Contos

A máscara de Fany

sábado, 2 de fevereiro de 2008 Texto de

Às sete, quando a cla­ri­dade do dia já se dis­si­pava em meio aos so­bra­di­nhos gru­da­dos da rua es­treita, Ma­de­moi­selle Fany ergueu-se da cama, quase num bote, como al­guém pres­tes a per­der um ho­rá­rio im­por­tante. Foi à ja­nela e com os de­dos pe­que­nos alar­gou os vãos en­tre as lâ­mi­nas para olhar em­baixo. Ha­via ainda um si­lên­cio bem pró­prio da­que­les ins­tan­tes en­tre a tarde e a noite. Um ou ou­tro pe­des­tre, feito som­bra, cir­cu­lava pelo cal­ça­mento va­zio. Um alí­vio pas­sa­geiro a as­sal­tou an­tes que ela no­va­mente se abor­re­cesse com o atraso. Ti­rou os olhos do mo­vi­mento lá fora e entregou-se a um ba­nho não muito de­mo­rado. En­tão, den­tro de um robe de cham­bre, ocupou-se de seu apronto.

À frente do es­pe­lho ova­lado, Ma­de­moi­selle Fany com­pu­nha, com a pele branca, ca­be­los aloi­ra­dos, lá­bios bem de­se­nha­dos e sua face ro­busta, um tí­pico re­trato re­nas­cen­tista. Admirou-se por um mo­mento, he­si­tando so­bre o re­co­nhe­ci­mento à sua be­leza, como ge­ral­mente o fa­zem as mu­lhe­res para, en­fim, es­ta­rem cer­tas dela. De­pois, en­di­rei­tou os lar­gos qua­dris so­bre a ban­queta for­rada com ve­ludo es­car­late. Na me­si­nha gru­dada à pa­rede sob o es­pe­lho, enfileiravam-se, em per­feita ar­ru­ma­ção, ob­je­tos fe­mi­ni­nos de ma­qui­a­gem e per­fu­ma­ria. An­tes de to­car qual­quer um de­les, en­tre­tanto, ela abriu com ex­tremo zelo a ga­veta cen­tral.

Desde que che­gara, há dois anos, ne­nhuma de­sor­dem, por mí­nima que fosse, notara-se na­quele quarto. Duas cri­a­das, con­tra­ta­das ape­nas para man­ter as de­pen­dên­cias lim­pas e or­ga­ni­za­das, eram proi­bi­das de en­trar ali. Com a per­mis­são de Ma­dame So­fia, suas cha­ves so­mente ela car­re­gava. Mas esse ca­pri­cho justificava-se pelo ca­rá­ter de seu pro­pó­sito, es­can­ca­rado ape­nas in­ti­ma­mente e de certa forma àquela al­tura, quando suas mãos de­li­ca­das, ainda sem os anéis alu­ga­dos à casa, rou­ba­vam do fundo falso da ga­veta cen­tral uma arca em mi­ni­a­tura, na qual dor­miam no­tas de di­nheiro graúdo.

Ja­mais Ma­de­moi­selle Fany, nes­ses en­tre­meios a que mui­tas ve­zes são afei­tas as mu­lhe­res, ob­je­tara con­tra o in­tuito que sem­pre a mo­vera na­que­les úl­ti­mos anos. Reta e con­victa de sua re­ti­dão, ha­via tam­bém na­quele in­tento uma força maior, que sem­pre pode aju­dar a su­pe­rar even­tu­ais fra­que­zas e os­ci­la­ções de ca­rá­ter, o que de­ci­di­da­mente não era seu caso. Se sua de­li­be­ra­ção in­di­cava um norte de­ter­mi­nado a ponto de pla­ne­jar mi­nu­ci­o­sa­mente o que para mui­tos con­sis­ti­ria em ex­te­nu­ante sa­cri­fí­cio mo­ral, seu mais in­tenso sen­ti­mento an­dava a salvo das agru­ras que pu­des­sem assomar-lhe por­ven­tura.

Fei­tas e re­fei­tas as con­tas, uma onda de emo­ção, que ela tam­bém fa­zia ques­tão de con­ter, tei­mava em subir-lhe pe­las en­tra­nhas, fazendo-a contorcer-se so­bre a ban­queta e notar-se ru­bo­ri­zada atra­vés do es­pe­lho que a aguar­dava pa­ci­en­te­mente. O di­nheiro atin­gira o mon­tante pla­ne­jado há tanto tempo. Sem ter ainda ini­ci­ado sua pin­tura, permitiu-se, den­tro de seu ar cir­cuns­pecto, um efê­mero so­luço que acom­pa­nhou, co­e­rente, os olhos le­ve­mente ma­re­ja­dos. Nisso, bateram-lhe à porta, o que a fez re­tro­ce­der ainda mais em sua pre­pa­ra­ção.

