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óbito – Texto de Thiago Roque

sábado, 15 de dezembro de 2007 Texto de

fa­le­ceu hoje, em um dia sem sol, sem chuva, sem ca­lor, nem frio, o amor.
fi­lho da pu­reza (in me­mo­riam) com o pe­cado, não há uma hora pre­cisa nem causa es­pe­cí­fica para sua morte.
em seu en­terro, mi­lha­res de fiéis acumularam-se em fi­las para lhe dar o úl­timo adeus. esse per­so­na­gem acre­di­tava em um utó­pico mundo me­lhor – daí a le­gião fer­vo­rosa que se­guia seus prin­cí­pios e bra­dava aos sete ma­res as gló­rias que o amor po­de­ria pro­mo­ver na vida das pes­soas.
sua qua­li­dade mais des­ta­cada era a per­se­ve­rança. ape­sar das pro­vas cons­tan­tes que o ve­lho mundo dava de ser um lo­cal nada amis­toso para quem pen­sava como o amor, esse re­vo­lu­ci­o­ná­rio res­pi­rou até o úl­timo mi­nuto seu ideal.
po­lê­mico, o amor co­le­ci­o­nava sa­bo­res e dis­sa­bo­res por onde pas­sava. Com o tempo, fãs tornavam-se de­sa­fe­tos; se­gui­do­res pas­sa­vam a ser opo­si­to­res; sim­pa­ti­zan­tes aban­do­na­vam a causa. con­tudo, ar­ti­cu­lado e com grande po­der de con­ven­ci­mento, para cada sol­dado que per­dia, ga­nhava dois no­vos re­cru­tas.
não à toa, sem ele, gran­des lí­de­res, como o res­peito, e gran­des ini­mi­gos, como a in­di­fe­rença, fi­cam sem ho­ri­zonte.
al­guns acu­sam o amor de ini­ciar um ne­o­na­zismo no pla­neta: por meio de la­va­gem ce­re­bral, ele reu­nia vo­lun­tá­rios dis­pos­tos a dar a vida por uma uto­pia di­fun­dida por esse ide­a­lista – me­câ­nico de pro­fis­são. ou­tros, po­rém, con­si­de­ram o mo­vi­mento den­tro da cha­mada de­mo­cra­cia dos sen­ti­men­tos – já que ha­via tanto es­paço para a ig­no­rân­cia e para a in­to­le­rân­cia, por que o amor não po­de­ria rei­vin­di­car um lu­gar ao sol?
nessa gan­gorra de opi­niões dis­cre­pan­tes, os go­ver­nos dos con­ti­nen­tes ainda não de­ci­di­ram se pro­mo­ve­rão o amor a már­tir, re­belde, deus ou pro­cu­rado pelo fbi – reu­ni­dos há cinco ho­ras, eles não che­gam a um con­senso. o povo ga­nha as ruas, cada qual com sua opi­nião, e o exér­cito já foi cha­mado para ga­ran­tir or­dem às ma­ni­fes­ta­ções.
in­de­pen­den­te­mente de quais­quer de­ci­sões, é con­senso de que o amor é per­so­na­gem único na his­tó­ria até hoje. ape­sar de seu ví­cio em co­ra­ções pu­ros (uns di­zem que a causa da morte se­ria até por over­dose), ti­nha a força dos gran­des lí­de­res, o ca­risma dos mai­o­res ven­ce­do­res e o apoio das mas­sas.
tudo isso, po­rém, não foi su­fi­ci­ente para a vi­tó­ria plena. re­cen­te­mente, co­le­ci­o­nava mais e mais der­ro­tas em sua ca­mi­nhada, que mi­na­vam, a conta-gotas, seu bem-estar. não era se­gredo que sua saúde es­tava de­bi­li­tada há al­gum tempo, mas sua do­ença nunca foi re­ve­lada – nem mesmo por pai­xão e ten­ta­ção, ir­mãs mais no­vas e bra­ços di­reito e es­querdo do lí­der.
foi en­con­trado morto no jar­dim de sua casa, dei­tado na relva, como se es­ti­vesse a des­can­sar. tal­vez fosse a hora mesmo.
se vai dei­xar sau­dade, nem mesmo o tempo, seu me­lhor amigo, ousa di­zer.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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