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Difícil – Texto de João Pedro Feza

quarta-feira, 19 de setembro de 2007 Texto de

As coi­sas an­dam di­fí­ceis. Foi di­fí­cil vol­tar a es­cre­ver. É di­fí­cil acei­tar mi­nha banda na­ci­o­nal pre­fe­rida ruir. E a se­gunda, su­mida. Di­fí­cil as­si­mi­lar o Se­nado. Duro su­por­tar o ca­lor, com­pli­cada a TV aberta, chata a se­gunda.

Meu can­tor pre­fe­rido está imenso e re­pe­ti­tivo. Mi­nha du­pla fa­vo­rita caiu no os­tra­cismo. Mi­nha musa das re­vis­tas en­ve­lhe­ceu e só fala bo­ba­gens. Deus não dá um si­nal.

Mas di­fí­cil mesmo é so­frer mais uma amarga der­rota. E para o Pal­mei­ras de es­tampa cí­trica. Não dá. Di­fí­cil de dar dó.

Meus ído­los e íco­nes atra­ves­sam fa­ses di­fí­ceis. Pa­rece que com­bi­na­ram: va­mos nos unir para de­cep­ci­o­nar em bloco aquele adulto de Bauru que pas­sou a ado­les­cên­cia tor­cendo por nós. Deu a louca na turma toda.

Só resta tor­cer, sem qual­quer po­der de in­fluên­cia, para que Ti­mão, Ira!, Los Her­ma­nos, Gui­lherme Aran­tes e Sá e Gua­rabyra re­to­mem logo o curso pro­du­tivo de suas vi­das. Mi­nha musa, não digo quem é. 

Po­rém, se de­rem a volta por cima, su­porto a se­gunda, a TV e o ca­lor numa boa. Não pra­guejo o Se­nado. E se­rei grato ao Todo-Poderoso, mesmo sem Dele re­ce­ber um mí­sero si­nal.

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Al­gu­mas pes­soas se re­ve­lam no msn. Ele que­brou ini­bi­ções que du­ra­riam anos. Mas, cui­dado: as pa­la­vras vir­tu­ais po­dem in­du­zir a er­ros bem re­ais.

Nunca en­trei em si­tes de bate-papo. Chego a ad­mi­rar quem tem ta­lento para en­con­trar gente es­tra­nha do ou­tro lado e, em se­gun­dos, quase vi­rar amante. 

Es­ses con­ta­tos na grande rede se­riam to­dos uma tola ilu­são co­le­tiva ou bál­samo bem-vindo à cru­eza do dia? 

Bem, quem vive sem ilu­são que atire o pri­meiro tor­pedo.

Em tempo: a mé­dia de ami­gos vir­tu­ais por aí é de 20. No Bra­sil, é de 46 por in­ter­nauta. É o que mos­tra pes­quisa feita em 16 paí­ses com 18 mil jo­vens de 8 a 24 anos, pu­bli­cada pelo Jor­nal do Bra­sil. O Bra­sil ga­nha, in­clu­sive, dos po­pu­lo­sos Es­ta­dos Uni­dos e China. 

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“A Pá­gina do Re­lâm­pago Elé­trico”, ma­gis­tral ál­bum de Beto Gue­des, com­pleta 30 anos em 2007. Nin­guém lem­brou. Eu tam­bém não. Mas es­bar­rei com o disco em casa e per­cebi a coin­ci­dên­cia de data. Es­tão ali “Ma­ria So­li­dá­ria”, “Lu­miar”, “Nas­cente”…

Re­nato Russo ti­nha um plano: gra­var os mi­nei­ros. Não deu tempo. Acho que al­gu­mas can­ções fi­ca­riam es­pa­lha­fa­to­sas no vo­zei­rão dele, mas se­ria ba­cana a re­lei­tura.

Le­gião Ur­bana ven­dia 200 mil có­pias de CD a cada ano tem­pos atrás, já com o grupo morto e en­ter­rado. Hoje deve ser bem me­nos, mas ainda é um fenô­meno.

Cer­tas can­ções são para sem­pre. Na mi­nha ima­gi­na­ção ouço cla­ra­mente Re­nato Russo em­pos­tar seu tim­bre de ve­ludo no pri­meiro verso da pri­meira mú­sica desse disco de 1977. “Abre a fo­lha do li­vro” / “Que eu lhe dou para guar­dar / E de­sata o nó dos cinco sen­ti­dos.” Pense na mú­sica, pense em Re­nato: você vai gos­tar tam­bém.

Ima­gi­nar é, en­fim, o que há no mundo de me­nos di­fí­cil.

E-mail: jfeza@bol.com.br

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