Colaboradores

Três tigres tristes - Texto de Dudu Oliva

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007 Texto de

O tí­tu­lo já dá a idéia da nar­ra­ti­va: re­fe­re-se a um tra­va-lín­guas* fa­mo­so. É um ro­man­ce com di­ver­sos per­so­na­gens que ca­mi­nham por La Ram­pa, o bair­ro boê­mio de Ha­va­na, en­tran­do e sain­do de ca­ba­rés, man­ten­do lon­gos diá­lo­gos. Os per­so­na­gens es­tão o tem­po to­do ci­tan­do uns aos ou­tros. O li­vro não é caó­ti­co, es­ta idéia é equi­vo­ca­da. A nar­ra­ti­va é ana­crô­ni­ca, mas os per­so­na­gens e epi­só­di­os pos­su­em co­ne­xão. Não há um nar­ra­dor onis­ci­en­te. Exis­tem di­ver­sas vo­zes que con­tam su­as res­pec­ti­vas con­cep­ções de mun­do. O li­vro con­tém vá­ri­as téc­ni­cas li­te­rá­ri­as, ci­ne­ma­to­grá­fi­cas e mu­si­cais di­luí­das ao lon­go da nar­ra­ti­va. O es­cri­tor de um dos ro­man­ces mais com­ple­xos da Li­te­ra­tu­ra his­pa­no-ame­ri­ca­na Guil­ler­mo Ca­bre­ra In­fan­te nas­ceu a 22 de abril de 1929, em Gi­ba­ra, Cu­ba. Fa­le­ceu a 22 de fe­ve­rei­ro de 2005, em Lon­dres, In­gla­ter­ra. Ele tem uma pai­xão des­me­di­da por Ha­va­na, que é fa­cil­men­te de­tec­ta­da na fan­tás­ti­ca re­cri­a­ção que faz na lin­gua­gem, atra­vés de jo­gos de pa­la­vras.

ADVERTÊNCIA

O li­vro es­tá em cu­ba­no. Quer di­zer, es­cri­to nos di­fe­ren­tes di­a­le­tos do es­pa­nhol fa­la­dos em Cu­ba e a es­cri­ta não é mais do que uma ten­ta­ti­va de cap­tar a voz hu­ma­na no vôo, co­mo se diz. As vá­ri­as for­mas do cu­ba­no se fun­dem nu­ma só lin­gua­gem li­te­rá­ria. No en­tan­to, pre­do­mi­na co­mo ca­rac­te­rís­ti­ca a fa­la dos ha­va­ne­ses e em par­ti­ci­par o jar­gão no­tur­no, que, co­mo em to­das as gran­des ci­da­des, ten­de a ser um idi­o­ma se­cre­to.
A re­cons­tru­ção não foi fá­cil e al­gu­mas pá­gi­nas de­vem ser me­lho­res ou­vi­das do que li­das, não sen­do má idéia lê-las em voz al­ta. Ter­mi­nan­do, que­ro fa­zer meu es­te re­pa­ro de Mark Twain:

“Dou es­tas ex­pli­ca­ções pe­la sim­ples ra­zão de que sem elas mui­tos lei­to­res pen­sa­ri­am que to­dos os per­so­na­gens ten­tam fa­lar igual sem con­se­gui-lo.”

Epí­gra­fe

“E ten­tou ima­gi­nar co­mo se­ria vis­ta a luz de uma ve­la quan­do es­tá apa­ga­da.” Lewis Car­rol

Três Ti­gres Tris­tes faz re­fe­rên­cia ao li­vro Ali­ce do país das Ma­ra­vi­lho­sas, des­te au­tor, prin­ci­pal­men­te nos jo­gos de pa­la­vras e brin­ca­dei­ra com a ima­gem in­ver­ti­da no es­pe­lho. Es­tas téc­ni­cas são uti­li­za­das pa­ra mos­trar as di­fe­ren­tes re­a­li­da­des frag­men­ta­das em que vi­ve­mos.

