz meu ins­tinto de mãe. Só não sei onde.”

Po­lina ti­nha ra­zão. O di­mi­nuto cen­tro de Bei­ra­di­nha, onde o Dor­mi­nho
faz uma curva de 90 graus, se en­con­trava al­vo­ro­çado. Os dez po­li­ci­ais
da ci­dade es­ta­vam de pron­ti­dão nos prin­ci­pais pon­tos. Um de­les no
mer­cado. Ca­pi­tão Fla­né­lio an­dava pe­las ruas na ten­ta­tiva de es­cla­re­cer
as pes­soas e evi­tar fur­dun­ços. “Tudo sob con­trole mi­nha gente. Os
ban­di­dos es­tão sendo ven­ci­dos pelo exér­cito na­ci­o­nal. Não te­nham medo.
Eu ga­ranto.”

Ele en­trou no mer­cado e to­mou um copo de ba­na­ni­nha, no bo­teco em
frente à banca de Jo­nas. An­tes de sair, pu­xou um de­di­nho de prosa com
Jo­nas. “Como vai com­pa­dre? E a Po­lina e a me­nina? Tudo bem?” Meio
con­tra­feito, mas que­rendo ser edu­cado, Jo­nas res­pon­deu. “Tudo bem em
casa, ca­pi­tão.” Fla­né­lio Ali­sou a pança, como era de seu fei­tio,
quando con­ver­sava com al­guém, e per­gun­tou so­bre o afi­lhado.

Jo­nas res­pon­deu que a úl­tima carta era de dois me­ses atrás. E ele
es­tava bem. Desde en­tão o cor­reio co­me­çou a fa­lhar na en­trega de
cor­res­pon­dên­cias. “É ver­dade com­pa­dre. Os tem­pos são du­ros. Es­pero que
o me­nino não te­nha tido o de­sa­tino de se alis­tar ao lado dos
ban­di­dos.” Ao ou­vir isto, Jo­nas em­pa­li­de­ceu, te­me­roso.

“Se ne­ces­sá­rio – con­ti­nuou Fla­né­lio -, em breve co­meço a re­cru­tar
ho­mens de fi­bra nesta ci­dade para lu­tar con­tra os va­ga­bun­dos que
que­rem to­mar o po­der no País.” Ali­sou a pança no­va­mente e ob­ser­vou.
“Ore com força e fé, com­pa­dre Jo­nas, você e Po­lina, para que Del­ci­dino
não es­teja me­tido com os do ou­tro lado.” As úl­ti­mas pa­la­vras fo­ram
pro­nun­ci­a­das em tom de ad­ver­tên­cia. E saiu, dei­xando atrás de si
vá­rias pes­soas que olha­vam aquele vulto gordo sem sa­ber o que iria
acon­te­cer com a ci­dade.

Ca­pí­tulo V

Fla­né­lio ainda nu­tria es­pe­ran­ças de que o go­verno cen­tral en­vi­asse
al­guns des­ta­ca­men­tos do exér­cito para aju­dar a re­gião do Dor­mi­nhoco.
Nas mar­gens do rio, ha­via meia dú­zia de ci­da­des, dos mesmo ta­ma­nho e
im­por­tân­cia econô­mica de Bei­ra­di­nha. Ou seja, to­das pe­que­nas e po­bres.

Quinze dias de­pois de sua con­versa com Jo­nas, o ca­pi­tão cha­mou seus
se­cre­tá­rios de pre­fei­tura e os ca­pa­ta­zes de suas fa­zen­das e anun­ciou.
“Es­ta­mos so­zi­nhos. Só de­pen­de­mos de nós mes­mos. Dos ho­mens mais
va­len­tes que ti­ve­ram seus pés aben­ço­a­dos pelo Dor­mi­nhoco. Va­mos
co­me­çar o alis­ta­mento vo­lun­tá­rio em que to­dos te­rão de par­ti­ci­par.
Quem não acei­tar, será preso como de­ser­tor.”

