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Hífens, acentos e vaidades

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008 Texto de

São oito os paí­ses lu­só­fo­nos. A mai­o­ria de­les ainda con­se­gue se co­mu­ni­car sem in­tér­pre­tes, mas na es­crita… ah, na es­crita… como di­ver­gem! Mesmo as­sim, al­guns au­to­res do país da lín­gua ori­gi­nal não per­mi­tem que sua obra te­nha vo­ca­bu­lá­rio e or­to­gra­fia adap­ta­dos quando é pu­bli­cada nos ou­tros sete paí­ses lu­só­fo­nos. De­fen­dem a idéia de que a lín­gua é a mesma e as even­tu­ais di­ver­gên­cias or­to­grá­fi­cas e se­mân­ti­cas são um re­flexo das di­fe­ren­ças cul­tu­rais, im­por­tan­tes no uni­verso li­te­rá­rio, e nin­guém vai mor­rer se ti­ver que con­sul­tar o di­ci­o­ná­rio meia dú­zia de ve­zes, ou mais, du­rante a lei­tura.

Já ou­tros au­to­res não se im­por­tam de se­rem adap­ta­dos aos lei­to­res dos ou­tros paí­ses ir­mãos. Para eles, o im­por­tante é que sua obra seja am­pla­mente com­pre­en­dida pe­los lei­to­res e, se para isso é pre­ciso acen­tuar ou não pa­la­vras de ma­neira di­versa da de seu país, que ve­nham ou saiam os acen­tos, pois. Di­zem que a vida de to­dos se­ria bem mais fá­cil se nas tran­sa­ções po­lí­ti­cas e co­mer­ci­ais – aí in­clui­dís­simo o mundo edi­to­rial – hou­vesse uma gra­fia única para o idi­oma co­mum a eles. Para re­for­çar seus ar­gu­men­tos, ale­gam que cri­an­ças de An­gola e de Mo­çam­bi­que, por exem­plo, não en­ten­dem a gra­fia dos li­vros do Bra­sil.

Fa­lado em três con­ti­nen­tes, em si­tu­a­ções di­fe­ren­tes sob vá­rios as­pec­tos, já se es­pe­rava que a uni­fi­ca­ção do por­tu­guês fosse, se­não im­pos­sí­vel, bas­tante di­fí­cil. Mas tudo pelo en­ten­di­mento! Para ten­tar uma so­lu­ção ao im­passe e des­fa­zer a idéia de que o idi­oma co­mum se trans­for­mou em pomo de dis­cór­dia, lá se fo­ram Por­tu­gal, Bra­sil, São Tomé e Prín­cipe, Cabo Verde, An­gola, Mo­çam­bi­que, Guiné-Bissau e Ti­mor Leste em busca do en­ten­di­mento lingüís­tico. En­tre ta­pas e bei­jos, le­va­ram dé­ca­das para che­gar a al­gu­mas mo­di­fi­ca­ções, vá­rios acor­dos fo­ram ce­le­bra­dos, mas passou-se quase uma eter­ni­dade até que os oito paí­ses as­si­nas­sem um acordo quase de­fi­ni­tivo e con­sen­sual.

Quando fi­nal­mente é ras­cu­nhado o quarto e mais re­cente acordo num pe­ríodo de quase 100 anos desde a pri­meira re­forma, em 1911, esta não ex­ten­siva ao Bra­sil, ele não sa­tis­faz nem a gre­gos nem a troi­a­nos, es­tes re­cla­mando que aque­les agem como se pro­pri­e­tá­rios da lín­gua fos­sem, que por sua vez res­pon­dem que os ou­tros é que es­tão re­cla­mando de bar­riga cheia. 

O ruído é tão alto, que não per­ce­bem que, a des­peito de mu­dan­ças nos si­nais ex­ter­nos da es­crita, fala-se o por­tu­guês do jeito que pe­dem o sol ou a falta dele, a chuva ou a seca, o tem­pe­ra­mento ale­gre ou me­lan­có­lico, tudo es­cul­pido pela ge­o­gra­fia e por fa­to­res pe­cu­li­a­res a cada país que ins­pi­ram seus cos­tu­mes e sua ma­neira de le­var e ver a vida. Não vêem que di­fe­rente não é er­rado, que o di­gam a man­di­oca, o ai­pim e a ma­ca­xeira. Brin­cam os miú­dos por lá e as cri­an­ças por aqui; os des­por­tos de lá emo­ci­o­nam tanto quanto os es­por­tes por aqui; en­quanto os de lá “es­tão a de­gus­tar” um ba­ca­lhau com um tinto alen­te­jano, por aqui “es­tão co­mendo” bo­li­nhos de ba­ca­lhau com chope ge­lado. E to­dos se di­ver­tem.

Agora que mais um acordo or­to­grá­fico en­tra em cena, se­ria bom ce­le­brar­mos as di­fe­ren­ças que não ma­tam nin­guém, ao con­trá­rio, só en­ri­que­cem, e apa­rar­mos ares­tas e vai­da­des que, es­tas sim, com­pli­cam a co­mu­ni­ca­ção en­tre paí­ses que um dia se con­si­de­ra­ram ir­mãos.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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