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ele – Texto de Thiago Roque

sábado, 6 de outubro de 2007 Texto de

Ele não sabe o que é amar.
Não, se­nhor. Não faz a me­nor idéia.
Po­bre di­abo. Nunca che­gou perto. Ja­mais teve fa­gu­lha deste bem-querer.
Jus­tiça seja feita: ten­tou, uma única vez. Pas­sou longe. Gosto de bo­la­cha ama­nhe­cida.
Cus­piu. E cer­rou as por­tas.
Na in­fân­cia, tro­cava as ma­ni­fes­ta­ções de ca­ri­nho pela ca­beça baixa, en­ver­go­nhada, me­drosa, as­sus­tada com o des­co­nhe­cido.
Na ado­les­cên­cia, he­rege con­victo, nunca acre­di­tou que bei­jos e ex­pe­ri­ên­cias tro­ca­das, rou­ba­das, às ve­zes até per­mi­ti­das nos mu­ros da ci­dade po­de­riam acender-lhe chama do verbo.
Hoje, faz tanta falta… Se sou­besse…
Mas sabe o que é certo. Mas sabe o que é ser ba­cana. Mas sabe de suas ne­ces­si­da­des.
Es­cova os den­tes. Trata o gar­çom com edu­ca­ção. Tem te­são.
Mas amor, na­dica. Sem pé can­sado nem chi­nelo ve­lho.
Nin­guém para dis­cu­tir se o pi­vete vai cha­mar João ou Pe­trus.
Não acha no su­per­mer­cado. Já pro­cu­rou na far­má­cia. Nos dois lo­cais, só en­con­trou so­li­dão na pro­mo­ção – com­prou dez qui­los para não dei­xar fal­tar na des­pensa.
Vi­di­nha or­di­ná­ria. De dar dó.
Sem frio na bar­riga, abraço acon­che­gante, beijo na testa.
Sem pre­ci­pí­cio. Só a cons­tante queda li­vre.
Po­e­sia cega, surda e muda. Am­pu­tada. À base de mor­fina.
Co­nhe­cia só o si­lên­cio en­sur­de­ce­dor de seus pró­prios demô­nios no fi­nal de noite.
Um dia, ela, dei­tada e en­volta pelo de­sejo, disse a ele: “Me ame”.
Ele a co­lo­cou de qua­tro.
Amém.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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