De­pois da reu­nião, o pre­feito fi­cou so­zi­nho com o de­le­gado e fo­ram,
am­bos os dois, ve­ri­fi­car o ar­se­nal de que dis­pu­nham. Con­ta­ram pouco
mais de 50 ar­mas, en­tre ri­fles e re­vól­ve­res. Me­tra­lha­dora, ne­nhuma.
Mui­tas das ar­mas ou eram ve­lhas ou nunca ti­nha sido usa­das. A mu­ni­ção
tam­bém era pe­quena. A idéia era mon­tar uma sé­rie de bom­bas ca­sei­ras e
ex­plo­si­vos de gar­ra­fas, para com­ple­men­tar o pouco ar­ma­mento.

A reu­nião foi se­creta. Po­rém, o guarda que to­mava conta da porta ou­viu
e con­tou para seu vi­zi­nho. Como tudo que é ruim na vida, a no­tí­cia
espalhou-se ve­loz­mente pela ci­dade. Até as águas do grande rio
au­men­ta­ram a ve­lo­ci­dade do seu curso.

As­sim que Jo­nas che­gou em casa, Po­lina ordenou-lhe que to­masse um bom
ba­nho por­que dali para frente tal­vez de­mo­rasse a ter ou­tra chance.
Ator­do­ado, lavou-se e co­meu e fi­cou es­pe­rando o que a mu­lher iria
fa­zer. Ela pe­gou al­guns len­çóis, um balde ve­lho e um rolo de pa­pel
hi­gi­ê­nico e disse. “É tudo que você pre­cisa para se es­con­der. A co­mida
eu e a Jo­lina le­va­re­mos, uma vez por dia.” Jo­nas per­gun­tou. “Para que
o balde?” Sé­ria como es­tá­tua, Po­lina res­pon­deu. “É para aque­las
ne­ces­si­da­des.”

Os três ca­mi­nha­ram às es­cu­ras rumo aos fun­dos da chá­cara. Perto da
toi­ceira for­mada pe­las ba­na­nei­ras, Po­lina re­ti­rou as fo­lha se­cas e
mos­trou um enorme bu­raco a Jo­nas. “É aqui que você vai se es­con­der.
Tem um bu­ra­qui­nho para en­trar ar.” Es­tu­pe­fato, Jo­nas co­çou a ca­beça.
“Meu Deus. Vão me des­co­brir.” Po­lina ga­ran­tiu que não. As fo­lhas se­cas
das ba­na­nei­ras co­briam toda a boca do bu­raco. Nin­guém ve­ria nada. E
ainda ti­nha uma tá­bua de com­pen­sado para ta­par o bu­raco, por baixo das
fo­lhas se­cas. “A sua casa, a par­tir de hoje, é a ba­na­neira”, disse,
re­so­luta. Ele en­trou no bu­raco com a sua tra­lha e ela ta­pou
cui­da­do­sa­mente. Não se pre­o­cupe com a banca do mer­cado, eu a Jo­lina
to­ma­mos conta.

No dia se­guinte, pela ma­nhã, Po­lina foi le­var sua co­mida e uma mo­ringa
de água “É al­moço e janta jun­tos, pois nós duas va­mos fi­car fora o dia
todo, no mer­cado. Não coma tudo de uma vez. E não saia daí nem pra
sol­tar seus ga­ses fe­do­ren­tos. Ama­nhã eu lavo o balde das ne­ces­si­da­des.” So­no­lento e su­ado, Jo­nas per­gun­tou o que acon­te­ce­ria com ele se cho­vesse, pois o bu­raco en­tre as ba­na­nei­ras es­tava numa ri­ban­ceira. Po­lina lhe disse que ha­via feito uma ca­na­leta, por trás, para di­re­ci­o­nar a água ao rio, evi­tando que inun­dasse o bu­raco. “Um pouco sem­pre en­tra, não tem jeito”, jus­ti­fi­cou a mu­lher.

