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Ceia de Natal – Texto de Dudu Oliva

terça-feira, 18 de dezembro de 2007 Texto de

APARTAMENTO 101

Antô­nio só está de cu­eca sen­tado na pol­trona. Bebe cer­veja e as­siste a tv. O te­le­fone toca vá­rias ve­zes, não atende. Sem­pre fica triste nesta época, lem­bra das pes­soas que­ri­das que já se fo­ram. A cam­pai­nha toca, é Ma­ri­nalda:

– Vem pas­sar o Na­tal lá em casa, seu Antô­nio, tem tanta coisa… 

– Tudo bem, vou me apron­tar.

– Se de­mo­rar muito, volto aqui e te car­rego pe­las ore­lhas.

APARTAMENTO 202

Ma­ri­nalda mora com o fi­lho, que é muito frá­gil de saúde. Ela sem­pre in­venta fes­tas para ani­mar o me­nino. É só ela e ele. Ma­ri­nalda não fala de seu pas­sado : “Vivo o agora, isso me basta”. No dia do Na­tal faz uma ceia bem bo­nita, a casa já está toda en­fei­tada. Re­solve con­vi­dar os vi­zi­nhos de mais afi­ni­dade e que não ti­nham vi­a­jado. O seu fi­lho fica ani­mado, quer sa­ber o que vai ga­nhar do Pa­pai Noel. – Calma!! Você vai ado­rar, Luca. 

APARTAMENTO 303

Laura está na praia. Olha fi­xa­mente o mar. Sente-se um bloco de amar­gura e de­seja se dis­sol­ver na imen­si­dão do mar. Co­meça a an­dar. Es­barra num ho­mem, que só re­co­nhece se­gun­dos de­pois.

– Você é o meu vi­zi­nho?

– Sim, moro no 501. Sou o Pe­dro.

– Pois é, não te re­co­nheci de pri­meira, quase não te vejo. Moro no 303. 

– Sei. Eu tra­ba­lho muito…

– Pois é… nossa vida é agi­tada hoje em dia. 

– Laura, esse é o seu nome, né?

– Sim. Hoje vou pas­sar o Na­tal com a Ma­ri­nalda do 102. 

– Le­gal!

– E você? 

– Na mi­nha casa, so­zi­nho.

– Passa com a gente!!

– Não fui con­vi­dado.

– Não tem pro­blema.

Laura liga pelo ce­lu­lar para Ma­ri­nalda, que disse que se­ria ótimo recebê-lo. Pe­dro ra­pi­da­mente com­pra duas gar­ra­fas de vi­nho e um pote de sor­vete.

APARTAMENTO 501

Pe­dro não pára em casa e não pos­sui vín­culo com nin­guém. De­vido à pro­fis­são, ma­ta­dor de alu­guel, é tão dis­creto que se torna quase im­per­cep­tí­vel. “Vou me mu­dar ou­tra vez mesmo, não terá pro­blema al­gum de eu ir à ceia. Nunca mais ve­rei es­tas pes­soas, in­clu­sive Laura…”. 

NA CEIA DE NATAL

No iní­cio, to­dos es­tão tí­mi­dos, mas de­pois a con­versa fica ani­mada. Sor­riem es­pon­ta­ne­a­mente, fa­zem até brin­ca­dei­ras. Luca se emo­ci­ona com o pre­sente que a mãe lhe dá: um com­pu­ta­dor. – Esse Na­tal foi o me­lhor de to­dos!!

Os vi­zi­nhos pro­seiam até o dia cla­rear.

E-mail: dudu.oliva@uol.com.br

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