Sem so­bres­sal­tos, e com a de­sen­vol­tura que lhe era pe­cu­liar, de­vol­veu o in­vó­lu­cro com o di­nheiro ao es­con­de­rijo, tran­cando a ga­veta em se­guida. En­quanto pe­diu que aguar­das­sem um ins­tante, cin­giu à cin­tura o robe de cham­bre, es­cor­re­gou as cos­tas das mãos pe­las pál­pe­bras, aprumou-se so­bre as chi­ne­las tão li­sas quanto o ce­tim, e foi aten­der. Era a pró­pria Ma­dame So­fia quem es­tava ali, plan­tada de­baixo de um dos lus­tres co­lo­ni­ais do cor­re­dor de ele­va­dos pés di­rei­tos, com um ar de de­bo­che sa­gaz in­crus­tado na face aplai­nada pela base e pelo pó quase ró­seo. Ma­de­moi­selle Fany admirou-lhe o re­ju­ve­nes­ci­mento. An­tes de dor­mir a tarde toda, tinha-a visto pe­los cor­re­do­res feito uma ve­lha, tal a face en­ru­gada e sar­denta. Mas agora, ali, nem se­ria pos­sí­vel lembrar-se de tal sem­blante.

– Oh! Perdoe-me, So­fia, por fazê-la es­pe­rar.

Sem ce­rimô­nia, Ma­dame pôs-se para den­tro. En­quanto a an­fi­triã fe­chava a porta atrás de si, gi­rava em torno do pró­prio corpo, como quem se sur­pre­en­dia com algo.

– Fa­zia tempo que eu não en­trava em seu quarto, que­rida!

Em se­guida, to­mando para si uma in­ti­mi­dade à qual a ou­tra mostrava-se pouco afeita, sentou-se na bei­rada da cama, fi­tando Ma­de­moi­selle com um sor­riso curto.

– Eu es­tava co­me­çando a me ar­ru­mar – disse-lhe Fany.

– Ah, agora sou eu quem me des­culpo por atrapalhá-la. É que já vim an­tes, mas parece-me que você des­can­sava.

– Não, não…de ma­neira al­guma, você não atra­pa­lha em nada. Eu só te­rei que ser mais rá­pida hoje.

Ma­de­moi­selle Fany disse aque­las pa­la­vras e logo arrependeu-se. Em­bora não ti­vesse a in­ten­ção, pareceram-lhe ter saído irô­ni­cas. Um pen­sa­mento ruim percorreu-lhe en­tão. Há dois anos, tra­tava So­fia de ma­neira a não se pre­ju­di­car ou aos seus pla­nos. E ali, logo em sua úl­tima noite, pa­re­cia es­tar co­me­tendo uma pe­quena in­de­li­ca­deza, que po­de­ria ainda trazer-lhe al­gum pro­blema. Para cor­ri­gir o que achava ter se tra­tado de uma in­con­ve­ni­ên­cia de sua parte, emen­dou logo um con­vite para uma be­bida, ao que a ou­tra acei­tou, apa­ren­te­mente sem no­tar sua pre­o­cu­pa­ção.

– Você se im­porta, So­fia, se en­quanto con­ver­sa­mos eu me adi­anto?

– Oh, não, não, que­rida! Faça, faça… Se­ria bom observá-la fi­car ainda mais linda!

Em­bora ainda pai­rasse em meio aos seus con­fu­sos pen­sa­men­tos o re­ceio de ter con­tra­ri­ado a ou­tra, Fany tam­bém pro­cu­rava esquivar-se de mai­o­res de­lon­gas. Dali a pouco, ar­re­ma­ta­ria o pro­pó­sito de dois lon­gos anos, e que­ria ga­ran­tir que tudo cor­resse den­tro da mais ab­so­luta nor­ma­li­dade, as­sim como ocor­rera até en­tão. A idéia de desvencilhar-se do Se­nhor Arthur, de seus maus chei­ros, de seus bra­ços ma­ci­len­tos, de seus olhos ba­ços e de seus lá­bios frios que im­preg­na­vam o há­lito azedo, essa idéia fe­liz recolhia-a a uma es­pé­cie de êx­tase que ela não po­dia di­vi­dir agora, es­pe­ci­al­mente com a Ma­dame, que, copo à mão, di­zia al­gu­mas fri­vo­li­da­des mal ou­vi­das por Fany. Mas, re­cu­pe­rando a con­cen­tra­ção, Ma­de­moi­selle foi to­mada por um novo de­sas­sos­sego. As ni­nha­rias di­tas em tom vago pela ou­tra pa­re­ciam re­ter cer­tas in­ten­ções – o que se es­pera dos di­tos ro­deios. Um frio sú­bito trespassou-lhe a boca do estô­mago. Ela pro­cu­rou livrar-se da in­qui­e­ta­ção:

– Você sabe, So­fia… você sabe de mi­nha vida. Não posso di­zer que sen­ti­rei sau­da­des. Eu se­ria hi­pó­crita com você, o que não pre­tendo. Mas sem­pre vou pen­sar em sua aco­lhida com gra­ti­dão.

