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Descobrindo a pólvora

sábado, 15 de dezembro de 2007 Texto de

An­tes tarde do que tarde de­mais. Nem sem­pre dá para pro­ces­sar em tempo real tudo o que a vida apre­senta em to­das as nu­an­ces de cinza que per­meiam as ver­da­des apa­ren­te­mente ab­so­lu­tas do preto ou branco. Mesmo as­sim, ao longo do meu tra­jeto por es­tas ban­das da vida, vou de­va­gar­zi­nho con­se­guindo cap­tar aqui e ali al­gu­mas coi­sas que me im­pres­si­o­nam, me cho­cam ou me en­can­tam. Tudo pes­soal e su­jeito a dis­cor­dân­cias, ben­za­deus. Prin­ci­pal­mente es­tas úl­ti­mas des­co­ber­tas.

Sem­pre ouvi que ci­nema, li­te­ra­tura, te­a­tro e ar­tes em ge­ral não têm po­der su­fi­ci­ente para pro­vo­car uma re­vo­lu­ção ou mu­dan­ças ra­di­cais na vida de al­guém, a não ser o gozo es­té­tico. Não é ver­dade. Mu­dam, sim, e de­pen­dendo do grau de im­pacto, até vi­ram o trem ao con­trá­rio e ele passa a an­dar com a lo­co­mo­tiva atrás. Vão me di­zer que re­vo­lu­ções po­lí­ti­cas, mu­dan­ças na vida, que­bra de pa­ra­dig­mas acon­te­cem do nada? Di­fí­cil acre­di­tar. Por trás de mu­dan­ças pode até es­tar uma tra­gé­dia pes­soal, mas elas cer­ta­mente tam­bém nas­cem da ob­ser­va­ção do que acon­tece, in­cluí­dos aí de­ter­mi­na­dos fil­mes, li­vros es­pe­ci­ais, cer­tas mú­si­cas, uma peça que te faz vol­tar vá­rias ve­zes ao te­a­tro para revê-la, con­ver­sas com pes­soas cri­a­ti­vas e in­te­res­san­tes. Como fa­zem bem es­ses en­con­tros e como me­xem o caldo! E tudo pela sen­si­bi­li­dade de pes­soas es­pe­ci­ais ou de ar­tis­tas de to­dos os ti­pos que a par­tir de um de­ter­mi­nado mo­mento da nossa vida se tor­nam ines­que­cí­veis.

Tam­bém des­co­bri que ra­rís­si­mas pes­soas, tal­vez duas ou três no mundo, re­al­mente sa­bem o sig­ni­fi­cado de se­gredo. Se não qui­ser que nin­guém saiba o seu, não o conte para nin­guém. Sim­ples as­sim. Mesmo uma amiga de fé, sa­bendo que você só está fa­lando por­que pre­cisa com­par­ti­lhar al­guma si­tu­a­ção pes­soal su­fo­cante, pode achar que co­men­tar com o com­pa­nheiro, com a fi­lha ou com ou­tro amigo de fé não chega a ser trai­ção da con­fi­ança, pelo grau de in­ti­mi­dade en­tre eles. Mas é. Es­sas ou­tras pes­soas não fo­ram es­co­lha sua para com­par­ti­lha­rem o as­sunto. Apren­dam isso, ami­gos de fé, ca­sa­dos ou sol­tei­ros.

Ou­tra coisa: ex­pres­sões con­si­de­ra­das po­li­ti­ca­mente cor­re­tas em ge­ral me soam bem dis­cri­mi­na­tó­rias. Por que uma pes­soa ne­gra deve ser des­crita como afro-descendente, e não ne­gra, se as pes­soas bran­cas são cha­ma­das de bran­cas e não de luso-descendentes ou caucasiano-descendentes? Não é uma ma­neira de dis­cri­mi­nar o ne­gro mos­trando que há ne­ces­si­dade de in­ven­tar um termo subs­ti­tuto para a sua cor? E a de­no­mi­na­ção “de­fi­ci­ente vi­sual” não pesa mais que “cego”? “Pes­soas com ne­ces­si­da­des es­pe­ci­ais” é o termo con­si­de­rado ade­quado para ca­sos de de­fi­ci­ên­cia, mas tam­bém po­de­ria se re­fe­rir a um men­digo em far­ra­pos, es­que­cido pelo mundo, sujo e mal­chei­roso, dor­mindo so­bre um pa­pe­lão na cal­çada. Não sei, tal­vez os dis­cri­mi­na­dos sai­bam me­lhor como se sen­tem com es­ses ape­li­dos es­tra­nhos e su­pos­ta­mente cor­re­tos. A mim dão má im­pres­são.

E o que eu nunca pen­sei que fosse le­var tanto tempo para des­co­brir e que to­dos os co­me­do­res de bom­bom já de­vem sa­ber há mi­lê­nios, é que o pa­pel que en­volve o Se­re­nata de Amor traz no seu in­te­rior duas fra­ses que fa­lam de amor, com­pa­nhei­rismo, ami­zade, pla­nos etc. Ime­di­a­ta­mente elas me re­me­te­ram a uns ca­der­nos que, no meu tempo de co­lé­gio, as me­ni­nas pas­sa­vam pe­los ami­gos para eles es­cre­ve­rem men­sa­gens e fra­ses para a dona do ca­derno. O tom da­que­las men­sa­gens era mais ou me­nos o mesmo das fra­ses do Se­re­nata. Uma que li no pa­pel­zi­nho ama­relo no dia da des­co­berta foi: “Tudo o que é bom dura o tempo ne­ces­sá­rio para ser ines­que­cí­vel”, dando um dri­ble da­nado de bom na frase ori­gi­nal, pes­si­mista, que diz que tudo o que é bom dura pouco. Sei não, mas essa mi­nha nova leva de des­co­ber­tas tem tudo para se tor­nar ines­que­cí­vel. Mesmo que to­das elas se­jam sim­ples des­co­ber­tas da pól­vora para ou­tros.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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