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Fita amarela – Texto de Otávio Nunes

quarta-feira, 19 de setembro de 2007 Texto de

(His­to­ri­nha ba­se­ada na mú­sica Tie a yel­low rib­bon round the ole oak
tree, de 1973, do ame­ri­cano Tony Or­lando. A can­ção fez su­cesso no
Bra­sil e no mundo, gra­vada pelo au­tor e pela du­pla de can­to­ras cha­mada
Dawn)

Jos­ma­rino, co­nhe­cido como Bi­gode, en­trou em sua cela e olhou o ca­len­dá­rio. Fal­ta­vam oito dias para dei­xar a pri­são. Fo­ram lon­gos qua­tro anos por causa de uma ten­ta­tiva de as­salto. Pe­gou ca­neta e ca­derno e co­me­çou a es­cre­ver uma carta para Ana­lí­sia, sua na­mo­rada na época em que fora preso. Nos dois pri­mei­ros anos, re­ce­beu vi­si­tas dela. De­pois, não mais. Mui­tas mis­si­vas en­vi­ara, mas ape­nas duas fo­ram res­pon­di­das, de ma­neira for­mal, sem emo­ção. Pa­re­ciam es­cri­tas ape­nas por obri­ga­ção. “Será que ela ainda me quer? Ca­sou? Tem ou­tro?”, ques­ti­o­nava Bi­gode en­quanto es­cre­via as mal­tra­ça­das li­nhas com sua le­tra dis­forme.

Na pe­quena carta, a me­nor que ele ha­via es­crito até en­tão, in­for­mava
ape­nas a data em que iria dei­xar a pri­são e a se­guinte men­sa­gem: “Se você ainda me ama, ainda me aceita de volta, amarre uma fita ama­rela na ár­vore em frente a sua casa. Pas­sa­rei aí de ôni­bus. Se não en­xer­gar ne­nhuma fita ama­rela na ve­lha pai­neira, não des­ce­rei. Se­gui­rei em frente para cui­dar de mi­nha vida.”

No dia an­te­rior à sua saída, foi ao bar­beiro. Cor­tou o ca­belo e apa­rou o bi­gode preto. Na ma­nhã se­guinte, despediu-se dos ami­gos e tam­bém dos que não eram.

Den­tro do ôni­bus, que o le­va­ria à casa de Ana­lí­sia, seu co­ra­ção ba­tia como pan­deiro. Du­rante os qua­tro anos, o bairro ha­via mu­dado muito, bem como o iti­ne­rá­rio do co­le­tivo. Ele to­mava o maior cui­dado para ler as pla­cas com os no­mes das ruas. Em certo mo­mento che­gou a per­gun­tar ao mo­to­rista se re­al­mente iriam pas­sar na rua que ele que­ria. “Da­qui a pouco”, res­pon­deu o ho­mem.

As­sim que o ôni­bus en­trou na rua de Ana­lí­sia, os pas­sa­gei­ros fi­ca­ram sur­pre­sos. To­das as ár­vo­res ti­nham fita ama­rela amar­rada ao tronco.

E-mail: otanunes@gmail.com « vol­tar

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