Es­tru­tu­ra da Nar­ra­ti­va:

– Mo­nó­lo­go de uma lin­gua­gem oral de uma me­ni­na que acom­pa­nha uma ami­ga, Au­re­li­ta, de bai­xo do ca­mi­nhão pa­ra ob­ser­var o que Pe­tra Ca­bre­ra e seu noi­vo fa­zi­am quan­do es­ta­vam so­zi­nhos. Tam­bém, mui­tos que­ri­am sa­ber o que elas fa­zi­am em bai­xo do ca­mi­nhão. E ela em­bro­ma­va, mas não di­zia o que fa­zi­am.

– Uma car­ta de De­lia Do­ce a sua co­ma­dre Etel­vi­na que con­ta a per­di­ção de sua fi­lha ( Gló­ria Pe­res), que se con­ver­teu em uma es­tre­la da pu­bli­ci­da­de com o no­me e a pro­fis­são de Mi­ner­va Eros.

– Mo­nó­lo­go oral de jo­vem Mag­da­le­na Cruz, so­bre a rup­tu­ra com sua mãe e cur­tir as noi­tes de Ha­va­na.

– Mo­nó­lo­go de um tal Sil­ves­tre que lem­bra os tem­pos de cri­an­ça, quan­do ia ao ci­ne­ma com seu ir­mão mais ve­lho e acon­te­ceu um aten­ta­do ter­ro­ris­ta. “pro­va­vel­men­te um ajus­te de con­tas de gangs­ters que ha­bi­ta­vam Ha­va­na pré-fi­de­lis­ta” (Mo­ne­gal).

– Con­ver­sa te­lefô­ni­ca, a qual só se es­cu­ta uma mu­lher fa­lan­do com a ou­tra. Não dei­xa de ser um mo­nó­lo­go tam­bém.

– O mo­nó­lo­go de Eri­bó so­bre sua vi­si­ta ao Dr. Vi­ri­a­to So­laín pa­ra pe­dir au­men­to de sa­lá­rio. Ps: Eri­bó ou Sil­vio Ri­bot, que se ex­pli­ca­rá mais adi­an­te. (idem).

– O mo­nó­lo­go de Ar­sê­nio (ou Cuê) em que con­ta a vi­si­ta a um ho­mem ri­co e que lhe dá um ti­ro. (es­te re­la­to é cor­ta­do e só se­rá com­ple­ta­do na úl­ti­ma par­te do li­vro.)

– Um mo­nó­lo­go de Co­dác in­ti­tu­la­do “Ela can­ta­va Bo­le­ros”. Sua re­la­ção com uma pes­soa gro­tes­ca e ao mes­mo tem­po cheia de vi­da. Sua voz ma­ra­vi­lho­sa não pre­ci­sa­va de or­ques­tra.

– Um mo­nó­lo­go in­ti­tu­la­do “Pri­mei­ra”, o qual é um re­la­to de uma mu­lher psi­ca­ni­li­za­da. Não tem iden­ti­fi­ca­ção. E ao lon­go do li­vro os seus re­la­tos apa­re­cem e se des­fe­cham no fi­nal.

ETAPAS DO LIVRO

• Pró­lo­go. Um ma­es­tro que fa­la em vá­ri­as lín­guas (es­pa­nhol e em in­glês) num ca­ba­ré TROPICANA.

• Os es­tre­an­tes. Fa­la das pes­so­as sim­ples de cu­ba. So­nhos de se dar bem de vi­da. (A es­tru­tu­ra da nar­ra­ti­va ci­ta­da a ci­ma é con­ta­da nes­ta pri­mei­ra par­te).

• A ca­sa dos es­pe­lhos. As vá­ri­as vi­sões e in­ter­pre­ta­ções dos boê­mi­os da noi­te cu­ba­na. Bus­tro­fé­don, Cuê (ator), Co­dac (fo­tó­gra­fo), Silvestre(escritor) e o Eri­bó (ba­te­ris­ta). Co­mo em os Três Mos­que­tei­ros do es­cri­tor fran­cês Ale­xan­dre Du­mas, são qua­tro.

• Ses­si­ribô a aber­tu­ra é uma len­da. Ekuê era mí­ti­co e vi­via num rio sa­gra­do.

