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Lygia e o cuco das horas nuas

terça-feira, 25 de setembro de 2007 Texto de

A ho­me­na­gem de An­to­nio Can­dido, Ly­gia Fa­gun­des Tel­les e Ro­berto Schwarz a Paulo Emí­lio Sa­les Go­mes.

De tudo fica um pouco.
Não muito.

Car­los Drum­mond de An­drade

An­to­nio Can­dido, Ly­gia Fa­gun­des Tel­les e Ro­berto Schwarz. Nem pre­ciso di­zer que foi um raro pri­vi­lé­gio ver este en­con­tro ao vivo e, prin­ci­pal­mente, ou­vir os três numa mesma noite. Es­ta­vam ali, sen­ta­dos à mesa, no palco do au­di­tó­rio da ci­ne­ma­teca de São Paulo, para ho­me­na­gear o cri­a­dor do en­saio crí­tico ci­ne­ma­to­grá­fico bra­si­leiro, Paulo Emí­lio Sa­les Go­mes. Es­ta­vam ali, con­ver­sando como se ti­ves­sem na va­randa da casa de um de­les, be­bendo vi­nho e jo­gando con­versa fora. Foi um dos acon­te­ci­men­tos mais bo­ni­tos que a Arte já pro­mo­veu nos úl­ti­mos anos, na ca­pi­tal pau­lista. Sentei-me na ter­ceira fila numa pol­trona que me per­mi­tiu acom­pa­nhar bem de perto os ges­tos e as pa­la­vras das três es­tre­las da li­te­ra­tura na­ci­o­nal, con­vi­da­das, na­quela oca­sião, do se­cre­tá­rio mu­ni­ci­pal de cul­tura, Car­los Au­gusto Ca­lil, or­ga­ni­za­dor e au­tor do pos­fá­cio da nova edi­ção do li­vro Três mu­lhe­res de três PP­Pês, es­crito por Paulo Emí­lio e edi­tado este ano pela Co­sac Naify.

Num gesto prous­ti­ano e dis­creto, An­to­nio Can­dido ti­rou o re­ló­gio de pulso do braço e o co­lo­cou so­bre a mesa de uma forma que lhe per­mi­tiu ver o cor­rer das ho­ras e não per­der um mi­nuto que fosse do tempo que ti­nha para fa­lar. Disse que co­nhe­ceu Paulo Emí­lio quando este vol­tava do exí­lio na Eu­ropa em 1939. Mas que ou­viu fa­lar nele, pela pri­meira vez, um ano an­tes. Al­guém me con­tou que era ama­lu­cado, co­mu­nista e ha­via tou­re­ado um bode na ci­dade uni­ver­si­tá­ria de Pa­ris ( o que ele con­fir­mou mais tarde). Quem me apre­sen­tou ao Paulo foi Dé­cio de Al­meida Prado, na sala de fundo da an­tiga Con­fei­ta­ria Vi­e­nense, onde nos reu­nía­mos. Paulo era im­pre­vi­sí­vel. He­te­ro­doxo em tudo. Muito mais bar­roco do que clás­sico, foi o amigo mais fas­ci­nante que eu tive, re­ve­lou.

