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Papai Noel de saco cheio - Texto de Otávio Nunes

terça-feira, 18 de dezembro de 2007 Texto de

Pre­za­do Pa­pai No­el Mai­or, che­fe de to­dos os pa­pais noéis do mun­do,
mo­ra­dor per­pé­tuo da dis­tan­te e gé­li­da Lapô­nia, des­cul­pe-me por ocu­par
par­te de seu tem­po, ca­da vez mais exí­guo, prin­ci­pal­men­te às por­tas do
Na­tal. Quem es­cre­ve à sua mag­nâ­ni­ma pes­soa é o seu su­bal­ter­no, o Pa­pai
No­el do Bra­sil. A in­ten­ção des­sa in­dig­na­da e mal­di­gi­ta­da mis­si­va é
pe­dir, com to­do res­pei­to, mi­nha apo­sen­ta­do­ria. Não por tem­po de
tra­ba­lho, que tal­vez nem te­nha al­can­ça­do, mas por­que já me de­si­lu­di de
mi­nha mis­são nes­se país. E pa­pai no­el des­cren­te não exer­ce di­rei­to sua
fun­ção. É mais ho­nes­to pa­rar de vez.

Acei­to, se pos­sí­vel for, uma trans­fe­rên­cia, mas pa­ra um lo­cal me­lhor.
Po­de­ria ser, por exem­plo, a um país pró­xi­mo de on­de o se­nhor mo­ra, um
des­ses da Es­can­di­ná­via, on­de te­rei mais tranqüi­li­da­de, des­fru­ta­rei dos
meus im­pos­tos e se­rei tra­ta­do co­mo gen­te, co­mo ci­da­dão. Se­rá pos­sí­vel,
até, es­ta­ci­o­nar meu tre­nó na rua com a cer­te­za de en­con­trá-lo
no­va­men­te quan­do vol­tar.

Da­rei mi­nhas ra­zões pa­ra me afas­tar de tão no­bre e al­truís­ta fun­ção,
pa­ra a qual o se­nhor me es­co­lheu e sem­pre cum­pri com es­me­ro, ape­sar
das con­tra­ri­e­da­des im­pos­tas por es­sa na­ção in­gra­ta a seus fi­lhos. Ou
se­rá o con­trá­rio? Não sei. Es­pe­ro que meus mo­ti­vos se­jam aca­ta­dos por
sua ex­tre­ma be­ne­vo­lên­cia e to­le­rân­cia.

De al­guns anos pa­ra cá, tra­tam-me co­mo im­be­cil. Che­guei ao pon­to de
achar que re­al­men­te sou um. Tu­do que acon­te­ce nes­se país der­ru­ba mi­nha
au­to-es­ti­ma, Na­tal após Na­tal. Ima­gi­ne o Se­nhor um pé de to­ma­te em que
al­guém subs­ti­tui o fru­to mais vi­ço­so por uma bo­la de bi­lhar. Pois é,
sin­to-me as­sim: der­ru­ba­do, ren­te ao chão, co­mo es­se to­ma­tei­ro.

Quan­do an­do pe­las ru­as das ci­da­des bra­si­lei­ras pre­sen­cio ce­nas
dan­tes­cas, co­mo hor­das de cri­an­ças que me pe­dem o que ja­mais po­de­rei
lhes dar. Tem ain­da os ge­ren­tes de shop­ping cen­ter que me con­vi­dam
pa­ra dis­tri­buir ba­li­nhas em fren­tes às lo­jas, pes­so­as que pe­dem pa­ra
eu sor­rir (oh, oh,oh!) só pa­ra ti­rar fo­tos ou rir de mim e, o pi­or de
tu­do, adul­tos que olham pa­ra mim e di­zem ao fi­lho: “Pa­pai No­el não
exis­te, mo­le­que. Sou eu quem com­pra seus pre­sen­tes, não es­te pa­na­ca aí
ves­ti­do de ver­me­lho”.

Vo­ar com meu tre­nó tam­bém fi­cou com­pli­ca­do por cau­sa do caó­ti­co
trá­fe­go aé­reo bra­si­lei­ro, sem con­tar os uru­bus, pré­di­os enor­mes,
er­gui­dos em lu­ga­res in­con­ve­ni­en­tes, po­lui­ção do ar. Tu­do is­so
atra­pa­lha a mim e às mi­nhas re­nas, que já es­tão neu­ró­ti­cas, sem
sen­ti­do de lo­ca­li­za­ção e as­má­ti­cas. Co­mo nes­se país não há cha­mi­nés
nas ca­sas, e as que têm não pre­ci­sam de meus pre­sen­tes, sou obri­ga­do a
en­con­trar ou­tras for­mas de en­trar nas re­si­dên­ci­as. Já que­brei te­lha,
fu­rei cai­xa-dá­gua, pi­sei em cocô de pom­bo e até fui con­fun­di­do com
la­drão.

Tam­bém já ocor­reu o con­trá­rio. Fui as­sal­ta­do di­ver­sas ve­zes. Foi
di­fí­cil pa­ra eu pro­var ao la­drão que não te­nho con­ta em ban­co. Ele
olhou pa­ra meus pre­sen­tes e pen­sou que eu era um prós­pe­ro co­mer­ci­an­te
de lo­ja de R$ 1,99. Meu Pa­pai No­el Mai­or, é mui­ta hu­mi­lha­ção. Mas o
la­rá­pio ti­nha ra­zão. Meus brin­que­dos são to­dos ma­de in Chi­na, mes­mo.
Po­rém, a mai­or de­gra­da­ção por que pas­so nas ru­as é a per­gun­ta ma­lé­vo­la
dos bra­si­lei­ros: “Seu sa­co é de brin­que­do?”

Até mes­mo a ca­pi­tal do país, que sem­pre achei uma ilha de ci­vi­li­za­ção
no mar da bar­bá­rie, já não é mais a mes­ma. Se pas­so pe­las qua­dras
pla­nas de Bra­sí­lia, prin­ci­pal­men­te per­to do Con­gres­so Na­ci­o­nal, sou
obri­ga­do a pro­te­ger mi­nha car­tei­ra. Cer­ta fei­ta fui até con­fun­di­do com
de­ter­mi­na­do se­na­dor e ti­ve de cor­rer pa­ra não ser lin­cha­do. Os
ma­ni­fes­tan­tes não acre­di­ta­ram na mi­nha ver­são. Acha­ram que mi­nha rou­pa
era dis­far­ce pa­ra an­dar na mul­ti­dão sem ser re­co­nhe­ci­do.

No Rio de Ja­nei­ro, on­de sem­pre gos­tei de cir­cun­dar o Cris­to Re­den­tor
com meu tre­nó, é qua­se im­pos­sí­vel pe­ram­bu­lar em paz. Há al­guns anos
mi­nha pre­o­cu­pa­ção era ver cri­an­ças per­di­das nas cal­ça­das de
Co­pa­ca­ba­na. Ho­je, quem não tem des­ti­no são as ba­las.

Bem meu in­dul­gen­te Pa­pai No­el Mai­or, Rei da Lapô­nia e pro­te­tor dos
de­sa­for­tu­na­dos des­se mun­do, tu­do que re­la­tei ao se­nhor é a mais pu­ra
ver­da­de, ex­traí­da das pro­fun­de­zas abis­sais de mi­nha al­ma. Per­dão pe­la
fra­se chu­la: ESTOU DE SACO CHEIO!!

E-mail: otanunes@gmail.com

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