• Os vi­si­tan­tes. Ver­sões di­fe­ren­tes do ma­ri­do e a es­po­sa so­bre os fa­tos, prin­ci­pal­men­te da ben­ga­la rou­ba­da apa­ren­te­men­te rou­ba­da.

• Que­bra-ca­be­ça. Nar­ra a com­ple­xi­da­de do Bus­tro­fé­don, que faz jo­gos de pa­la­vras e brin­car de co­lo­car as pa­la­vras no es­pe­lho, pro­du­zin­do o fenô­me­no fí­si­co da in­ver­são. Aluda/adula, aval/ la­va, rama/amar, sala/alas, Eva/ave. Nes­ta par­te do li­vro há re­fle­xão de di­fe­ren­tes re­a­li­da­des. Guil­ler­mo Ca­bre­ra In­fan­te tem a ge­ni­al idéia de trans­for­mar a lin­gua­gem em per­so­na­gem. Bus­tro­fé­don é um an­ti­go sis­te­ma de es­cri­ta, pa­ten­te em ma­nus­cri­tos e ins­cri­ções da An­ti­gui­da­de, on­de a di­re­ção da es­cri­ta, ao con­trá­rio dos mo­der­nos por­tu­guês e in­glês (es­cri­tos da es­quer­da pa­ra a di­rei­ta) ou ára­be e he­brai­co (es­cri­tos da di­rei­ta pa­ra a es­quer­da), al­ter­na­va con­so­an­te as li­nhas.

• A mor­te de Trotsky se­gun­do vá­ri­os es­cri­to­res cu­ba­nos.

• Al­gu­mas re­ve­la­ções. As du­as pri­mei­ras pá­gi­nas es­tão em bran­co e um tex­to nor­mal e ou­tro in­ver­ti­do (co­mo o per­so­na­gem B ado­ra­va fa­zer). Que sem­pre gos­tou de fa­zer brin­ca­dei­ras... e o des­fe­cho do re­la­to Ela Can­ta­va Bo­le­ros.

• Far­ra. Cuê e Sil­ves­tre an­dam pe­la noi­te cu­ba­na e dis­cu­tem so­bre li­te­ra­tu­ra e tra­du­ção das gran­des obras li­te­rá­ri­as e Sil­ves­tre e Cuê re­en­con­tra Ma­ga­le­na ...

• Epí­lo­go- mo­nó­lo­go de uma mu­lher sur­ta­da.

Fon­tes:

Emir Ro­dri­guez Mo­ne­gal. NARRADORES DE ESTA AMÉRICA ( t. 2)
Edi­to­ri­al Al­fa Ar­gen­ti­na.

C. Ca­bre­ra In­fan­te. Três Ti­gres Tris­tes. Tra­du­ção de Stel­la Le­o­nar­dos. Edi­to­ra Glo­bal. 1980

http://www.webboom.pt/autordestaque.asp?ent_id=1113736&area=01

http://www.revista.agulha.nom.br/ag44infante.htm

http://www.revista.agulha.nom.br/ag50infante.htm

* Ti­gre

Dê o tri­go pa­ra os três ti­gres no pra­to de pra­ta.
Em três pra­tos de tri­go co­mem três tris­tes ti­gres.
Num pra­to de tri­go três ti­gres tris­tes co­mi­am. Um ti­gre, dois ti­gres, três ti­gres.
O me­ni­no deu tri­go ao ti­gre e o ti­gre co­meu to­do o tri­go.
Ti­re o tri­go dos três ti­gres.
Três pra­tos de tri­go pa­ra três ti­gres tris­tes.
Três ti­gres tris­tes pa­ra três pra­tos de tri­go.
Tra­ga três pra­tos de tri­go pa­ra três ti­gres co­me­rem.
Um sa­co de tri­go pa­ra três ti­gres tris­tes.
Um ti­gre, dois ti­gres, três ti­gres.
Um pra­to de tri­go pa­ra os três ti­gres.
Um ti­gri­nho, dois ti­gri­nhos, três ti­gri­nhos.

E-mail: dudu.oliva@uol.com.br

Compartilhe