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Assassina – Texto de Thiago Roque

domingo, 7 de outubro de 2007 Texto de

Ela per­deu duas ho­ras no ca­be­le­reiro, pas­sou no shop­ping para pe­gar um novo salto agu­lha.
Não es­que­ceu a ma­qui­a­gem da moda, o es­malte preto nas unhas, a calça de ly­cra que dei­xava a bunda re­donda e em­pi­nada.
Afi­nal, a noite era dela. E ela fi­cava muito bem com san­gue nas mãos.
Ainda não ti­nha de­ci­dido quem se­ria a pró­xima ví­tima. Mas não era isso que a dei­xava in­qui­eta – afi­nal, com de­cote em V e do­ses de uís­que de­pois, elas sur­giam como ove­lhas.
Seu pro­blema era sa­ber como ma­tar – an­dava en­te­di­ada, sabe? Sem­pre do mesmo jeito, perto do mesmo ho­rá­rio, aque­las coi­sas.
Nem su­ava mais. Vo­mi­tar, en­tão, só na pri­meira vez, e muito pouco. Hoje, ma­tava, co­lo­cava a ca­beça no tra­ves­seiro, sen­tia aquele cheiro de aloe vera do ama­ci­ante e dor­mia o sono dos deu­ses.
Nem se ba­nhava. A mal­dade co­lé­rica era sua água benta.
Que­ria se di­ver­tir. Que­ria brin­car com sua ví­tima. Que­ria ser imen­su­ra­vel­mente sá­dica, fa­zer de Ha­ni­ball um fi­lhote de rato as­sus­tado.
Que­ria ser per­versa.
En­quanto Lou Reed to­cava na vi­trola, ela pen­sava. Fa­gu­lhas de idéia pin­ta­vam, mas nada pe­gava fogo.
Só ela. Por den­tro.
De­ci­diu im­pro­vi­sar. En­trou no carro e foi para a bo­ate.
Aquele gente or­di­ná­ria de sem­pre, en­go­ma­das em suas rou­pas de mar­cas, com suas be­bi­das ca­ras e suas vi­das de­sin­te­res­san­tes, es­con­di­das atrás de tra­ba­lhos me­dí­co­res, pos­ses que não eram suas, bla­bla­blás de dar azia.
Que nojo de lu­gar.
Fez seu ri­tual. Pe­diu uma be­bida, des­fe­riu olha­res, en­trou na pista.
Por se­gun­dos, o mundo pa­rou para ela dan­çar.
Fe­chou os olhos e dan­çou. Dei­xou as mãos su­bi­rem e des­ce­ram pela calça e pela blu­si­nha verde, ora re­ve­lando co­xas gros­sas, ora ame­a­çando mos­trar os seios, ma­çãs de pe­cado.
Já era o su­fi­ci­ente.
Saiu e en­cos­tou o corpo exa­lando de­sejo. Dei­xou suas ví­ti­mas vi­rem em di­re­ção ao ma­ta­douro.
Que pa­té­tico. Não fal­ta­vam es­co­lhas.
Fez um uni-duni-tê men­tal, caiu no mané bar­bado, ca­misa azul lis­trada.
Ves­tiu o me­lhor sor­riso, cal­çou o me­lhor re­bo­lado, e foi.
Os lá­bios car­nu­dos pro­fe­ri­ram um oi ines­que­cí­vel. Mas, sur­presa: ela es­pe­rava o ho­mem com cara de de­sejo, pronto para uma noite de sexo sujo e vi­o­lento, com a aura vol­tada para o car­nal… Nada além disso.
Só que ele ga­gue­jou. Fi­cou ner­voso. Suou. Es­tava des­con­for­tá­vel.
Na ver­dade, es­tava apai­xo­nado.
Ela sor­riu. Em pou­cos ins­tan­tes, gar­ga­lhava.
Nem pre­ci­sou su­jar as mãos para pe­gar o co­ra­ção dele.
A noite ia ser longa e muito di­ver­tida.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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