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Não dá tempo

sábado, 12 de abril de 2008 Texto de

Você abre um su­ple­mento li­te­rá­rio e lê re­se­nhas so­bre li­vros que es­tão sendo lan­ça­dos, obras re­e­di­ta­das, anún­cio de fei­ras li­te­rá­rias, e se per­gunta se uma vida in­teira é su­fi­ci­ente para ler­mos tudo o que que­re­mos. Aí você olha para a mesa de ca­be­ceira e vê em­pi­lha­dos os três li­vros que está lendo si­mul­ta­ne­a­mente e mais al­guns que quer re­ler e ou­tros que não pode dei­xar de ler an­tes de mor­rer. E agora? Onde en­caixo os au­to­res rus­sos que ainda não li? E os Gui­ma­rães Rosa ali, olhando para mim, me pro­me­tendo de­sa­fios ho­mé­ri­cos, Cla­ri­ces idem, Sa­ra­ma­gos adi­a­dos, os an­go­la­nos na lista, os clás­si­cos que comi mosca quando tro­quei por ou­tros? Ufa! Um amigo che­gou a fa­zer con­tas na ponta do lá­pis para cal­cu­lar quan­tas ho­ras por ano ele pre­ci­sa­ria para ler tudo o que de­seja e se apa­vo­rou com o re­sul­tado. De­sis­tiu de fa­zer as con­tas… e ele só tem 34 anos!

Em lo­jas de CD, o de­ses­pero é igual. En­tro para com­prar o pre­sente su­ge­rido pelo pre­sen­te­ado e não con­sigo sair sem an­tes fu­çar os com­par­ti­men­tos das mi­nhas que­rên­cias mu­si­cais. E lá es­tão em casa mais um Chico, mais uma Di­ana Krull, mais cho­ri­nho, Jorge Ben­jor quando ainda era Jorge Bem, a eterna Bil­lie Ho­li­day, Dave Bru­beck, Zeca Ba­leiro, Adri­ana Cal­ca­nhoto, mais Be­a­tles, a harmô­nica ma­ra­vi­lhosa de Mau­ri­cio Ei­nhorn, as can­ções de Henri Sal­va­dor. Al­gu­mas no­vi­da­des, ou­tros já fa­mi­li­a­res. Uma vez, num sá­bado pela ma­nhã, ou­vindo no rá­dio do carro uma en­tre­vista na Rá­dio MEC, fi­quei sa­bendo que os mú­si­cos en­tre­vis­ta­dos es­ta­vam lan­çando Be­a­tles em ritmo de choro. Re­sis­tir quem há-de? Des­viei meu ca­mi­nho só para con­se­guir um CD. E como ouço!

Nem vou fa­lar de fil­mes. Quan­tos a gente perde no ci­nema e se pro­mete ver em DVD? Às ve­zes dá tempo, você aluga três ou qua­tro de uma vez, mas pa­rece que a fila não anda. E curte uns mais que ou­tros, e quer re­ver. Quan­tas ve­zes, mesmo, já vi Ca­sa­blanca, o pri­meiro Po­de­roso Che­fão, Hair, al­guns ar­gen­ti­nos, al­guns bra­si­lei­ros e eu­ro­peus? Não im­porta. O im­por­tante é não es­que­cer de pe­gar na lo­ca­dora a re­serva da­quele an­tigo do Al­mo­dó­var.

Não tem jeito. Para ga­nhar tempo, a so­lu­ção é pa­rar de fa­lar so­bre isso e pôr mãos à obra. E olhos e ou­vi­dos. Con­ti­nuo a vi­a­gem pela Amazô­nia na his­tó­ria de Mil­ton Ha­toun en­quanto ouço Ray Char­les. Mas que du­pla in­só­lita! Pode ser, mas nem por isso deixa de ser um néc­tar para a alma. E deixo de lado os ví­deos que eu ju­rei que não pas­sa­vam do fim de se­mana.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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