– Ma­dame So­fia sor­veu o úl­timo gole e de­pois disso levantou-se, dei­xando o copo so­bre a mesa. Quando ela an­dou pelo quarto sem di­zer pa­la­vra, um aperto no peito fez Fany contrair-se, dis­far­çando ao ajei­tar o robe de cham­bre so­bre as per­nas. O si­lên­cio ab­so­luto de­mo­rou se­gun­dos, mas houve tempo su­fi­ci­ente para Fany pre­ver coi­sas ruins. As­sim mesmo, ten­tou afas­tar aque­les tor­men­tos. Bus­cou um dos cos­mé­ti­cos e co­me­çou a espalhá-lo su­a­ve­mente pelo rosto, ao passo que atra­vés do es­pe­lho as­sis­tia à apro­xi­ma­ção de Ma­dame So­fia, em cujo sem­blante acomodava-se um meio sor­riso.

– Bem, Fany, eu te­nho algo a dizer-lhe e é pre­ciso que seja agora…

Quando a en­con­trou, no iní­cio da tarde, Fany alu­diu ao úl­timo dia na casa, ao que Ma­dame nada co­men­tou, reservando-se ape­nas ao mesmo sor­riso ama­relo de canto de boca. Só agora Fany en­xer­gava es­tra­nheza na­quela re­a­ção in­di­fe­rente. A base es­tava já re­par­tida no rosto, pronta para re­ce­ber a fina ca­mada de pó de to­das as noi­tes, que ela co­me­çava a pro­vi­den­ciar. Virou-se:

– Há al­gum pro­blema, So­fia?

A per­gunta re­pre­sen­tava ape­nas uma úl­tima frá­gil de­fesa de Fany. Nem ela mesma po­de­ria ima­gi­nar ou­tra coisa. Nisso, ao recordar-se dos odo­res do Se­nhor Arthur, teve náu­seas. Bor­ri­fou nas mãos go­tas de um dos per­fu­mes. Não su­por­tava mais aquele sus­pense:

– Se há al­guma coisa, me diga, por fa­vor, So­fia…

Ma­dame tomou-lhe pe­las mãos, como uma mi­se­rá­vel das ruas, sua face en­cer­rava mo­tivo de co­mi­se­ra­ção:

– Que­rida, os ne­gó­cios se com­pli­ca­ram nos úl­ti­mos me­ses. Há com­pro­mis­sos que não pude cum­prir e que agora me jo­gam na cara.

A es­sas pa­la­vras, emendou-se uma com­prida la­mú­ria, ao longo da qual Fany enregelou-se, es­pe­rando pelo pior. Ao fi­nal, a ou­tra pediu-lhe um em­prés­timo. Sa­bia de suas pre­ten­sões, mas não lhe res­tava saída, a não ser re­cor­rer às ami­gas da casa. Ma­dame largou-lhe as mãos, que caí­ram so­bre as per­nas como duas pe­dras de gelo. Dois anos! O tempo pas­sara len­ta­mente para ela. O sa­cri­fí­cio que ela pró­pria impusera-se configurava-se tão ár­duo! Virou-se para o es­pe­lho e viu-se como se, num átimo, de­cor­res­sem vá­rios anos. A ex­pres­são de sua face fu­gia aos seus do­mí­nios. Sen­tia des­va­ne­cer aos pou­cos as for­ças que a man­ti­nham se­nhora de si desde o iní­cio. Con­ce­der qual­quer tipo de em­prés­timo àquela al­tura sig­ni­fi­cava abrir mão de tudo. O di­nheiro, es­con­dido na ga­veta cen­tral, garantia-lhe con­di­ções para vol­tar sem nada de­ver a quem quer que fosse. E ha­via seu pro­jeto. As pri­va­ções da­quele longo pe­ríodo va­le­riam a pena, en­tão. Mas não se fi­zesse um em­prés­timo que lhe rou­ba­ria pelo me­nos mais um ano.

