Pa­rado no acos­ta­mento Gil­berto es­pe­rava por um ôni­bus. Mais uma vez ele re­co­me­çava sua busca.

Como sem­pre faço che­guei na­quela ci­dade como mi­grante pro­cu­rando tra­ba­lho. Fi­quei um mês numa pen­são, co­nheci pes­soas, freqüen­tei ba­res, fui à missa e tra­ba­lhei de au­xi­liar de ti­pó­grafo. Era um tempo em que a sim­ples dis­po­si­ção para tra­ba­lhar va­lia muito mais do que a ex­pe­ri­ên­cia nas fun­ções.

Quando me senti aco­mo­dado fui en­viar a carta. Na­tu­ral­mente era um en­de­reço in­ven­tado, mas não ti­nham como sa­ber. O cor­reio fun­ci­o­nava mal e por­ca­mente no país, na mai­o­ria das ci­da­des não ha­via ma­pe­a­mento das ruas. Disse que o en­de­reço me fora en­tre­gue por um cli­ente novo que pas­sara com pressa pelo tra­ba­lho e pe­diu o fa­vor. Eram, di­zia o falso cli­ente, no­tí­cias de fa­mí­lia es­pe­ra­das com afli­ção.

Com ape­nas dois fun­ci­o­ná­rios dis­po­ní­veis na agên­cia, o an­tigo car­teiro pe­diu para eu dei­xar a carta ali para que ele um dia pro­cu­rasse o en­de­reço. Si­mu­lei a mesma ir­ri­ta­ção de sem­pre e exigi uma so­lu­ção rá­pida. Fui in­for­mado mais uma vez de que quase nin­guém que­ria ser car­teiro por causa do baixo sa­lá­rio e dos pou­cos re­cur­sos para tra­ba­lhar.

En­tão eu mesmo me ofe­reci para en­tre­gar a carta fan­tasma. Dois dias de­pois vol­tei para co­mu­ni­car meu falso êxito na en­trega e com em­pol­ga­ção de novo pedi uma vaga de car­teiro. Essa era mi­nha es­tra­té­gia bá­sica em to­das as ci­da­des pe­las quais pas­sei. Nunca dei­xei sus­pei­tas.

Da­quela vez me de­ram logo de iní­cio uma sa­cola verde de pano com car­tas para se­rem en­tre­gues e um mapa pe­queno da ci­dade. Três pá­gi­nas, mal de­se­nhado e com inú­me­ras ruas fal­tando. Meus dois co­le­gas nem saí­ram para tra­ba­lhar, como no­vato eu que me vi­rasse so­zi­nho. Era exa­ta­mente com o que con­tava. Meu plano só da­ria certo caso não me amo­las­sem. Pude le­var sos­se­gado to­das as car­tas para meu quarto na pen­são. Ape­nas ti­nha a obri­ga­ção de re­tor­nar no fi­nal do dia com a sa­cola. Po­rém, não ha­via o mí­nimo con­trole de quan­tas cor­res­pon­dên­cias car­re­gava ou de­via en­tre­gar.

Sem­pre vi­olo as car­tas que me pa­re­cem mais pes­so­ais. En­ve­lo­pes com ca­li­gra­fias bo­ni­tas ou feias são os que me in­te­res­sam, de­mons­tram o ca­pri­cho ou o des­prezo das pes­soas. As car­tas for­mais, da­ti­lo­gra­fa­das ou com le­tras que imi­tam as má­qui­nas são co­muns, as­sun­tos de ne­gó­cios. De­pois da mi­nha se­le­ção só uso o va­por da cha­leira. É um pro­cesso que aprendi a tor­nar rá­pido. Abro qual­quer carta em me­nos de um mi­nuto. Já a lei­tura pode le­var vá­rias ho­ras.

Ad­mito que a mi­nha mo­ti­va­ção ini­cial fi­cou um pouco me­nor, aprendi a ter pra­zer ape­nas em ler es­ses fo­lhe­tins pes­so­ais. Afi­nal mi­nha ob­ses­são beira o im­pos­sí­vel: pro­curo a mu­lher que amo, que des­gra­ça­da­mente perdi e fu­giu de mim sem dei­xar ras­tro, só des­co­bri que ela mu­dou de nome e su­miu do mapa, mas que de­pois de vá­rios anos pas­sou a en­viar car­tas para ami­gos e pa­ren­tes sem­pre mu­dando o re­me­tente.

Foi um custo des­co­brir isso. Vi­ve­mos jun­tos dois me­ses numa pai­xão in­tensa, mal sei quem são sua fa­mí­lia e co­nhe­ci­dos. E os pou­cos que co­nheço me odeiam. Fa­lam que eu sou louco e até ten­ta­ram me ma­tar. En­tão só me res­tou trans­for­mar essa busca na mi­nha vida. Acostumei-me a su­bor­nar pes­soas, pra­ti­car cri­mes, fa­zer ame­a­ças e mu­dar de iden­ti­dade cons­tan­te­mente para en­con­trar as pis­tas que um dia me le­vem de novo até a mi­nha Sô­nia. Ou seja lá o nome que ela tem agora.

As his­tó­rias das car­tas dei­xam as­sim os meus dias, me­ses e anos de fra­casso me­nos tris­tes. Des­co­bri ser agra­dá­vel ler as cor­res­pon­dên­cias alheias. Sinto-me como um se­mi­deus onis­ci­ente da vida dos ou­tros. Na­quela sa­cola verde meu con­solo veio nas car­tas de Má­rio Lo­pes Pe­droso ou, como des­co­bri de­pois, Ma­ria Car­mem Es­pi­nosa. Ca­sada, mãe de três fi­lhos, ela ti­nha um ro­mance se­creto com Ade­mar Sil­veira Fi­lho.

