Foi em um es­tá­dio, ou me­lhor, em um clube, ou me­lhor, em uma qua­dra de es­por­tes, isso mesmo. Afi­nal nem 100 pes­soas che­ga­ram a ir ao show. Ve­lhos su­ces­sos e mú­si­cos ve­te­ra­nos não é uma com­bi­na­ção que dá certo. Os Rol­ling Sto­nes es­tão ga­gás e lo­tando até praias, você vai di­zer. É ver­dade, mais um mo­tivo para en­cher a cara de raiva.

Até pro­pus para a gra­va­dora um acús­tico, está na moda essa por­ca­ria para le­van­tar as mú­mias da in­dús­tria fo­no­grá­fica. Mi­nha idéia ori­gi­nal foi apre­ci­ada, mas tem uma fila de vovôs na frente. Acho que até eu com­ple­tar 80 anos mi­nha banda con­se­gue gra­var.

Essa in­je­ção de vi­o­li­nos de­sa­fi­na­dos se­ria bem-vinda por­que mais uma vez foi la­men­tá­vel como ter­mi­nou aquela apre­sen­ta­ção. Sem bis e nem a pla­téia fa­zendo ques­tão de pe­dir. A ilu­mi­na­ção e o re­torno tam­bém eram uma por­ca­ria. Dou gra­ças a Deus que es­ses fãs co­ra­jo­sos pa­ga­ram o in­gresso. Eu não pa­ga­ria.

Como lí­der não sou o cara aglu­ti­na­dor da banda não, muito pelo con­trá­rio. Acho que de­vía­mos pa­rar e mon­tar um es­tu­di­o­zi­nho, uma es­cola de mú­sica, ten­tar agen­ciar al­gum pir­ra­lho ou pro­du­zir dis­cos, sei lá. Nossa lenda viva da gui­tarra, Ma­teus Fausto, é que é o en­tu­si­as­mado, o cara que até hoje vive nos anos 70. Às ve­zes te­nho in­veja dele, ele ainda faz aque­les so­los in­ter­mi­ná­veis de gui­tarra como se fos­sem a maior no­vi­dade do rock’n’roll. É a vida… Como pre­ci­sa­mos pa­gar as con­tas e pen­sões ali­men­tí­cias e não sa­be­mos fa­zer ou­tra coisa, ainda es­ta­mos na es­trada.

Por di­ver­são nem é tanto mais. Eu não te­nho saco para atu­rar qua­ren­tona gor­di­nha, com boca de cin­zeiro e que diz ter co­me­çado a na­mo­rar o ex-marido me ou­vindo quando mo­ci­nha. Se fos­sem pelo me­nos aque­las ca­va­las con­ser­va­das, mas es­sas são ra­ras.

Nesse úl­timo lu­gar que fi­ze­mos o show mesmo, ci­dade in­te­ri­o­rana com pou­cos ba­res aber­tos de ma­dru­gada, nem tem o que fa­zer. Pa­ga­ram umas cer­ve­jas para a gente num bo­teco só com ho­mem, não agüen­tei fi­car duas ho­ras no lu­gar. Nosso ro­a­die me le­vou no ho­tel e pu­lei na cama para es­que­cer.

A merda é que quem foi rei não perde a ma­jes­tade ou ve­lhos há­bi­tos não po­dem pa­rar, para ser mais exato. Na es­pe­rança de que aquele ho­tel não fosse um es­ta­be­le­ci­mento res­pei­tá­vel li­guei às 3h da ma­nhã na re­cep­ção pe­dindo os ser­vi­ços de uma acom­pa­nhante. Não me sur­pre­endi com a res­posta do por­teiro, ‘esse ho­tel não tra­ba­lha com isso’, mas fi­quei emo­ci­o­nado com a pres­ta­ti­vi­dade do su­jeito, que se ofe­re­ceu para olhar no jor­nal lo­cal os anún­cios de va­ga­bun­das e des­co­lar umas para mim.

Um he­do­nista nesse fim de mundo, ale­luia! Fi­quei fe­liz com essa des­co­berta e o alto teor al­coó­lico no que res­tou do meu cé­re­bro me de­ram a co­ra­gem para agra­de­cer a gen­ti­leza e re­tri­buir com ou­tra: chamei-o para vir par­ti­ci­par de uma fes­ti­nha em meu quarto. Pas­sado um tempo sei que esse fa­vor ofe­re­cido foi na ver­dade uma fria, pois quem ia que­rer uma bi­cha ve­lha?! Mas não es­tava nem aí, só bê­bado e a fim de cur­tir com aquele cara do qual nem lem­brava di­reito o rosto.

Após al­guns se­gun­dos de si­lên­cio no te­le­fone o gen­til por­teiro res­pon­deu “vai to­mar no cu sua bi­cha” e ba­teu o fone na mi­nha cara. Hoje agra­deço esse in­fe­liz, afi­nal re­pe­tir mi­nhas ex­pe­ri­ên­cias de sexo li­vre do pas­sado com um Se­bas­tião ca­beça chata é muito fim de car­reira. Aca­bei me con­ten­tando com uma no­bre gar­rafa de Pre­si­dente que en­fei­tava o pés­simo bar do quarto.

O mais fan­tás­tico dessa apre­sen­ta­ção, po­rém, foi acor­dar de­pois de porre com Ma­teus Fausto no meu quarto to­cando air gui­tar e so­lando com a boca com o pre­texto de mos­trar uma nova mú­sica que ti­nha aca­bado de com­por no ba­nheiro. Ime­di­a­ta­mente o man­dei a merda no ve­lho es­pí­rito rock’n’roll e vol­tei a dor­mir.

E-mail: reichaves@hotmail.com

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