Can­dido con­tou ainda que Paulo ti­nha eloqüên­cia re­pri­mida e que como crí­tico de ci­nema era dono de uma ma­es­tria ex­tra­or­di­ná­ria. Ele aju­dou muito a de­fi­nir a li­nha de um so­ci­a­lismo ra­di­cal in­de­pen­dente, afir­mou. Disse que Paulo co­me­çou a ci­ne­ma­teca fun­dando o clube de ci­nema na Fa­cul­dade de Fi­lo­so­fia em 1939. Na época o clube foi fe­chado pelo Es­tado Novo, por­que se­gundo a cen­sura “o lu­gar pro­mo­via ses­sões numa sala es­cura onde reuniam-se ra­pa­zes e mo­ças para fa­zer não se sabe o quê”. An­to­nio Can­dido tam­bém con­tou his­tó­rias da re­vista Clima. Paulo aca­bou nos po­li­ti­zando. Vi­via di­zendo “é me­lhor ser fas­cista do que apo­lí­tico como vo­cês”. Foi um com­pa­nheiro que es­ti­mu­lava cada um a pro­cu­rar em si a co­e­rên­cia en­tre o modo de ser e a mi­li­tân­cia, sem a camisa-de-força da so­lu­ções dog­má­ti­cas. E lem­brou que o amigo cos­tu­mava di­zer que não sa­bia es­cre­ver. Que nada. A sua li­vre e ex­tra­or­di­ná­ria ima­gi­na­ção, disse o crí­tico li­te­rá­rio, sem­pre as­pi­rou a algo mais, po­rém só no fim da vida, aos 60 anos, Paulo es­cre­veu os três con­tos lon­gos que tra­tam de re­la­ções amo­ro­sas com­pli­ca­das, com uma rara li­ber­dade de es­crita e con­cep­ção. No en­tanto, a sua mo­der­ni­dade se­rena e cor­ro­siva se ex­prime numa prosa quase clás­sica. Trans­lú­cida e irô­nica, com certa li­ber­ti­na­gem de tom que faz pen­sar em fic­ci­o­nis­tas fran­ce­ses do sé­culo XVIII.

Ro­berto Schwarz ana­li­sou, de forma bem aca­dê­mica, o li­vro que Paulo Emí­lio Sa­les Go­mes es­cre­veu em 1973. Pre­fe­riu cha­mar os con­tos de 3 no­ve­las. Acho um acon­te­ci­mento, mas não é fá­cil di­zer porquê, re­fle­tiu. Paulo criou Po­li­doro, um bur­guês pau­lis­tano que se en­gana re­don­da­mente com as mu­lhe­res com que se en­volve. É um nar­ra­dor que corta o cor­dão um­bi­li­cal com o au­tor. Nas três no­ve­las, ele en­cena o afun­da­mento da classe so­cial do pró­prio nar­ra­dor. A co­mi­ci­dade das si­tu­a­ções não dá conta do al­cance do li­vro. O ele­mento cru­cial da qua­li­dade dos con­tos de Paulo não é a sá­tira, mas ou­tro. À pri­meira vista o li­vro é um di­ver­ti­mento, de muita qua­li­dade con­ven­ci­o­nal. Três no­ve­las con­ju­gais, de en­redo pi­cante, cheio de sur­pre­sas e sus­pense. Con­tudo, essa ar­ma­ção é tra­tada com re­cuo.

Ca­sada com Paulo Emí­lio Sa­les Go­mes du­rante 15 anos, Ly­gia Fa­gun­des Tel­les dei­xou claro que não po­de­ria se­pa­rar o Paulo Emí­lio, ho­mem de ci­nema do Paulo Emí­lio, es­cri­tor e fic­ci­o­nista. Disse que es­tava muito emo­ci­o­nava por es­tar ali na ci­ne­ma­teca. Aqui eu me sinto no céu de Paulo, con­tou a to­dos que lo­ta­vam o au­di­tó­rio. E por fa­lar em céu, an­tes de con­ti­nuar a cons­truir, com uma pa­la­vra so­bre a ou­tra, a ima­gem pós­tuma do ex-marido, lem­brou do tí­tulo do novo li­vro dela: “cons­pi­ra­ção das nu­vens”. Não é um tí­tulo ins­ti­gante, per­gun­tou. Ima­gi­nem… Nu­vens cons­pi­rando… (por uns pou­cos ins­tan­tes, a es­cri­tora vi­rou bruxa e fez as mãos dan­ça­rem um ritmo ma­ca­bro en­quanto fa­lava a pa­la­vra cons­pi­rando). Esse tí­tulo re­pre­senta bem o que acon­tece hoje no nosso país, con­cluiu com os olhos pa­ra­dos na fron­teira en­tre o pre­sente e o pas­sado.

