A vida de Nel­son Ro­dri­gues no sé­culo 21 se­ria muito chata. Pri­meiro, por­que iria se ir­ri­tar com o po­li­ti­ca­mente cor­reto que pre­do­mina hoje. O ci­garro, por exem­plo, com­pa­nheiro in­se­pa­rá­vel do anjo por­no­grá­fico: não tem mais o gla­mour da­que­les tem­pos (re­cente pes­quisa do Da­ta­Fo­lha cons­ta­tou que só 9% dos bra­si­lei­ros vêem charme nas ba­fo­ra­das). Nel­son de­di­ca­ria li­nhas e li­nhas cri­ti­cando a pa­tru­lha co­le­tiva pela saúde. “Cada um que cuide da sua”, vo­ci­fe­ra­ria.

So­bre a maior to­le­rân­cia a res­peito da se­xu­a­li­dade, te­nho mi­nhas dú­vi­das. O con­ser­va­dor Nel­son apro­va­ria ca­sais gays em no­ve­las? Es­cre­ve­ria em suas pe­ças per­so­na­gens ho­mos­se­xu­ais que não ti­ves­sem o es­te­reó­tipo da pro­mis­cui­dade? Acho que sim. Quem soube li­dar com o ero­tismo tão bri­lhan­te­mente como Nel­son Ro­dri­gues, ha­ve­ria de sa­ber que desde que se fez a luz o pra­zer não é ex­clu­si­vi­dade do en­con­tro he­tero. Resta sa­ber se no fu­te­bol ele ad­mi­ti­ria tal ma­ni­fes­ta­ção…

Aliás, resta sa­ber se Nel­son Ro­dri­gues con­ti­nu­a­ria gos­tando de fu­te­bol! Seu Flu­mi­nense, ape­sar de atual cam­peão da Copa do Bra­sil, não ins­pira mui­tas ex­cla­ma­ções. Afi­nal, o en­fo­que de suas crô­ni­cas sem­pre foi a ma­gia do dri­ble e o to­que su­til de atle­tas ele­va­dos à con­di­ção so­brehu­mana – que o bom Thi­ago Ne­ves, o 10 do Flu, está longe de al­can­çar. Acha­ria um dis­pa­rate o me­lhor jo­ga­dor em ati­vi­dade no país ser um go­leiro, an­tes aquela fi­gura me­lan­có­lica que faz até mor­rer grama em seu es­paço de atu­a­ção. Re­feito do susto, po­rém, re­co­nhe­ce­ria em Ro­gé­rio Ceni um di­fe­ren­ci­ado e di­ria que Dunga tem uma mi­o­pia maior que a sua.

Quase dis­posto a mudar-se para a Eu­ropa, Nel­son fi­ca­ria eu­fó­rico com a pos­si­bi­li­dade de acom­pa­nhar Ro­nal­di­nho, Kaká e Ro­bi­nho de perto, os que hoje mais se apro­xi­mam da con­di­ção ce­les­tial. Dia 17 de ou­tu­bro, a Se­le­ção en­frenta o Equa­dor, pe­las Eli­mi­na­tó­rias da Copa, no Ma­ra­canã, a se­gunda casa do cro­nista. Não é mais o Es­crete (termo dele que per­so­ni­fi­cou a Se­le­ção), mas con­ti­nua o me­lhor do mundo. E sem com­plexo de vira-latas, pois to­dos os jo­ga­do­res têm pe­di­gree: são po­li­glo­tas que vi­si­tam os gran­des mu­seus do Ve­lho Mundo. Isso tam­bém o dei­xa­ria pasmo.

No meio des­sas su­po­si­ções, um pulga atrás da ore­lha me diz ainda, pre­o­cu­pada, que é bem pro­vá­vel que ele, pas­si­o­nal como é, visse co­e­rên­cia na forma de agir de Eu­rico Mi­randa. Fi­que bem onde está, Nel­son, na eter­ni­dade. Até por­que as re­da­ções fo­ram in­va­di­das por mu­lhe­res in­te­li­gen­tes, in­de­pen­den­tes e que, de­fi­ni­ti­va­mente, não gos­tam de apa­nhar.

E-mail: fernando_bh@yahoo.com.br

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