Ca­pí­tulo VI

Era mais de meio-dia, quando o de­le­gado en­trou no mer­cado e foi di­reto
à banca de Jo­nas. Per­gun­tada so­bre o ma­rido, Po­lina disse que não
sa­bia o que ti­nha acon­te­cido com ele, su­mido desde a noite pas­sada.
“Es­tra­nho, vá­rios ho­mens da ci­dade de­sa­pa­re­ce­ram por com­pleto, de
re­pente”, as­si­na­lou o po­li­cial. No en­tanto, as­se­gu­rou que con­ti­nu­a­ria
a bus­car “vo­lun­tá­rios” para a Força de Sal­va­ção Mu­ni­ci­pal, nome que o
pre­feito ti­nha dado ao grupo de com­ba­ten­tes con­tra a re­vo­lu­ção.

Po­lina fe­chou a banca uma hora an­tes do nor­mal, pre­o­cu­pada em che­gar
cedo em casa para ver como es­tava o ma­rido e pro­vi­den­ciar o jan­tar.
En­con­trou Jo­nas dor­mindo como pás­saro no ni­nho. Ela o cha­mou e disse
que po­dia sair um pouco do es­con­de­rijo para to­mar um ba­nho e co­mer à
mesa. “Mas de­pois, volta à ba­na­neira.”

Ele re­cla­mou de dor nas cos­tas e nas per­nas por ter de fi­car sen­tado
no chão. Se ten­tasse fi­car em pé no bu­raco, era obri­gado a se cur­var
para não ba­ter a ca­beça na tampa de ma­deira. “Você de­via pelo me­nos
me­dir mi­nha al­tura an­tes de abrir o bu­raco”, co­men­tou. “Na pressa, a
gente sem­pre es­quece al­guma coisa”, desculpou-se Po­lina. Ela con­tou
tam­bém que mui­tos ho­mens da ci­dade es­ta­vam es­con­di­dos, como ele. “Só
não sei se den­tro de um bu­raco con­for­tá­vel, como o seu”, brin­cou.

Logo de­pois do jan­tar, quando Jo­nas se en­con­trava dei­tado no chão da
va­randa, para es­ti­car o corpo que ti­nha fi­cado torto no bu­raco,
ba­te­ram palma no por­tão, de forma vi­o­lenta. Era Fla­né­lio e parte de
sua Força de Sal­va­ção. Ra­pi­da­mente, Po­lina or­de­nou que Jo­nas vol­tasse
à ba­na­neira e Jo­lina aju­dasse o pai a tam­par o bu­raco e dis­far­çar o
lo­cal com as fo­lhas se­cas. Os dois cor­re­ram para os fun­dos da chá­cara
e Po­lina foi aten­der aos vi­si­tan­tes.

Fla­né­lio ali­sou a bar­riga e per­gun­tou so­bre Jo­nas, ob­tendo de Po­lina a
mesma res­posta dada ao de­le­gado. “Você está es­con­dendo aquele co­varde, como ou­tras mu­lhe­res fi­ze­ram na ci­dade. Mas mui­tos e eu já en­con­trei”, disse Fla­né­lio, for­çando a por­teira da chá­cara. “Você não tem o
di­reito de en­trar na mi­nha casa”, gri­tou Po­lina. O pre­feito res­pon­deu
que ti­nha de­cre­tado es­tado de sí­tio na ci­dade e “em tempo de guerra a
lei sou eu”.

Fla­né­lio e três guar­das en­tra­ram na chá­cara e vas­cu­lha­ram tudo. De
longe a pe­quena Jo­lina tor­cia para que não en­tras­sem na moita de
ba­na­neira. De­vido à es­cu­ri­dão, os guar­das le­va­ram tom­bos, tro­pe­ça­ram
nos to­cos, ba­te­ram ca­beça em ga­lhos de ár­vore, en­fi­a­ram os pés em
bu­ra­cos. Um de­les, junto com Fla­né­lio, re­vis­tou a casa. No fim, nada
de en­con­trar Jo­nas.

Ner­vosa, Po­lina xin­gou Fla­né­lio de con­tra­bando de ba­nha, um de seus
ape­li­dos mais po­pu­la­res em Bei­ra­di­nha. “Res­peite mi­nha au­to­ri­dade se
não prendo você como es­piã e trai­dora.” Po­lina riu e quis sa­ber por
que es­piã? Fla­né­lio con­tou que es­tava des­con­fi­ado que Del­ci­dino se
cor­res­pon­dia com ela. “E isto é trai­ção. Sei que o mo­le­que está
en­ga­jado nesta ba­gunça desde o iní­cio, no ano pas­sado, e já tem até
pa­tente de ca­pi­tão, como eu”, con­fi­den­ciou Fla­né­lio.