Tal­vez o mais in­te­res­sante fosse que o ca­sal de aman­tes era vi­zi­nho. Toda se­mana Ma­ria pe­dia para um mo­le­que le­var as car­tas de Má­rio até o cor­reio. Na certa eles se viam to­dos os dias mo­rando um do lado do ou­tro, mas de­viam man­ter as apa­rên­cias e só di­zer bom dia. 

Era ape­nas ela quem es­cre­via, es­tava apai­xo­nada e pa­re­cia es­tar dis­posta a tudo. Ade­mar não era ca­sado, era um sol­tei­rão. Pelo que en­tendi ele ti­nha re­lu­tân­cia em as­su­mir o caso com Ma­ria. Ela, ao con­trá­rio, pro­pu­nha aber­ta­mente que os dois fu­gis­sem.

Quando en­tre­gava as car­tas para Ade­mar nunca vi em­pol­ga­ção em seu rosto. Era um ho­mem ma­gro, alto, de ca­belo es­cor­rido e bi­go­di­nho. Des­co­bri que já era apo­sen­tado, mesmo tendo me­nos de 50 anos, por­que ti­nha uma de­fi­ci­ên­cia em uma das per­nas. Pas­sava os dias em casa sem ter o que fa­zer. Ou não. Ima­gi­nei que ele de­via ter en­con­tros es­con­di­dos com sua vi­zi­nha. Por ser dona-de-casa ela tam­bém fi­cava muito tempo den­tro do lar e, como o ma­rido tra­ba­lhava e os fi­lhos es­tu­da­vam, tam­bém per­ma­ne­cia so­zi­nha.

Po­rém uma de suas car­tas ne­gou tudo isso. Era ad­mi­rá­vel, os dois nunca nem ha­viam se bei­jado na vida. O amor só não era platô­nico por parte de Ma­ria por­que já ti­nha sido de­cla­rado. Ela não sen­tia mais nada pelo ma­rido, vi­viam dis­tan­tes. Lá de vez em quando, an­tes de dor­mir, ele abria as per­nas da mu­lher e in­tro­du­zia seu pê­nis. Ela es­cre­via que era do­lo­roso, pri­meiro por­que não gos­tava mais dele e de­pois por­que sua va­gina sem­pre es­tava seca. Mas pelo me­nos ele go­zava rá­pido e ia dor­mir.

Já por Ade­mar ela ti­nha algo de gra­ti­dão. Por ser aten­ci­oso e gen­til com ela, Ma­ria acre­di­tava que aquele ho­mem fosse o prín­cipe coxo que lhe tra­ria a fe­li­ci­dade amo­rosa. Como con­tra­ponto ao ma­rido ela es­cre­via que de­pois de mui­tos anos vol­tava a fi­car ex­ci­tada só de pen­sar em um ho­mem.

Mais de um mês lendo es­sas car­tas me dei­xou an­si­oso, es­pe­rava que Ma­ria e Ade­mar fi­zes­sem algo e as­su­mis­sem de vez seu amor. Po­rém ele per­ma­ne­cia im­pas­sí­vel, pelo cor­reio nunca en­vi­ara ne­nhuma carta a ela. Não con­se­guia en­ten­der o porquê, se ele era tão gen­til com Ma­ria, como ela mesma di­zia, e ela era mu­lher de meia idade bo­nita ainda, de­via ha­ver um mo­tivo forte para ele per­ma­ne­cer em si­lên­cio. Quem sabe fosse o medo de se en­vol­ver com uma mu­lher ca­sada ou ou­tro amor exis­tisse nessa his­tó­ria.

E mi­nha se­gunda su­po­si­ção se pro­vou ver­da­deira. De uma forma bem forte. Por acaso re­solvi abrir um dia a cor­res­pon­dên­cia en­de­re­çada ao ad­vo­gado Ser­gio Mon­teiro. O re­me­tente era um tal de Ro­meu Sil­ves­trini, ou na ver­dade Ade­mar Sil­veira Fi­lho. Os dois ti­nham uma re­la­ção ho­mos­se­xual há mais de dez anos, mesmo com Ser­gio sendo ca­sado e pai. Eles se en­con­tra­vam numa casa cha­mada de ama­rela, que nunca des­co­bri onde fi­cava. As men­sa­gens que tro­ca­vam eram no­tí­cias da vida de am­bos e quei­xas de sau­da­des por quase sem­pre es­ta­rem longe. Ade­mar es­cre­via ao seu amante so­bre a an­gús­tia que sen­tia com o as­sé­dio de Ma­ria. Ele la­men­tava seu so­fri­mento , de­se­java de ver­dade que ela fosse fe­liz mas não po­dia nunca con­tar o real por mo­tivo de sua in­di­fe­rença.

Senti-me ir­mão des­sas três vi­das me­lan­có­li­cas que car­re­gam um fio de es­pe­rança por um amor im­pos­sí­vel. Eu sei o que é es­pe­rar em vão, por isso an­tes de pro­cu­rar ou­tra ci­dade en­tre­guei car­tas de Ma­ria para seu ma­rido e as de Ade­mar e Ser­gio para o pas­quim lo­cal. No acos­ta­mento onde es­pe­rava o ôni­bus para par­tir uma pes­soa me disse que na ci­dade ocor­re­ram há pou­cas ho­ras dois as­sas­si­na­tos e um sui­cí­dio. Uma mu­lher e dois ho­mens. Sei que fiz o me­lhor por eles, a dor de nunca ter seu amor é muito pior.

E-mail: reichaves@hotmail.com

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