A más­cara com a base e o pó es­tava quase com­pleta. Des­con­cer­tada, Fany en­ca­rou Ma­dame So­fia:

– Não posso… Não posso…Minha vida de­pende disso, So­fia, você sabe…

– Se não pu­der­mos re­cor­rer umas às ou­tras, a quem po­de­re­mos? – con­je­tu­rou a ou­tra em tom de de­sa­bafo.

Fany levantou-se, era pre­ciso for­ta­le­cer sua re­cusa, mas ao mesmo tempo não de­ve­ria passar-se por in­grata ou algo as­sim:

– Não há como con­se­guir esse di­nheiro? Tal­vez num banco, So­fia?

Ma­dame pa­re­ceu não a ter ou­vido. Seu rosto ex­pres­sava certa de­cep­ção, não com Fany ou com al­guma das ou­tras, mas com a pró­pria vida. Ma­de­moi­selle percebeu-lhe a re­sig­na­ção. Seus te­mo­res au­men­ta­ram. Sa­bia que aquela con­versa não po­de­ria mais aca­bar bem. As­sim, ou­viu:

– Eu pen­sei que pu­dés­se­mos con­tar umas com as ou­tras, mi­nha cara. Você sabe, quando se está aqui, quando se passa por aqui nunca mais as coi­sas po­dem ser iguais ao que eram an­tes.

Fany to­mou aque­las pa­la­vras como uma ame­aça, uma sé­ria ame­aça. Desesperou-se:

– Como as­sim? O que você diz, So­fia?

A ou­tra en­du­re­ceu a con­versa de­ci­di­da­mente:

– Você acha que pode sair limpa da­qui? Acha que um bom ba­nho pode apa­gar tudo? Ar­ru­mar suas coi­sas e ir em­bora? Nós não cos­tu­ma­mos nos aban­do­nar umas às ou­tras, mi­nha cara, isso nunca! Nin­guém pode sair ven­ce­dora se deixa para trás uma amiga per­de­dora, sabe? As pes­soas se re­vol­tam, fa­zem coi­sas hor­rí­veis. Por mais longe que você possa ir, sem­pre ha­verá uma dú­vida, com­pre­ende? Es­tes nos­sos no­mes, Ma­de­moi­selle, Ma­dame, es­tas coi­sas pas­sa­gei­ras fi­cam para sem­pre, esta é a ver­dade…

Abrup­ta­mente, Ma­de­moi­selle deixou-se des­mo­ro­nar so­bre a ban­queta es­car­late. Olhar au­sente, en­fiou a mão en­tre os seios e de lá ti­rou uma pe­quena chave. Sem mais se­gre­dos, abriu a ga­veta cen­tral. Dali a pouco, Ma­dame con­tava nas mãos uma ra­zoá­vel soma em di­nheiro, o su­fi­ci­ente para apla­car a fú­ria de suas ame­a­ças:

– Um ano mais, um ano me­nos, que­rida, o que há de ser? Vou lhe pa­gando aos pou­cos. Quem sabe, até an­tes disso?

As no­tas res­tan­tes fo­ram de­vol­vi­das à pe­quena caixa e esta co­lo­cada no­va­mente no fundo da ga­veta cen­tral. Fany aquietou-se. Seus mús­cu­los retesaram-se. Tal­vez os olhos dei­xa­ram de pis­car na­que­les ins­tan­tes, e a boca não sa­li­vou. De­pois, como um pe­dreiro à frente da cons­tru­ção, re­ma­tou a pin­tura, con­cluiu a más­cara. Já eram quase nove. Mais um pouco e o Se­nhor Arthur es­ta­ria sen­tado numa das pol­tro­nas da am­pla sala de con­ví­vio, no tér­reo. Fany, en­tão, ocul­ta­ria como sem­pre seu asco, li­qui­da­ria sua re­pulsa, me­te­ria na face o bri­lho de um sor­riso e ve­ria, do alto da es­cada, quando os olhos dele fla­me­jas­sem ao en­con­trar os dela, re­ve­lando uma fe­li­ci­dade in­des­cri­tí­vel. Nisso, con­forme des­cesse os de­graus e se apro­xi­masse dele, vi­ria à tona a frus­tra­ção de não mais se tra­tar de sua úl­tima imo­la­ção. Re­cai­ria so­bre sua alma o peso do de­sa­lento e a cer­teza de que dali em di­ante se re­do­bra­riam seus so­fri­men­tos. Mas nem as­sim Fany aban­do­na­ria sua idéia. Nem as­sim ela se des­vi­a­ria.

***

A ima­gem que ilus­tra o conto é o qua­dro “Vido no Bor­del”, do pin­tor pa­ra­na­ense Or­lando Mat­tos (1917-1982).

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