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Com o devido respeito

quinta-feira, 13 de março de 2008 Texto de

Quando Mi­chael Jack­son gra­vou um clipe numa fa­vela do Rio, em 1996, tudo foi com­bi­nado an­te­ri­or­mente com os, di­ga­mos, do­nos do pe­daço, e a gra­va­ção trans­cor­reu em paz. Diz-se que o di­re­tor, Spike Lee, pe­diu au­to­ri­za­ção aos “ver­da­dei­ros do­nos do morro” para gra­var o clipe e não às au­to­ri­da­des po­li­ci­ais ou aos ad­mi­nis­tra­do­res da ci­dade.

A pas­sa­gem do Papa João Paulo II, em 1980, por um dos mor­ros ha­bi­ta­dos do Rio tam­bém foi de­vi­da­mente com­bi­nada com an­te­ce­dên­cia en­tre as au­to­ri­da­des ofi­ci­ais e as, di­ga­mos, extra-oficiais. E nada man­chou a vi­sita do Pon­tí­fice, que até dei­xou seu anel de ouro para a co­mu­ni­dade vi­si­tada.

Fil­ma­gens, vi­si­tas, re­por­ta­gens, pas­seios tu­rís­ti­cos, cur­sos, en­tre­vis­tas, co­ber­tura de ocor­rên­cias po­li­ci­ais nos mor­ros, en­fim, qual­quer acon­te­ci­mento fora da ro­tina das fa­ve­las deve ter, com o de­vido res­peito, o aval dos que de­têm a úl­tima pa­la­vra so­bre es­sas co­mu­ni­da­des es­pe­ci­ais. Se o as­sunto não in­te­res­sar às pes­soas cer­tas, nada feito, mer­mão. Vá can­tar nou­tra fre­gue­sia, be­leza?

Agora, com o de­vido res­peito, eu e qual­quer pes­soa que more no Rio ou que es­teja vi­si­tando a ci­dade tam­bém que­re­mos pas­sar pe­las Li­nhas Ver­me­lha e Ama­rela, ca­mi­nhar pela La­goa, pelo su­búr­bio, pela Ti­juca, pe­las cal­ça­das, freqüen­tar par­ques e pra­ças, atra­ves­sar os tú­neis que cru­zam a ci­dade, sem pre­ci­sar­mos usar carro blin­dado ou aga­char atrás dos pos­tes para fu­gir do ri­co­chete de ba­las cru­za­das. Ah, e tam­bém que­re­mos freqüen­tar qual­quer praia da orla, ir e vol­tar do tra­ba­lho, da es­cola, do te­a­tro ou do pa­gode a qual­quer hora do dia ou da noite, sem ser­mos atro­pe­la­dos por aque­les ti­pos que se acham no di­reito de in­ter­rom­per nos­sos pas­sos para levar-nos o sa­lá­rio, a bolsa e a vida só por­que têm acesso fá­cil às ar­mas. Não es­tou rei­vin­di­cando ne­nhum pri­vi­lé­gio, mas sos­sego no sim­ples co­ti­di­ano dos ci­da­dãos. Sim­ples mesmo, com to­das as le­tras.

Se não for pe­dir muito nem abu­sar, com o de­vido res­peito tam­bém torço para que to­dos es­ses, di­ga­mos, con­tra­tem­pos, não con­si­gam com­ple­tar a des­trui­ção já em curso da­quilo que o ca­ri­oca tem de me­lhor, que é a des­con­tra­ção e o bom hu­mor. Não sei exa­ta­mente a quem devo pe­dir isso, se ao go­ver­na­dor do Es­tado, ao pre­feito e se­cre­tá­rios disso e da­quilo ou às equi­pes va­ri­a­das e com no­mes pom­po­sos. Por­que na falta de atu­a­ção efe­tiva na se­gu­rança da ci­dade por parte dos elei­tos para essa ta­refa, acho que o re­cado vai mesmo é para os, di­ga­mos, ver­da­dei­ros do­nos da ci­dade.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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