“Se ele tem mesmo, é por me­re­ci­mento e não como você que foi ex­pulso
do exér­cito por co­mer e dor­mir de­mais e saiu sol­dado raso, mais raso
que um pi­res”, vo­ci­fe­rou Po­lina. Ele disse que não iria ba­ter boca com
ela, mas ame­a­çou. “Se eu pego este mo­le­que, acabo com ele e sua corja
de bar­bu­dos.” Po­lina lem­brou que ele não de­ve­ria fa­lar as­sim do ra­paz.
“Afi­lhado é como se­gundo fi­lho e no seu caso ainda mais im­por­tante,
pois não foi ho­mem ca­paz de fa­zer fi­lho em mu­lher ne­nhuma.” Fla­né­lio
quis avan­çar so­bre Po­lina mas os guar­das o se­gu­ra­ram e Jo­lina, forte
como ga­fa­nhoto, desferiu-lhe vá­rios pon­ta­pés.

Fla­né­lio foi em­bora no es­curo da noite, irado e bu­fando como touro.
Po­lina ha­via to­cado no as­sunto mais de­li­cado de sua vida. Ele nunca
ti­vera um fi­lho. Casou-se qua­tro ve­zes. Teve de­ze­nas de aman­tes. Mas
não fez ne­nhuma bar­riga cres­cer e lhe dar fru­tos. Sem­pre achou que o
pro­blema não era dele e sim das mu­lhe­res. Na ci­dade co­men­ta­vam que
Fla­né­lio ti­nha “aquilo seco e dali não sai nada”, e ja­mais po­de­ria ser
pai.

Mui­tas fa­mí­lias po­bres de Bei­ra­di­nha lhe ofe­re­ce­ram cri­an­ças para ele
criar como fi­lhos. Nunca acei­tou. Que­ria um re­bento com seu pró­prio
san­gue. Uma con­ti­nu­a­ção de sua es­tirpe. Por mo­men­tos em sua vida,
pen­sou em trans­fe­rir o amor de pai, que ainda nu­tria em seu co­ra­ção,
para Del­ci­dino. O or­gu­lho o im­pe­diu. Po­lina pre­fe­riu Jo­nas a ele. E
isto foi di­fí­cil acei­tar.

Ca­pí­tulo VII

Como o tempo é o me­lhor es­pa­ra­drapo que existe na far­má­cia da vida,
acei­tou a de­ci­são de Po­lina. Sa­bia que a ín­dole forte da­quela mu­lher,
fi­lha de pro­fes­sora e de la­vra­dor, se­ria um fardo por de­mais pe­sado
para seu tem­pe­ra­mento de ho­mem que sem­pre pri­mou pelo de­sejo de
or­de­nar e ser aten­dido. “Dois bi­cu­dos não con­se­guem se bei­jar”,
pen­sava Fla­né­lio, com seus bo­tões. Che­gou até a en­ten­der por­que duas
pes­soas com gê­nios tão dis­tin­tos, como Jo­nas e Po­lina, ti­nham dado
certo. “É por isso mesmo, pe­las di­fe­ren­ças.”

Atra­vés da ma­dru­gada, em seu es­con­de­rijo na ba­na­neira, Jo­nas pen­sava
na vida. De um lado seu fi­lho, do ou­tro Po­lina e no meio Fla­né­lio. Não
sa­bia se tor­cia para os re­bel­des che­gar logo e ti­rar ele do bu­raco,
para Po­lina acei­tar a si­tu­a­ção e deixá-lo en­trar na Força de Sal­va­ção,
ou para o mundo de Fla­né­lio se es­bo­roar como uma fa­tia de bolo de
fubá.