A me­mó­ria é a casa da alma, disse Ly­gia. Esta frase de Santo Agos­ti­nho era uma das pre­di­le­tas do Paulo. Foi o start para Ly­gia tam­bém ati­var sua me­mó­ria prous­ti­ana e vol­tar. Quando abria o ar­má­rio da bi­bli­o­teca lá de casa ele sem­pre impressionava-se com a quan­ti­dade de pa­péis e di­zia: es­sas pas­tas es­tão pro­cri­ando!! Paulo me cha­mava de Cuco. Era por­que eu me atra­sava às ve­zes, as­sim como o cuco da avó ir­lan­desa dele. Quando fo­mos pas­sar uma tem­po­rada em Águas de São Pe­dro, num ho­tel mo­desto, pró­ximo à praça dos rou­xi­nóis, ele me cha­mou: “Cuco, vou te dar três idéias óti­mas para você es­cre­ver três con­tos ma­ra­vi­lho­sos!” Na­quela época eu es­cre­via o Se­mi­ná­rio dos Ra­tos e não dei ne­nhuma aten­ção à su­ges­tão dele. Al­guns dias de­pois, Paulo, re­vol­tado, mu­dou de idéia. “Já que você ainda não usou as idéias que lhe dei, vou pegá-las de volta e eu mesmo vou es­cre­ver os con­tos”.

En­tão, con­ti­nuou Ly­gia, Paulo co­me­çou sua pri­meira e única aven­tura pela fic­ção. Fa­zia muito ca­lor em Águas de São Pe­dro e nós fi­cá­va­mos com a ja­nela do quarto aberta. En­tre um pa­rá­grafo e ou­tro eu olhava Paulo, com uma ca­misa leve es­cre­vendo, es­cre­vendo… Os dois ven­ti­la­do­res li­ga­dos… Pa­re­cia que Paulo ia sair voando…Os con­tos que ele es­cre­via se tor­na­ram o li­vro Três Mu­lhe­res de Três PP­Pês. Du­rante nos­sos dias no in­te­rior ía­mos muito ao circo que es­tava na ci­dade. E à igreja pou­cas ve­zes. Paulo di­zia: Cuco, vai re­zar por nós dois! Mas só eu en­trava e ele fi­cava do lado de fora me es­pe­rando.

Quando Paulo es­cre­via, ele se fe­chava, disse a es­cri­tora. Quando ter­mi­nou o li­vro es­tava ilu­mi­nado, ema­nava uma fe­li­ci­dade bri­lhante. Olhou bem nos meus olhos e per­gun­tou: “Cuco, por­que você não me disse que es­cre­ver fic­ção é essa ma­ra­vi­lha. Agora só quero fa­zer fic­ção!”

Na­quele mo­mento, pou­cos e ra­ros, sen­ta­dos na pla­téia, con­se­gui­ram ima­gi­nar na­quela noite es­cura, quem dera de um ve­rão no aquá­rio, a es­tru­tura das go­tas que mo­lha­ram os olhos de to­das as me­ni­nas, de ci­randa ou baile verde, Ro­sas ou Dollys, ado­ra­do­ras de cac­tos ver­me­lhos ou pa­pou­las em fel­tro ne­gro, pre­sen­tes na mu­lher que amou Paulo Emí­lio in­ten­sa­mente e que foi por ele cha­mada ora de Ly­gia e ora, muito mais ho­ras, de cuco.

Lu­cius de Mello é es­cri­tor e jor­na­lista, foi fi­na­lista do Prê­mio Ja­buti 2003 na ca­te­go­ria reportagem/biografia com o li­vro Eny e o Grande Bor­del Bra­si­leiro – edi­tora Ob­je­tiva. Pes­qui­sa­dor do LEER – La­bo­ra­tó­rio de Es­tu­dos so­bre Et­ni­ci­dade, Ra­cismo e Dis­cri­mi­na­ção – do De­par­ta­mento de His­tó­ria da USP, lança em ju­nho A TRAVESSIA DA TERRA VERMELHA – ro­mance his­tó­rico que conta a saga dos ju­deus ale­mães que se re­fu­gi­a­ram no norte do Pa­raná para es­ca­par do na­zismo.

E-mail: luciusdemello@uol.com.br

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