Por den­tro, Jo­nas sen­tia uma gota de pena do gordo ca­pi­tão. Como pode
em pouco tempo um ho­mem per­der tudo o que cons­truiu na exis­tên­cia.
Mas, tam­bém, Fla­né­lio cau­sou o mal na ci­dade, im­pondo sua von­tade e
po­der. Jo­nas não gos­tava de de­se­jar o mal a nin­guém, nem ao mais
sa­cri­panta de to­dos. Tro­ca­ria tudo o que es­tava acon­te­cendo por uma
hora na beira do rio, pes­cando pi­a­pa­ras, pa­cus, dou­ra­dos, traí­ras,
ba­gres e man­dis com seus fer­rões.

Por volta das três ho­ras da ma­nhã, tempo cal­cu­lado pela po­si­ção da
lua, já que não ti­nha re­ló­gio no bu­raco, Jo­nas sen­tiu os in­tes­ti­nos se
en­ro­lar. Olhou para o lado e no­tou que ha­via es­que­cido o balde das
ne­ces­si­da­des e o pa­pel hi­gi­ê­nico. Não pen­sou muito. Saiu do
es­con­de­rijo e se ali­viou na ca­na­leta, ta­pando a su­jeira com terra,
como fa­zem os ga­tos.

Para se lim­par, pe­gou um naco de fo­lha de ba­na­neira. Lisa como ela só,
teve de usar vá­rios pe­da­ços. De­vido ao se­reno da ma­dru­gada, acu­mu­lado
em pe­que­nas go­tas nas fo­lhas da ba­na­neira, Jo­nas emi­tia um gru­nhido de
frio ar­re­pio ao pas­sar a fo­lha nas ná­de­gas. En­trou no bu­raco e dor­miu
o sono dos jus­tos.

Três ma­dru­ga­das de­pois, mais ou me­nos na mesma hora, acor­dou ao ou­vir
ti­ros, vo­zes e gri­ta­rias de pes­soas, la­ti­dos de ca­chor­ros, mu­gi­dos de
vaca, re­lin­chos de ca­valo e piar de co­ru­jas. Se­gun­dos de­pois, al­guém
ti­rou a tampa do bu­raco com os pés. Jo­nas, con­traído pelo medo, olhou
de sos­laio para cima e viu o vulto de um ho­mem alto, ma­gro, tra­jando
rou­pas ras­ga­das e su­jas, bar­budo e com um fu­zil enorme nas mãos.

“Pode sair daí, meu pai. Aca­bou”, pe­diu Del­ci­dino, es­ten­dendo a mão.

Epí­logo

Após a vi­tó­ria da re­vo­lu­ção, Del­ci­dino fi­cou em Bei­ra­di­nha e to­mou
para si as ter­ras de Fla­né­lio, o qual de­sa­pa­re­ceu por com­pleto junto
com 15 ho­mens de sua Força de Sal­va­ção Mu­ni­ci­pal. Ca­pi­tão Del­ci­dino
tornou-se o pre­feito e hoje, doze anos de­pois, con­ti­nua no cargo. Quis
dar me­tade das fa­zen­das a seu pai. Po­lina não acei­tou. “Não quero o
que não é meu.” Jo­nas con­cor­dou ape­nas em ga­nhar uma nova car­roça para trans­por­tar suas ver­du­ras ao mer­cado.

Jo­nas, hoje, está ve­lho e can­sado. Tem força ape­nas para plan­tar e
co­lher sua plan­ta­ção, mas não con­se­gue ti­rar um peixe de cinco qui­los
da água. Jo­lina es­tuda na ca­pi­tal. Po­lina con­ti­nua forte e de­ci­dida
ape­sar dos anos. No en­tanto, rom­peu re­la­ções com o fi­lho, por não
con­cor­dar com seus mé­to­dos ad­mi­nis­tra­ti­vos à frente da pre­fei­tura. Há
mais de cinco anos não se fa­lam.

A vida em Bei­ra­di­nha está como sem­pre es­teve. Quem ti­nha, acu­mu­lou. Os
que não ti­nham, con­ti­nuam a vi­ver da es­pe­rança. O Rio Dor­mi­nhoco se
mo­vi­menta cada dia mais lento, como se sou­besse que ca­mi­nha rumo a um
fu­turo inal­can­çá­vel.

E-mail: otanunes@gmail.com

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